Se Liga Cacoal – Header
.

Se Liga Cacoal – Header

Mulheres imperfeitas são amadas?

Algumas pessoas passam a vida inteira tentando parecer fáceis de amar. Agradáveis, equilibradas, compreensivas, acolhedoras, sempre evitando conflitos e mantendo estabilidade para todos ao redor. Até perceberem que passaram tanto tempo sustentando uma imagem aceitável que já não conseguem reconhecer o que existe além dela.
A série Mulheres Imperfeitas desperta identificação justamente porque encosta em uma contradição bastante contemporânea: a dificuldade de admitir pensamentos, desejos e comportamentos moralmente questionáveis que parecem incompatíveis com a imagem organizada que aprendemos a sustentar diante dos outros.
A chamada “síndrome da boazinha” não é um diagnóstico clínico. Existe uma valorização social constante de quem suporta excessos sem reclamar, reduz conflitos, organiza o ambiente e mantém estabilidade mesmo quando está desconfortável. Com o tempo, adaptação deixa de ser recurso social e começa a ocupar o lugar da própria identidade.
Existe um tipo de amor que quase nunca aparece nas grandes declarações. Ele está nos hábitos repetidos silenciosamente. Na mãe que amassa a banana todos os dias, coloca uma pequena colher de Nutella porque sabe exatamente como o filho gosta. Pequenos rituais que parecem irrelevantes para quem olha de fora, mas que constroem previsibilidade, segurança e pertencimento à criança.
O problema começa quando esse lugar de cuidado deixa de ser gesto e passa a virar personagem. Quem sustenta tudo o tempo inteiro raramente encontra espaço para desmoronar sem decepcionar alguém.
Em algum momento, a vida entra no automático. As idas ao mercado, os horários funcionando, as conversas previsíveis e até a intimidade entrando em modo administrativo. Quase uma “lingerie funcional”. Bonita o suficiente para sustentar a estética da felicidade, confortável o suficiente para não provocar nenhum tipo de ruptura.
A Harvard Business Review publicou uma análise interessante mostrando que mulheres frequentemente recebem feedbacks mais “gentis” e suavizados no ambiente profissional. Existe um cuidado maior para não parecer duro demais. O problema é que, junto com a delicadeza, muitas vezes desaparecem também confronto, clareza e reconhecimento de liderança. Em silêncio, a agradabilidade continua sendo incentivada enquanto a assertividade ainda causa desconforto.
Muitas aprenderam a entregar excelência enquanto monitoravam constantemente como estavam sendo percebidas. Não basta fazer bem. É preciso continuar parecendo acessível, equilibrada e fácil de lidar.
Existe uma frase muito comum em relações afetivas e profissionais: “ela é fácil de lidar”. Quase nunca isso significa leveza genuína. Em muitos casos, significa apenas alguém que passou tempo demais aprendendo a não ocupar espaço.
Certos afetos não desaparecem só porque deixaram de ser convenientes. Eles continuam existindo de maneira silenciosa, atravessando ansiedade, irritação constante e até relações que produzem sensação momentânea de liberdade.
Nem todo interesse pelo perigo nasce da vontade de destruição. Às vezes nasce apenas do esgotamento de viver tempo demais dentro de uma vida administrada para não incomodar ninguém.
Pesquisadores da Stanford University já demonstraram que o excesso de autocontrole contínuo aumenta níveis de estresse fisiológico e desgaste psíquico. Sustentar uma imagem exige energia. O corpo frequentemente percebe antes da consciência.
Existe uma diferença importante entre maturidade e desaparecimento de si. Nem toda pessoa calma está em paz. Algumas apenas aprenderam a sobreviver em sofrimento e despersonalização.


Fonte: Jovem Pan

Destaques