Os números publicados pelos Correios no último fim de semana não surpreendem quem acompanha a deterioração da estatal, mas chocam pela velocidade da queda. Em apenas um trimestre, a empresa acumulou prejuízo de R$ 3,1 bilhões, quase o dobro do registrado no mesmo período de 2025. A receita caiu, as despesas administrativas quase dobraram e os gastos financeiros mais que triplicaram. O patrimônio líquido negativo chegou a R$ 16,2 bilhões. A empresa parece, na prática, insolvente.
Diante desse cenário, o governo anunciou um plano de reestruturação: empréstimo de R$ 12 bilhões de instituições financeiras, programa de demissão voluntária para dez mil funcionários e fechamento de unidades. O dinheiro do contribuinte será usado para reanimar uma empresa que a gestão estatal sistematicamente destruiu. É um ciclo vicioso e repetido: prejuízo, aporte, novo prejuízo.
Um problema estrutural, não conjuntural
Seria conveniente atribuir o colapso dos Correios à pandemia, à ascensão do e-mail, ao crescimento das plataformas privadas de logística ou até mesmo à taxa das blusinhas. Esses fatores existem, mas explicam apenas parte da história. A outra parte está no próprio modelo de empresas estatais. Enquanto operadores privados se adaptaram ao boom do comércio eletrônico e expandiram receitas, os Correios encolheram. A empresa que já ocupava lugar consolidado como líder no mercado, em função da proteção estatal, conseguiu ver sua receita bruta cair num período em que o e-commerce brasileiro não parou de crescer.
“Os Correios são um caso extremo, mas não o único. A gestão privada tem a vantagem de afastar interesses políticos e trazer uma administração profissional. Talvez por isso mesmo não esteja nos planos deste governo”, analisa Elena Landau, economista responsável pelo programa de privatizações nos governos de Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990, hoje conselheira do Livres.
Como Elena explica, a presença estatal em atividades econômicas não apenas distorce o mercado e fomenta a ineficiência, como também cria nichos de captura do poder político e desvia recursos que seriam melhor empregados na promoção de direitos fundamentais, como saúde, educação e segurança pública.
Público não é sinônimo de estatal
O ponto central do argumento liberal, frequentemente mal compreendido no debate brasileiro, é a distinção entre serviço público e gestão estatal. O Caderno de Políticas Públicas do Livres explicita essa separação: o Estado define metas, indicadores e fiscaliza; a operação pode e deve ser realizada por quem tiver maior capacidade de fazê-lo com eficiência. Privatizar a operação não significa abandonar o papel do governo em serviços públicos. Significa focar em torná-lo melhor.
O Estado pode promover o acesso universal a um serviço sem necessariamente ser o operador, atuando na definição de metas, fiscalizando resultados e regulando a concorrência, enquanto a iniciativa privada executa com maior flexibilidade e eficiência.
Essa lógica se aplica diretamente aos Correios. A obrigação de universalização do serviço, no caso a entrega de correspondências em qualquer município do país, inclusive os mais remotos, é uma política pública legítima. Mas ela pode ser garantida por contrato de concessão com operadores privados, por meio de obrigações de serviço universal impostas por um regulador independente. O que não se justifica é manter uma empresa insolvente, com patrimônio negativo de R$ 16 bilhões, como se fosse a única resposta possível para essa política.
A lógica de um programa amplo de privatização
O artigo 173 da Constituição estabelece a presença do Estado na economia como exceção, apenas em casos de imperativo à segurança nacional e interesse público bem definido por lei. Segundo essa lógica jurídica, todas as empresas estatais deveriam ser incluídas imediatamente em um programa amplo de privatizações para um exame criterioso conforme critérios objetivos:
Os monopólios constitucionais devem ser submetidos à reexame obrigatório de finalidade empresarial, com requisitos de essencialidade e objetivo público bem definido e mensurável;
As empresas de interesse público bem definido devem ter metas claras e prazos específicos de reavaliação;
As empresas obsoletas, aquelas que se dedicam a atividades que já se tornaram ou estão em processo de se tornar obsoletas, devem ser liquidadas ou vendidas;
As empresas redundantes, que possuem funções sobrepostas a outras já existentes, devem ser fundidas ou incorporadas;
Todas as outras, que não se enquadrarem nos critérios objetivos previstos pela constituição, devem ser extintas ou vendidas, por meio de processos transparentes e competitivos.
Com um portfólio mais enxuto, estados reduzem riscos fiscais, fortalecem a atuação regulatória e direcionam recursos para funções realmente estratégicas do setor público.
O custo de não decidir
Enquanto o debate político permanece paralisado, a conta cresce. R$ 3,1 bilhões em três meses. R$ 8,5 bilhões em 2025. Um patrimônio negativo de R$ 16,2 bilhões. Esses números não são abstrações contábeis. São recursos que o Estado extrai da sociedade para sustentar um modelo que já demonstrou não funcionar. Na prática, ao deixarem de ser utilizados em serviços essenciais, reduzem o poder de compra da população mais vulnerável.
Os Correios podem cumprir sua função social com operadores privados, contratos bem regulados e metas mensuráveis. O que eles não podem continuar fazendo é sangrar R$ 3 bilhões por trimestre sem que ninguém precise responder por isso.
O Caderno de Políticas Públicas do Livres está disponível para leitura na íntegra no site eusoulivres.org/cpp
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Fonte: Jovem Pan