Enquanto fazia faxina na biblioteca, encontrei, entre meus livros, um Guia Quatro Rodas de Ruas de São Paulo, edição 2003. Abri com todo o respeito do mundo. Aquele calhamaço de mapas impresso em letras minúsculas: era uma espécie de GPS em forma de bloco monolítico.
De tão pesado, poderia esmagar joelhos e, de quebra, destruir qualquer porta-luvas. O georreferenciamento em tempo real, com sua precisão milimétrica, tornou tudo aquilo desnecessário. Tudo, menos a minha desorientação.
Parcela significativa dos atuais leitores deve estar se perguntando: encontrar ruas folheando um caderno? Sim, exatamente isso. Para sair de carro, eu precisava da chave – nada de botão de ignição, documentos impressos – não havia carteira digital, um conjunto de mapas atualizado em janeiro de cada ano e um bom par de óculos. Eu tinha quase tudo. Faltava-me enxergar.
Minha miopia borrava o mundo; meu astigmatismo distorcia a realidade; minha eterna distração preenchia as lacunas enquanto meu estrabismo desconfiava de qualquer direção apresentada. Juntos, atuavam como uma força-tarefa especializada em transformar qualquer rua em possibilidade ou desvio.
Enquanto dirigia, eu abria o guia no colo, procurava o índice, a página e a quadrícula. Parecia um jogo de batalha naval: B-7, Rua Tupi; C-4, Avenida Rebouças; D-9, uma DR na Radial Leste.
O norte ficava para cima, obediente, como em qualquer mapa.
Em São Paulo, não.
As ruas seguem desvios criados à época dos tropeiros; os caminhos de mulas, por sua vez, permanecem atualíssimos, hoje vendidos como urbanismo country. Algumas mudam de nome no meio do nada, sem explicação, trocam de identidade e continuam circulando impunes pelo cadastro municipal. Provavelmente entraram em delação premiada, com direito a proteção de logradouro.
Então veio o Waze, seguido pelos demais aplicativos de navegação. Pensei que seria uma solução adequada, até o carro começar a falar comigo. Quem me conhece sabe o quanto o silêncio me é importante. Aquelas vozes, porém…
Tem a narração de aeroporto, opções em qualquer língua e cantora em tom de sofrência que manda virar à esquerda chorando, enquanto o glitter em gel escorre livre pelo painel reluzente. Escolhi o grego, minha língua materna, com voz masculina. Ficou tudo mais humilhante porque agora eu entendia perfeitamente as instruções e, mesmo assim, continuava perdida.
O aplicativo tem a autoestima em dia. Manda virar com certeza. Mesmo quando a direita parece esquerda. Se antes eu errava o caminho em papel, agora faço a mesma coisa com apoio de satélite.
Continuo usando óculos, agora com presbiopia incluída no pacote: posso errar a rota de longe, de perto e à meia distância. Sinto-me usuária VIP. Tenho cobertura completa. O guia em papel, ao menos, era discreto. Ficava aberto no meu colo, pesado e mudo, esperando que eu fracassasse sozinha. O Waze, não. O Waze participa. Torce contra em tempo real.
— Vire à direita.
Não virei. Não quis. Fiz birra cartográfica.
— Recalculando.
Pausa técnica. O silêncio sugere que o aplicativo está julgando minhas escolhas.
Continuei em frente, porque minha relação com direções sempre incluiu esperança e fé, não apenas dados, satélites e bytes. E, acreditem, sou urbanista.
Até que a voz anuncia:
— Você chegou ao seu destino.
Frase que nem minha psicanalista ousaria pronunciar.
Fonte: Jovem Pan