O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou a cúpula do G7, na França, para defender o acordo firmado com o Irã, elogiar a mediação e atuação do Catar durante a guerra entre Washington e Teerã, e fazer críticas públicas à atuação de Israel no Líbano. Declarações sobre os mais variados tópicos foram dadas durante a conversa do líder norte-americano com o emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani.
Segundo o republicano, o entendimento com Teerã tem grandes chances de sucesso e poderá abrir caminho para uma nova fase de negociações. Trump também voltou a afirmar que o programa nuclear iraniano representava uma ameaça direta à existência de Israel.
Durante a conversa, o presidente americano afirmou que mantém uma boa relação com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, mas disse que o governo israelense precisa agir com mais responsabilidade em relação ao Líbano. Trump criticou um ataque realizado em Beirute pouco antes da formalização do acordo com o Irã, questionou a intensidade das operações contra o Hezbollah e chegou a sugerir que a Síria poderia desempenhar um papel maior no combate ao grupo libanês.
Acordo com Irã
Trump afirmou que o acordo firmado entre Estados Unidos e Irã tem boas chances de êxito e disse esperar que a próxima etapa das negociações seja ainda “mais fácil” de concluir. O presidente classificou o entendimento como “justo” e “bom” e negou rumores de que Washington faria investimentos financeiros em Teerã, categorizando os rumores como “ridículos“. Segundo ele, a guerra eliminou a antiga liderança iraniana e o país agora possui uma liderança “racional”.
Os Estados Unidos e o Irã chegaram, no domingo (14), a um acordo de paz e ao fim “imediato e permanente” das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano. O memorando, recentemente assinado de forma virtual, abre o caminho para a assinatura oficial do tratado, que acontecerá na Suíça, nesta sexta-feira (19), ainda sem local confirmado.
Dentre as demandas exigidas pelos países, espera-se a reabertura do Estreito de Ormuz, o descongelamento de bilhões de dólares de ativos iranianos bloqueados pelos EUA, além de exigências específicas por parte de cada país. No total, o documento abrange 14 pontos centrais. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, chegou a afirmar na terça-feira (16) que acabar com a guerra no Líbano, assim como em todos os fronts, é “a questão mais importante”.
Programa Nuclear
O presidente norte-americano voltou a afirmar que o acordo com o Irã especifica que Teerã não possuirá armas nucleares.”A única coisa que realmente importa para mim é que o Irã jamais terá uma arma nuclear, e isso está escrito de forma clara e inequívoca”, disse a jornalistas presentes na reunião bilateral. “O inferno cairá sobre o Irã se a República Islâmica pretender adquirir uma arma nuclear”, acrescentou Trump.
O presidente norte-americano também criticou o acordo nuclear anterior com o Irã, firmado durante o governo do ex-presidente americano Barack Obama, em 2015, como “um caminho aberto para armas nucleares”.
O tópico de manter ou não o enriquecimento de urânio em solo nacional foi motivo de divergências entre os quadros da República Islâmica. Um setor mais moderado defendia a flexibilização do estoque e o atraso no desenvolvimento do programa nuclear, enquanto quadros da Guarda Revolucionária apontam que abrir mão do programa nuclear pode ser visto como um passo importante para enfraquecer a soberania do país.
Relação com Israel
Trump afirmou que, se não fosse por ele, Israel não existiria, pois “não houve presidente que estivesse disposto” a tomar as ações que foram realizadas pelo seu governo. Além disso, o presidente dos EUA pontuou que Netanyahu deveria ser mais responsável em respeito à questão libanesa, visto que o confronto já se “prolonga por muito tempo”.
O líder norte-americano também relembrou que “não gostou” do ataque a Beirute, pouco antes do anúncio do acordo com o Irã. “Deixei isso claro para eles. Não gostei daquilo, de jeito nenhum”. Apesar das declarações fortes, Trump fez questão de pontuar que cultiva um “ótimo relacionamento” com o premiê israelense.
Guerra no Líbano
Donald Trump adotou um tom mais crítico em relação à atuação militar de Israel no Líbano, embasando seu descontentamento no sentido da tática militar adotada pelas Forças de Defesa de Israel (IDF na sigla em inglês): “Não é preciso demolir um apartamento toda vez que se procura alguém, porque há muita gente nesses prédios — e nem todos são membros do Hezbollah”, disse o presidente americano.”Sugeri a Israel que deixasse a Síria lidar com o Hezbollah porque, para ser sincero, acho que eles fariam um trabalho melhor”, acrescentou Trump.
Concluindo seus comentários sobre a questão libanesa e como lidar com o grupo paramilitar islâmico Hezbollah, Trump disse que considera o combate com o grupo “uma guerra menor”. “O Irã é o grande problema, mas temos aquele pequeno foco de atenção que constantemente ressurge, que é o Hezbollah”, concluiu o presidente.
Há clara dissonância entre os Estados Unidos e Israel sobre a posição na questão libanesa. Vale recordar que o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, e o ministro da Defesa, Israel Katz, afirmaram que Israel não se retirará de nenhum território que tenha conquistado, após o anúncio do acordo de paz entre os EUA e o Irã, que prevê o fim das hostilidades, inclusive no Líbano.
“O acordo de Trump não nos vincula. Israel não está subordinado aos Estados Unidos; somos um Estado independente e soberano”, escreveu Ben-Gvir em postagem no X nesta segunda-feira (15). “Não devemos nos retirar de nenhum território que nossos combatentes tenham ocupado e limpado da infraestrutura terrorista”, acrescentou. Ben-Gvir ressaltou ainda que Israel “ama” os EUA e é grato ao presidente Donald Trump, mas que Tel-Aviv não é “uma república de bananas”.
Elogios ao Catar
O presidente destacou o papel do Catar nas negociações com o Irã, elogiando a atuação do emirado durante as conversas diplomáticas. Trump afirmou estar “muito impressionado” com a postura do país, descrevendo os negociadores catarianos como firmes, fortes e corajosos.
O emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, afirmou que o acordo entre Estados Unidos e Irã pode gerar resultados positivos para todo o Oriente Médio. Segundo ele, ainda há muito trabalho pela frente, mas o avanço das negociações abre espaço para novos entendimentos e maior estabilidade regional.
Na figura de Majed al-Ansari, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores do Catar, foi confirmado que o país participou da equipe de mediação liderada pelo Paquistão como parte dos esforços para resolver a crise, e que a nação não é um mediador direto, mas sim uma parte que apoia a mediação do Paquistão e opera dentro dela. Segundo o emir do Catar, “todos os esforços têm se concentrado principalmente em garantir a segurança da navegação e a estabilidade da região“. O país ainda adotou um tom crítico a Israel, dizendo que “não há justificativa para os ataques ao Líbano”, e que as operações são “uma violação de soberania”.
Guerra na Ucrânia
Por fim, tratando da questão na guerra entre Rússia e Ucrânia, Donald Trump, afirmou que o país liderado por Vladimir Putin “deveria alcançar um acordo” com a Ucrânia: “a Rússia deveria alcançar um acordo (com a Ucrânia). A Rússia perdeu uma quantidade enorme de pessoas, e a Ucrânia também”, disse o mandatário à imprensa.
Já foi confirmado que Trump se encontrará com Volodymyr Zelensky, que participa do segundo dia da cúpula do G7, na cidade francesa de Evian, em mais de uma oportunidade. Trump disse que teve “uma reunião” com seu homólogo ucraniano e que outras discussões estavam previstas para esta terça-feira (16).
Fonte: Jovem Pan