Atletas de alto rendimento sendo mães, até uns anos atrás, era uma realidade fora de cogitação. Por mais que algumas histórias tenham chamado atenção ao decorrer dos anos, como Isabel Salgado jogando até os seis meses de gestação, decisões como essas não eram comuns, porque as mulheres precisavam escolher entre a profissão e a maternidade.
Isabel Salgado foi uma das pioneiras do Brasil a jogar grávida │Reprodução/TV Globo
Só que, hoje, as ligas e confederações têm mudado seu posicionamento e dado apoio para atletas que querem ser mães enquanto continuam no alto rendimento.
Custeio de viagens da CBF
No final de 2025, durante o anúncio das mudanças do futebol feminino para a temporada de 2026, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) informou que a entidade passaria a custear as viagens de filhos de atletas em fase de amamentação.
Uma atleta que se beneficia do recurso é foi a atacante Ketlen Wiggers, artilheira do Santos, que teve Lucca em novembro de 2025.
Atacante do Santos, Ketlen Wiggers foi mãe em novembro de 2025 │Reprodução/Instagram/@ketlenwiggers
Mesmo durante a gestação, ela continuou treinando e quatro meses após dar à luz, estava de volta aos treinos.
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Diferente de Ketlen, que ainda não voltou aos jogos, a CBF informou à Jovem Pan que quatro jogadoras já usaram o benefício oferecido, sendo elas:
Florencia Soledad Jaimes, do Internacional
Angela Soares Neves, do Remo
Miriam Farias da Silva, do Itapuense
Rosileide Gomes da Cunha, do Ypiranga
Maternidade no surfe
Tati Weston-Weeb deu à luz em fevereiro deste ano a Bia Rose │Reprodução/instagram/@tatiwest e jesse_mendes
A medalhista olímpica Tati Weston-Weeb deu à luz em fevereiro deste ano Bia Rose, sua primeira filha com o também surfista Jessé Mendes. Apesar de a gravidez ter acontecido quando ela estava no ano sabático, Tati participou de uma competição em 2025, quando já estava gestante.
Disputou a nona etapa do circuito mundial de surfe, realizada na Praia de Itaúna, em Saquarema (RJ), em junho de 2025. Dois meses antes de anunciar a gestação de 17 semanas.
A surfista, que planeja voltar a competir em 2027, será beneficiada com o Season Wildcard, medida que garante vaga na elite para surfistas que precisem interromper a carreira temporariamente devido à gravidez.
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Entretanto, em março deste ano a World Surf League (WSL), anunciou o “convite de maternidade”, que permite que as atletas não precisem refazer o caminho pelas divisões de acesso (Challenger Series) e vão direto para o Championship Tour (CT) – ele é igual ao Season, só que é disponibilizado apenas para mulheres.
Tati não poderá usar o “convite maternidade” porque ele só é disponibilizado para apenas um atleta por temporada, que foi concedido a francesa Johanne Defay que tem prioridade nas regras da WSL como ex-campeã mundial.
Vôlei e sua história com a maternidade
Além de Isabel Salgado que fez história e se tornou referência quando assunto é conciliar a maternidade com o alto rendimento, o vôlei tem um longo histórico de atletas que vivem a maternidade enquanto continuam competindo.
Assim como Isabel causou impacto nos anos 80, em 2025 foi a vez de Pri Heldes ganhar os holofotes ao disputar uma partida da Superliga grávida de 5 meses.
Pri Heldes jogou com cinco meses de gestação │Thiago Porthix/FFC
Assim como Isabel e Pri, no vôlei outras jogadoras também atuaram durante a gestação. A bicampeã olímpica Paula Pequeno seguiu em quadra até o quinto mês de gravidez. Karine Guerra, atuou grávida por duas equipes, Minas e Praia Clube. Em uma delas até os sete meses.
Tandara Caixeta também ficou em quadra até o quinto mês. Ela foi a primeira atleta a buscar na Justiça brasileira os direitos trabalhistas ligados à maternidade, e venceu a ação contra o Praia Clube, em que processou o clube por ter seu salário reduzido a 0,5% após ela engravidar.
A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) é uma das entidades que tem ações de suporte às atletas mães. Em nota enviada à Jovem Pan, a CBV informou que desde 2023 conta com o “Fundo Especial de Apoio ao Atleta, que dá suporte financeiro a atletas sem vínculo com clubes em casos de doença grave, gravidez, inadimplência do contratante e lesões durante a disputa de partidas em competições”. Quatro atletas já usufruíram do Fundo por conta da gravidez.
Específico ao vôlei de praia, desde 2021, a atleta que se ausenta das quadras por conta da gravidez “tem seus pontos no ranking congelados por até 24 meses e pode retornar às competições sem perda esportiva”, explica a CBV. Quatro atletas já usufruíram do Fundo por conta da gravidez.
12 meses de licença remunerada no tênis
Em março de 2025, a WTA anunciou um plano inédito de benefício para as jogadoras que querem ser mães. Ela passou a oferecer até 12 meses de licença-maternidade, além de bolsa para tratamento de fertilidade e outros benefícios. O projeto é uma parceria com o Fundo de Investimento Público Saudita.
Entretanto, apesar de existir mais de 320 jogadoras elegíveis para o benefício, existem critérios que precisam ser cumpridos, como, atingir um certo número de torneios WTA em uma janela de tempo.
Sarah Menezes x CBJ
Em meio a onde de evoluções sobre o alto rendimento e a maternidade, um caso no ano passado chamou atenção. A campeã olímpica como atleta e treinadora Sarah Menezes, que hoje também é candidata a deputada federal, foi demitida menos de um anos depois de ter tido sua segunda filha, nascida em maio de 2025. Em fevereiro deste ano, a Confederação Brasileira de Judô informou que Sarah não era mais treinadora.
Nas redes sociais, sem citar a CBJ, a ex-judoca fez uma publicação reflexiva no dia 8 de março, onde questionava: “Por que uma mulher precisa escolher? Atleta, campeã e mãe. Tudo ao mesmo tempo!”, diz a publicação, quem também trazia outro trecho onde dizia: “igualdade real e reconhecer que a maternidade não é incompatível com excelência profissional”.
A publicação foi acompanhada de outras frases que fala que ser mulher é lutar e ser mulher no esporte é lutar ainda mais.
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Em entrevista à Ielcast, ela informou que é grata à confederação apesar do ocorrido e disse que a explicação da demissão foi que estava havendo uma mudança, após alterações que tiveram na CBJ, e ela foi a escolhida para ser desligada.
Em nota, a CBJ se posicionou e esclareceu que a decisão se deu por mudança na comissão técnica e que a demissão veio “meses após o retorno dela da licença-maternidade, dentro de um processo de reorganização interna voltado ao planejamento do atual ciclo olímpico.”
Questionado se há algum apoio a maternidade, a CBJ disse que hoje não possuem e que no judô, geralmente, as atletas escolhem ser mãe após encerrarem a carreira.
Sarah Menezes deu à luz a segunda filha em 2025 │Reprodução/Instagram/@menezessarah
Fonte: Jovem Pan