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‘A lei tem que ser aplicada, independentemente da torcida’, diz Haddad sobre operação contra Jaques Wagner

O ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), em entrevista ao podcast Kritikê.
Reprodução/Youtube
O pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, defendeu na quinta-feira (19) a investigação da Polícia Federal (PF) contra o senador Jaques Wagner, também do PT.
Wagner foi alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga as articulações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, com o mundo político.
Segundo Haddad, “para o bem do país, a lei tem que ser aplicada para todos os brasileiros”.
“A questão ética na política, você tem que defender que a lei tenha que ser aplicada, independentemente da torcida. Eu torço para a Justiça ser feita. Eu vou lamentar se uma pessoa próxima a mim errou. Vou lamentar porque é uma pessoa que eu conhecia e tudo mais. Mas não posso desejar, para o bem da sociedade, que a lei não seja aplicada”, disse ao podcast Kritikê.
“Se você está numa comunidade da igreja, onde se professa os maiores valores humanos, e ali tem uma pessoa que erra, você vai lamentar. Mas não vai querer que ele fique impune. O cara errou e prejudicou alguém. É muito desagradável. Mas tem uma lei prevendo uma punição para aquele ato. Nós temos que ter essa consciência”, avaliou.
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Na entrevista, o ex-ministro da Fazenda do governo Lula elogiou a independência da PF nas investigações do Banco Master e atacou a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), dizendo que não havia liberdade de investigação para a corporação quando se tratava de investigações sobre aliados e parentes.
“Primeiro eu dou parabéns para o presidente Lula, porque na sua gestão as instituições funcionam. Não está trocando o superintendente da Polícia Federal para proteger o seu filho, como o Bolsonaro fez. O Bolsonaro mudou o ministro da Justiça para proteger o filho dele. O Lula disse que não ia mudar nada. Se é meu filho ou ministro, cada um explica seus atos e responde por ele. Não queremos injustiça para ninguém”, afirmou.
Caso Master: líder do governo, senador Jaques Wagner é alvo de operação da PF
“Se um aliado meu errou e foi comprovado, ele tem que pagar. O país tem que funcionar assim. O Jaques Wagner já deu uma entrevista hoje prestando esclarecimentos. As autoridades vão julgar se é convincente ou não. Tem uma investigação em curso. Oito anos atrás, ele foi investigado sobre a Fonte Nova e disse que não iam achar nada errado, porque ele não fez nada errado. E tudo foi arquivado. E terminou bem. Ele eleito. Tudo em ordem. A vida pública tem disso. Às vezes uma pessoa precisa ser investigada porque há indícios, e a polícia tem que fazer o trabalho dela.”
Haddad também alfinetou o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), a quem disse que falta dar explicações sobre as doações milionárias de Daniel Vorcaro para a realização do filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro.
“Tem outras pessoas que também têm que dar explicações. Você pedir R$ 134 milhões para fazer um ‘filme série B’ não é razoável. Um filme para contar a história do Bolsonaro custa R$ 5, 10, 20 milhões”, declarou o petista.
“Você pede 134 milhões e manda para os Estados Unidos, ao invés de fazer o filme aqui. Talvez também coubesse uma busca e apreensãozinha para saber o que aconteceu ali”, disse.
Operação Compliance Zero
Qual é a relação entre Jaques Wagner e o Banco Master?
A Polícia Federal apontou uma série de vantagens indevidas que o senador Jaques Wagner (PT-BA) teria recebido em troca de atuação política no Congresso Nacional, no âmbito do esquema bilionário de fraudes e corrupção ligado ao Banco Master.
As suspeitas embasaram a decisão do ministro André Mendonça, do STF, que autorizou a 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (18).
Os principais pontos investigados pela PF estão listados abaixo. Mais adiante, o g1 detalha cada um deles:
um imóvel de luxo em Salvador (entenda mais);
ingressos para show da cantora Taylor Swift (entenda mais);
repasses de dinheiro (entenda mais); e
viagens para o exterior (entenda mais).
A investigação, que apura um esquema bilionário de fraudes e corrupção ligado ao Banco Master, aponta que o parlamentar teria recebido uma série de vantagens indevidas em troca de atuação política no Congresso Nacional (entenda mais abaixo).
Segundo informações obtidas pela TV Globo e que constam nos autos, o foco central desta fase é a relação de proximidade entre Jaques Wagner e o ex-banqueiro Augusto Lima, dono do Banco Pleno e apontado como aliado estratégico de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que está preso.
“A autoridade policial aponta que a relação entre Jaques e Augusto Ferreira Lima seria antiga, próxima e marcada por elevado grau de confiança pessoal, circunstância que, em tese, teria criado ambiente propício à realização de tratativas reservadas em prol da defesa de interesses privados do Banco Master”, diz um trecho da decisão.
Em entrevista à BandNews, o petista negou ter relação com Vorcaro e afirmou que o dinheiro encontrado são diárias pagas pelo Senado em razão de viagens. Segundo Wagner, o presidente Lula ligou para prestar solidariedade após a operação.
Senador Jaques Wagner (PT)
Waldemir Barreto/Agência Senado
Apartamento de luxo
A representação da PF cita que a compra do apartamento de luxo em Salvador foi feita pela Epítome S.A., com recursos provenientes de fundos vinculados ao Master.
Jaques Wagner, segundo os investigadores, teria encaminhado a Augusto Lima dados do empreendimento, ao passo que Augusto acionou Valério Marega Júnior para tratar da operacionalização da aquisição.
As investigações ainda mostram que as tratativas sobre a compra não terminaram após a primeira fase da Operação Compliance Zero, pelo contrário, teriam continuado com reuniões e envio de minutas contratuais.
O empreendimento onde fica o apartamento é voltado ao público de alta renda e ainda está sendo construído. O prédio tem previsão de entrega para setembro de 2026.
Ingressos para show de Taylor Swift
Segundo a investigação da Polícia Federal, foram comprados ingressos para o dia 25 de novembro de 2023, quando a cantora se apresentou em São Paulo, na turnê “The Eras Tour”, com entradas disputadas no Brasil.
Segundo a investigação, os bilhetes foram adquiridos por orientação de Augusto Ferreira Lima, gestor ligado ao Banco Master, por R$ 63.339 (entenda a relação entre Augusto Lima e Daniel Vorcaro mais abaixo).
A PF afirma que os ingressos foram destinados a familiares do parlamentar, mas não deixou claro se o próprio Wagner foi ao show.
A decisão de Mendonça também cita um show em Los Angeles, nos EUA, onde Taylor se apresentou em agosto de 2023. Não fica claro se foram comprados ingressos para a cidade americana.
Senador Jaques Wagner (PT-BA) e banqueiro Augusto Lima
Andressa Anholete/Agência Senado e Vanner Casaes/Agência Alba
49 mil dólares apreendidos
A Polícia Federal também apreendeu, nesta quinta, US$ 49 mil dólares em espécie (valor correspondente a R$ 250 mil na cotação desta quinta), em um endereço em Brasília ligado ao senador.
Segundo o petista, o dinheiro tem origem em diárias pagas pelo Senado em razão de viagens para o exterior que realiza como parlamentar.
“Eu, várias vezes, viajei pro exterior, mandei até levantar. E, de 2019 pra cá ,eu recebi de diárias, aproximadamente US$ 70 mil dólares, e outras vezes que eu fui viajar eu comprei via Banco do Brasil, onde eu tenho conta, dólares ou euro, para fazer a viagem. Então, eu não tenho nenhuma coisa para esconder”, afirmou Jaques.
Além disso, ele declarou também que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prestou solidariedade, em um telefonema após a operação da PF desta quinta, que teve Jaques como um dos alvos.
Empresa ponte e repasses
A decisão de Mendonça menciona também que os R$ 3,5 milhões não foram repassados ao senador diretamente.
Esse montante seria fruto de transferência bancária da empresa “PKL One Participações S.A”, dirigida por Andréa Lima Novaes (prima de Augusto Lima) e ligada ao grupo do Banco Master/Credcesta para a “BN Financeira Ltda.”, empresa vinculada ao núcleo familiar do senador Jaques Wagner.
Em uma mensagem encontrada no celular de Augusto Lima, o enteado de Wagner, Eduardo Mendonça Sodré Martins, teria cobrado valores: “Amanhã vence [sic] os boletos e são altos”, disse.
Em resposta, Augusto Lima afirmou que o cenário estava “crítico” e vinculou a dificuldade financeira ao insucesso da operação entre o Banco Master e o BRB.
“Em 17/10/2025, a operação foi concluída com transferência de R$ 3.500.000,00 à BN Financeira LTDA., feita pela PKL One Participações S.A., empresa vinculada ao núcleo de Augusto”, diz a decisão.
A representação da PF menciona ainda que a BN Financeira teria sido constituída como “microempresa, com capital social reduzido e aparente baixa capacidade operacional”, contudo teria recebido valores expressivos no contexto de supostos contratos com o Banco Master ou empresas relacionadas com a instituição.
Sobre Augusto Lima, os investigadores citam sua “posição operacional destacada” e afirmam que ele atuou como “canal de interlocução” com Wagner sobre temas de interesse do Master.
No que diz respeito aos meios de comunicação entre os investigados, a PF aponta para utilização de chamadas de voz, mensagens temporárias e comunicações de baixa rastreabilidade, o que para os investigadores “reforça, em juízo preliminar, o risco de perecimento ou ocultação de provas”.
Entenda a ligação entre Jaques Wagner e Augusto Lima
Viagem à Ilha da Paixão
Segundo a PF, Augusto Ferreira colocou uma aeronave particular à disposição do senador Jaques Wagner para uma viagem à Ilha da Paixão.
Segundo a investigação, mensagens e áudios extraídos do celular de Augusto mostram que os dois combinaram um encontro no local entre os dias 11 e 13 de outubro de 2023.
De acordo com os documentos, a aeronave foi disponibilizada para transportar o parlamentar e seus familiares entre Salvador e a ilha, apontada nos autos como propriedade de Augusto Lima.
Para viabilizar o deslocamento, o empresário encaminhou ao senador o prefixo da aeronave e o horário previsto para o voo.
A Ilha da Paixão, que fica em Candeias, Na Região Metropolitana de Salvador, é apontada pela PF como propriedade do banqueiro.
A operação da PF
A PF investiga se o senador atuou diretamente em favor de projetos de interesse do grupo financeiro.
Entre as medidas citadas estão a chamada “Emenda Master” e uma proposta legislativa que visava ampliar o limite do crédito consignado, setor no qual o grupo de Vorcaro e Lima possui forte atuação por meio do Credcesta.
🔎 O Credcesta é um cartão de benefício consignado ofertado a servidores públicos, aposentados e pensionistas, em que o pagamento das parcelas é descontado diretamente da folha de pagamento. Registros financeiros do Master apontam que, em 2024, a venda das operações de crédito consignado ao Credcesta rendeu mais ao banco do que os juros cobrados dos servidores nessas mesmas operações.
Sobre os temas que o senador teria tratado com Augusto Lima, a decisão detalha três pontos:
elevação da margem consignável da remuneração disponível para os trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), para os aposentados e pensionistas vinculados ao Regime Geral de Previdência Social (RGPS), além de autorizar a realização de empréstimos e financiamentos por beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de outros programas federais de transferência de renda.
tentativa de aprovação da PEC nº65/2023, com repercussões sobre o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC);
atuação parlamentar voltada à fiscalização e controle da operação de potencial aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
🔎A Emenda nº 11 à PEC 65/2023, conhecida como Emenda Master, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) e sob investigação da Polícia Federal, propunha mudanças no funcionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege correntistas e investidores em caso de quebra de instituições financeiras.
Caso Master
A Operação Compliance Zero é uma investigação da Polícia Federal que apura um suposto esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e seu presidente, Daniel Vorcaro.
A primeira fase foi deflagrada em novembro de 2025, após indícios de que o banco emitiu títulos de investimento sem garantias suficientes, com objetivo de atrair clientes com promessas de rentabilidade acima da média do mercado. Na ocasião, Vorcaro foi preso, e a PF estimou um prejuízo potencial de até R$ 12 bilhões.
Ao longo das fases seguintes, a investigação foi ampliada e passou a incluir suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, intimidação de adversários, espionagem, uso indevido de informações sigilosas e corrupção.
A PF também investiga aportes bilionários feitos pelo Banco de Brasília (BRB) no Master e supostos repasses a agentes políticos.
Nas fases mais recentes, a operação atingiu familiares e aliados de Vorcaro, além de autoridades públicas.
Entre os alvos estão o senador Ciro Nogueira (PP-PI), investigado por supostos pagamentos relacionados aos interesses do banco, e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), no âmbito da apuração sobre investimentos de recursos do Rioprevidência em fundos ligados ao Master.
Todos os investigados negam irregularidades.


Fonte:

g1 > Política

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