Faltando pouco menos de 6 meses para as eleições de 2026, coligações, partidos e candidatos já tem algumas de suas principais estratégias definidas para a disputa. No campo nacional, o PT, que busca a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Planalto e o PL, que tem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como pré-candidato, já decidiram suas prioridades para o pleito. Boa parte dos partidos de centro e centro-direita, no entanto, seguem negociando apoios e fechando acordos.
A reportagem da Jovem Pan conversou com assessores, congressistas, ministros e marqueteiros para explicar as estratégias dos partidos mais relevantes para 2026.
No campo da esquerda, algumas estratégias usadas em 2022 devem continuar em foco. Um exemplo é a retomada da pauta de “defesa da democracia”, que, na avaliação de líderes, deu certo em 2022 e foi reforçada no ano passado, durante o tarifaço de Donald Trump, com a narrativa de soberania — também com bons resultados. A expectativa é que os temas retornem, mas de forma mais tangencial, para mostrar os feitos do governo, ganhando força com a aproximação do calendário eleitoral. Imagens do 9 de janeiro, inclusive, devem ser muito utilizadas na campanha.
Além disso, a ideia também é resgatar a imagem de farol internacional, mantendo o bom relacionamento com Trump, mas também atuando como porta-voz de pedidos de paz, como Lula já tem feito recentemente, em meio à guerra entre Estados Unidos e Irã — com destaque para acenos à defesa da Palestina, algo inegociável para o presidente. Avançar no acordo com a União Europeia, mantendo também a boa relação com os BRICS e com os vizinhos da América Latina, também é considerado importante.
“Muito coisa boa resultará desta parceria”, diz Trump sobre Lula │Ricardo Stuckert / PR
Para alavancar a campanha de Lula, uma das grandes apostas é o avanço da pauta do fim da escala 6×1, com alto teor popular. O objetivo é conquistar especialmente o eleitorado mais jovem e desiludido, que rejeita Lula. Outro público-chave, considerado prioridade, são os evangélicos. Em 2022, por exemplo, o presidente chegou a assinar uma carta de compromisso com essa fatia do eleitorado, mas a leitura é que o avanço desde então foi muito pequeno, e o diálogo com esse setor ainda é visto como essencial. Mulheres e nordestinos, mais afeitos ao presidente, serão foco da campanha voltada a esse público.
Há, ainda, frustração de que números da economia, como o desemprego recorde e a inflação controlada, não tenham ajudado na popularidade. Ainda assim, aposta-se no efeito da isenção de IR para quem ganha mais de R$ 5 mil como ponto economicamente positivo.
O histórico recente, no entanto, não é animador: recordes de empregabilidade, inflação controlada e o exito na negociação para derrubar a maioria das tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos não conseguiram evitar a queda de Lula nas pesquisas. Por isso, o governo aposta mais fichas na discussão pelo fim da escala 6×1.
A resistência do setor produtivo, no entanto, ajuda a narrativa da oposição de que a suposta irresponsabilidade fiscal do governo Lula vai “quebrar” o Brasil. Apesar disso, a avaliação é que, faltando poucos meses para a eleição, a pauta ajuda a alavancar a candidatura do atual presidente, especialmente entre os mais jovens, demografia que é uma das que mais rejeita Lula e o PT.
Outro trunfo da campanha petista está na força da figura do presidente: apesar dos 80 anos, Lula continua com energia e discurso afiado. Notoriamente reconhecido com um dos grandes oradores da história da política brasileira, o petista tem histórico de crescimento na hora H: debates, discursos e propagandas na TV e na rádio foram essenciais nas três vitórias de Lula até aqui. Mesmo nas vezes em que foi derrotado, o ex-sindicalista teve momentos de protagonismo nos embates com Fernando Collor e FHC.
Apostas de Flávio
O senador e pré-candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro, participou nesta quarta-feira (22) da feira agropecuária Norte Show, em Sinop, no Mato Grosso │Bruno Pinheiro/Jovem Pan
Enquanto isso, a campanha de Flávio aposta na moderação. Desde o ano passado, ele tem se apresentado como “Bolsonaro suave”, e a estratégia deve continuar, inclusive com inserções na internet reforçando a ideia de ponderação. A leitura é que o pré-candidato pode ganhar maior confiança do eleitorado geral e de parcelas receosas da população, especialmente diante da volatilidade do mercado a depender de falas específicas, caso permaneça contido. Críticas mais duras ao Supremo Tribunal Federal (STF) e menções explícitas ao 8 de janeiro devem ficar a cargo da ala mais radical de aliados, e não do próprio Flávio.
O entendimento do entorno de Flávio é que vale a pena desagradar parte da direita para ir atrás de outros públicos. Para eles, os votos dos ultraconservadores e bolsonaristas já estão garantidos, independentemente de posicionamentos do candidato. Isso não significa, no entanto, que ex-presidente ficará escondido. A popularidade de Bolsonaro com eleitores de direita e políticos conservadores de outros países, obriga a campanha do PL a quebrar a cabeça para encontrar a dose ideal de Bolsonaro em uma campanha encabeçada por um membro da própria família. No entorno, o projeto é chamado de “bolsonarismo light”.
Dentro dos indecisos, um público em especial é bastante cobiçado pelo pré-candidato do PL: os jovens, que tem mostrado uma resistência ao presidente Lula até mesmo maior que a dos evangélicos.
Nesse sentido, o escândalo envolvendo o Banco Master é apontado como peça central. O objetivo é transformá-lo em símbolo contra o Supremo Tribunal Federal, reforçando a narrativa de desgaste das instituições de maneira geral. A ideia, segundo aliados, é usar o caso como exemplo de um sistema que precisa ser investigado.
No campo das prioridades, principalmente para o primeiro turno, estão o agronegócio — tradicionalmente alinhado à direita, mas que pode migrar para Ronaldo Caiado, na avaliação de interlocutores — e os insatisfeitos com Lula que também não aceitaram bem a gestão de Jair Bolsonaro. Daí a estratégia de explorar um tom mais moderado.
Além disso, a idade de Lula, que fará 81 anos em 2026, logo após as eleições, e o fato de já ter sido presidente três vezes devem ser amplamente explorados. O objetivo é demonstrar que não há novidade por vir. “Se nada mudou até agora, não é em um quarto mandato que vai mudar”, explica um líder. Essa bandeira será usada, principalmente, em temas-chave para a sociedade, como segurança pública e corrupção.
Há uma expectativa crescente de que a preocupação com a corrupção tenha aumentado recentemente em pesquisas com o eleitorado, o que pode abrir espaço para discussões como o escândalo do INSS. Membros da campanha, no entanto, pedem cautela, já que os desvios iniciais, segundo as investigações, datam de 2016, com intensificação em 2019, na gestão de Jair Bolsonaro. A avaliação é que pode haver desgaste, mas com risco de efeito reverso para Flávio. De maneira geral, o entendimento é que ambas as campanhas têm “munição” guardada umas contra as outras nesse tema.
A economia também não ficará de fora das prioridades da direita. Os ataques devem se concentrar principalmente na sensação de alta de preços e no apelido do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de “Taxad”. Ainda há incertezas sobre como explorar a pauta da escala 6×1, considerada eleitoreira, contra o atual presidente, mas é possível que a direita utilize argumentos de empresários e aposte no aumento da informalidade para criticar a medida.
No campo da segurança, a estratégia é explorar a sensação de insegurança no país e levantar pautas como o aumento da violência contra mulheres para atacar a esquerda. Além do argumento de que o governo “não tomou medidas efetivas” em um terceiro mandato, também deve ser explorada a questão de o governo Lula ter freado a classificação de organizações criminosas como terroristas.
Tanto Lula quanto Flávio têm outros adversários poderosos: os votos brancos, nulos e abstenções. Foram 5,7 milhões entre bancos e nulos, além de 32,2 milhões de eleitores que não foram votar no pleito de 2022. Convencer parte desse eleitorado a ir às urnas seria essencial em na disputa apertada que se desenha para outubro.
Lula e Flávio Bolsonaro aparecem técnicamente empatados nas pesquisas eleitorias │Bruno Peres/Agência Brasil/TON MOLINA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
POLARIZAÇÃO E “VÁCUO” NO CENTRÃO
Tanto a direita quanto a esquerda entendem que há espaço para dialogar com o centro. De ambos os lados, há a visão de que esse público pode definir a eleição, mas as siglas do chamado Centrão têm demonstrado pouca disposição para diálogo.
No PSD de Kassab, por exemplo, a orientação é apostar no cansaço com a polarização para construir um público próprio. Há preocupação, tanto na campanha de Lula quanto na de Flávio, em conquistar o eleitorado que pode migrar para Ronaldo Caiado, influenciado pelo crescimento do partido.
No caso de Lula, a avaliação é que a escolha de Jair Bolsonaro por Flávio abriu espaço para negociar com partidos que nunca fizeram parte do governo ou que já se afastaram. União Brasil e MDB estão no radar, enquanto PP e PSD são considerados mais distantes. Já na campanha de Flávio, o cenário é mais tranquilo em relação às alianças: com o vice sendo negociado pelo PP, o entendimento é que a federação União-Progressista já está “no jogo”. As ligações do MDB e do PSD com Tarcísio de Freitas, em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, também são vistas como fator positivo e possível facilitador de apoio em um eventual segundo turno.
Foco no Congresso
Em paralelo à disputa presidencial, um dos principais focos dos três espectros políticos é o controle do Congresso Nacional.
A saída de 17 ministros do governo federal evidenciou a importância do Legislativo para a esquerda. O objetivo foi ampliar a presença, principalmente no Senado, considerado prioridade, com nomes fortes e de confiança de Lula. Na Câmara, o governo admite inferioridade numérica, mas busca eleger figuras combativas para equilibrar a disputa de narrativas.
Palácio do Congresso Nacional │Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Enquanto isso, direita e centrão disputam protagonismo. A ampliação das bancadas na Câmara e no Senado, tanto para dominar a agenda legislativa quanto para controlar parcelas maiores do orçamento, é prioridade quase unânime. Partidos como PL, PP e União Brasil têm apostado em “puxadores de voto”, ou seja, figuras com grande influência popular, especialmente nas redes sociais. Até mesmo nomes inelegíveis, como Pablo Marçal, são utilizados como trunfos nesse sentido.
Já no caso de PSD e MDB, há o reconhecimento da falta desses “puxadores”, sobretudo no partido de Kassab. No MDB, liderado por Baleia Rossi, há votações consideradas expressivas que podem impulsionar a legenda. Existe grande expectativa em relação à representatividade de deputados federais por São Paulo. O prefeito da capital, Ricardo Nunes, por exemplo, perdeu 30% do secretariado para a disputa, já que muitos pretendem concorrer à Câmara.
Fonte: Jovem Pan