O cuidado com a saúde de pessoas trans evoluiu nos últimos anos, com maior acesso a terapias hormonais e cirurgias de afirmação de gênero.
Nesse processo, um tema ainda pouco discutido é a fertilidade.
Terapias hormonais podem impactar diretamente a produção de óvulos e espermatozoides. Em alguns casos, esse efeito pode ser parcial. Em outros, pode se tornar permanente ao longo do tempo.
Por isso, a preservação da fertilidade precisa ser abordada antes do início da hormonização.
Uma janela que muitos desconhecem
O início da terapia hormonal é um momento importante na transição de gênero. No entanto, ele também pode marcar o começo de mudanças biológicas que afetam a capacidade reprodutiva.
Em pessoas designadas do sexo masculino ao nascimento, o uso de estrogênios e bloqueadores hormonais pode reduzir a produção de espermatozoides. Já em pessoas designadas do sexo feminino ao nascimento, a testosterona pode interferir na função ovariana e na qualidade dos óvulos.
Embora haja casos de recuperação parcial após suspensão do tratamento, essa resposta não é garantida. Por isso, o ideal é discutir a preservação antes de iniciar a terapia.
Desejo existe – informação nem sempre
Estudos mostram que muitas pessoas trans têm desejo de ter filhos biológicos. No entanto, esse tema frequentemente não é abordado de forma adequada durante o acompanhamento inicial.
Falta de informação, tempo reduzido para decisão, barreiras de acesso e até desconforto na abordagem do tema contribuem para que a preservação da fertilidade não seja considerada.
Isso cria um descompasso entre o desejo reprodutivo e a possibilidade real de concretizá-lo no futuro.
Opções existem, mas o acesso ainda é desigual
As principais estratégias de preservação são semelhantes às utilizadas em outros contextos. Para pessoas com produção de espermatozoides, o congelamento de sêmen é uma opção mais simples e rápida.
Para quem possui ovários, o congelamento de óvulos é uma alternativa, embora exija estimulação hormonal e coleta, o que pode ser mais complexo do ponto de vista físico e emocional.
Também é possível considerar o congelamento de embriões, dependendo do contexto e do planejamento reprodutivo.
Apesar dessas possibilidades, o acesso ainda é limitado em muitos cenários, seja por custo, disponibilidade de serviços ou falta de preparo das equipes.
A preservação da fertilidade trans envolve não apenas técnica, mas também acolhimento. É fundamental que o cuidado seja conduzido por equipes preparadas, com escuta qualificada e respeito às particularidades de cada pessoa.
A decisão de iniciar a hormonização é central no processo de afirmação de gênero. Incluir a fertilidade nessa conversa não significa atrasar esse caminho, mas ampliá-lo.
Porque, quando o assunto é futuro, informação no momento certo faz toda a diferença.
Dra. Stephanie MajerCRM/SP 174028 | RQE 393260GinecologistaGraduada em Medicina pelo Centro Universitário São CamiloEspecialização em Reprodução Humana no Hospital Pérola ByingtonEspecialista em Reprodução Assistida na ENNE ClinicMembro da Brazil Health
Fonte: Jovem Pan