Pesquisas qualitativas usadas por campanhas eleitorais e empresas têm revelado um comportamento que vai além dos números — e ajuda a explicar mudanças no cotidiano das famílias brasileiras. Um dos achados recentes aponta que homens estão apostando em plataformas de bets de forma escondida, muitas vezes sem o conhecimento das parceiras.
O tema aparece no podcast “O Assunto” desta quinta-feira (9), que discute como funcionam as chamadas “salas de espelho” — ambientes em que pesquisadores observam conversas entre eleitores selecionados enquanto acompanham as reações do outro lado de um espelho.
Nessas dinâmicas, grupos são formados com base em critérios como renda, gênero e faixa etária. Durante cerca de uma ou duas horas, os participantes debatem temas diversos sob mediação. Mais recentemente, parte dessas sessões passou a acontecer também de forma virtual, com cada participante em sua própria casa.
Diferentemente das pesquisas quantitativas, que medem intenção de voto ou opinião em números, as qualitativas buscam entender sentimentos, motivações e comportamentos.
Urna eletrônica
Giuliano Gomes/PR Press
Foi nesse tipo de estudo que surgiu um dado considerado sensível. Segundo o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, em grupos formados apenas por homens os participantes relatam que fazem apostas online de forma individual e escondida — e afirmam nos grupos que estão ganhando dinheiro, quando na prática acumulam perdas.
“O dinheiro da família está sendo consumido quase sem perceber por esse mecanismo individual do jogo”, afirma Nunes.
O comportamento ajuda a explicar um cenário mais amplo identificado nas pesquisas. Apesar de indicadores econômicos positivos, como aumento de renda e queda do desemprego, parte da população relata dificuldade financeira. Entre os fatores apontados estão o endividamento e o alto custo de vida — e, agora, o impacto silencioso das apostas.
“As respostas caminham na direção de um conceito que os americanos chamaram de “affordability”. Elas falam o seguinte: ‘minha renda até aumentou, mas o custo de vida associado à minha renda aumentou muito mais'”, diz Felipe. Ele conta que, quando indagados sobre o aumento do custo de vida em comparação com os números da economia, descobrem-se três elementos: endividamento, patamar do preço, e o último, e mais importante: a forma como os brasileiros estão jogando
“Em salas de espelho com homens e mulheres você não escuta a palavra bet, jogo. Quando vai para sala só com homens, eles revelam, estão jogando escondido, perdem dinheiro e não assumem”, aponta Felipe “Estão dizendo nos grupos que estão ganhando mas, na verdade, o dinheiro da família tá sendo consumido quase que sem perceber por esse mecanismo individual do jogo”, continua.
📊 Dados trazidos por Natuza Neri durante o episódio, provenientes de pesquisa quantitativa, reforçam o quadro: 29% dos entrevistados relataram ter começado a apostar para tentar pagar contas, e 27% buscavam renda extra. Entre os inadimplentes, 46% apostam — incluindo quem já está com o nome negativado.
A dinâmica das salas também revela diferenças entre homens e mulheres. Em ambientes separados, surgem questões mais específicas.
As mulheres falam mais sobre saúde, bem-estar da família e políticas públicas. Já os homens demonstram maior preocupação com status social e segurança — o que ajuda a contextualizar o avanço das apostas como tentativa de aumentar renda ou melhorar a percepção de sucesso.
Esse tipo de comportamento dificilmente aparece em levantamentos tradicionais. Para Nunes, as pesquisas qualitativas captam relatos mais íntimos e menos filtrados, ditos apenas em ambientes considerados seguros — e que surgem justamente porque esse terço do eleitorado, os chamados independentes, é o grupo que, segundo ele, vai definir o resultado da eleição de 2026.
“Entender o que move esse eleitor é fundamental para entender o resultado lá na frente”, afirma o cientista político.
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O podcast O Assunto é produzido por: Luiz Felipe Silva, Sarah Resende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stéphanie Nascimento. Colaborou neste episódio Catarina Kobayashi. Apresentação: Natuza Nery.
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O Assunto é o podcast diário produzido pelo g1, disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube. Desde a estreia, em agosto de 2019, o podcast O Assunto soma mais de 168 milhões de downloads em todas as plataformas de áudio. No YouTube, o podcast diário do g1 soma mais de 14,2 milhões de visualizações.
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Reprodução/TRE-RN
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