Caso Herzog: o fim de um mistério
Mais de 50 anos após a morte do jornalista Vladimir Herzog, pesquisadores conseguiram identificar o local exato onde a ditadura militar encenou o falso suicídio que marcou um dos episódios mais emblemáticos do período.
O achado é resultado de um trabalho minucioso que envolveu historiadores, arqueólogos e arquitetos especializados em espaços de memória. A partir da escavação de pisos, paredes e tetos, a equipe encontrou indícios materiais que coincidem com registros fotográficos e documentos da época — entre eles, a imagem do corpo de Herzog pendurado por uma faixa na grade de uma janela, divulgada à época pelos militares como suposta prova de suicídio.
“Ali havia vestígios encobertos por reformas posteriores, mas que guardavam respostas para um dos episódios mais simbólicos do horror da ditadura”, diz um pesquisador.
Cela onde Vladimir Herzog foi morto.
Reprodução/Fantástico
Marcas escondidas pela reforma
O prédio, que abrigou o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), foi reformado na década de 1980 para receber o Instituto de Criminalística. Pisos foram trocados, paredes cobertas por tinta e azulejos, e estruturas removidas. Ainda assim, os pesquisadores conseguiram localizar marcas reveladoras.
Entre os elementos encontrados estão remendos na parede que coincidem com os pontos de fixação da grade da janela vista na foto histórica, vestígios do antigo piso de tacos — depois recoberto por material vinílico — e um buraco na parede que corresponde ao local onde ficava a caixa do ferrolho da porta, retirada durante a reforma. As dobradiças originais da porta também permanecem no mesmo lugar.
A comparação com o laudo da morte de outro preso político, o PM José Ferreira de Almeida, morto no mesmo ano e na mesma sala, reforçou as conclusões. “Janela, piso, ferrolho e dobradiças, cruzados com a documentação histórica, dão segurança de que foi exatamente aqui que a farsa foi encenada”, afirma o arquiteto responsável pela perícia espacial.
Uma morte que virou símbolo
Vladimir Herzog era jornalista, diretor de jornalismo da TV Cultura e filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Crítico da luta armada, dedicava-se à defesa da liberdade de expressão, da democracia e à denúncia do autoritarismo. Convocado para prestar depoimento, apresentou-se voluntariamente ao DOI-Codi na manhã de 25 de outubro de 1975.
Aos amigos e à mulher, tentou tranquilizar: acreditava que responderia às perguntas e voltaria para casa no mesmo dia. Herzog tinha dois filhos pequenos, de sete e nove anos. Horas depois, estava morto.
A versão oficial divulgada pelos militares foi a de suicídio. Mas desde então, especialistas, familiares e entidades de direitos humanos apontam que a cena foi forjada para encobrir a morte provocada por tortura. “Claramente não é uma cena de suicídio, e sim uma encenação para ocultar uma morte sob tortura”, diz Deborah Neves, coordenadora do grupo de trabalho do Memorial DOI-Codi.
A divulgação da foto teve efeito contrário ao pretendido pelo regime: provocou comoção nacional, mobilizou setores da sociedade civil e marcou uma virada no desgaste público da ditadura.
Espaço de memória
Para a equipe da Unifesp e o Instituto Vladimir Herzog, a identificação da sala reforça a importância de transformar o antigo DOI-Codi em um espaço de memória e consciência histórica. O prédio é tombado, e desde 2021 o Ministério Público de São Paulo move uma ação para que a Secretaria de Segurança Pública autorize a criação de um centro de memória no local.
Em nota, a Secretaria da Cultura do Estado afirma que São Paulo já conta com um equipamento dedicado à preservação das violações de direitos humanos do período, o Memorial da Resistência. Ainda assim, pesquisadores defendem que o edifício onde ocorreram as torturas tenha uma função educativa própria.
“Preservar esse espaço é convidar a sociedade a entrar ali e refletir sobre o que aconteceu. É permitir que as pessoas sintam, ainda que simbolicamente, o peso daquele momento trágico da história brasileira”, afirma um dos especialistas.
‘Símbolo sinistro do horror da ditadura’: como estudo achou sala onde regime simulou suicídio de Vladimir Herzog?
Reprodução/TV Globo
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