“Meu joelho dói quando vai chover.”
“No frio, minha coluna trava.”
“Quando a temperatura cai, minhas articulações reclamam.”
Quase todo mundo já ouviu alguém dizer algo parecido. Talvez você mesmo perceba que algumas dores parecem piorar nos dias frios ou chuvosos. Durante muito tempo, esses relatos foram vistos por alguns profissionais com desconfiança. Por outro lado, também houve quem aceitasse essa relação como uma verdade absoluta. Hoje, a ciência sugere que a realidade está em algum lugar entre esses dois extremos.
O que a ciência já observou sobre dor e temperatura
Milhares de pessoas relatam aumento da dor, da rigidez ou do desconforto quando a temperatura cai. Esses relatos são tão frequentes que dificilmente podem ser ignorados. A questão que os pesquisadores tentam responder atualmente não é se as pessoas sentem mais dor, mas por que isso acontece. O que sabemos até o momento é que o frio provavelmente não age da mesma forma em todas as pessoas, nem pelos mesmos mecanismos.
Muitas vezes, quando alguém percebe piora dos sintomas durante o inverno, a primeira explicação atribuída é a de que a doença está avançando ou que as articulações estão sofrendo mais desgaste. No entanto, não existem evidências robustas mostrando que a queda da temperatura, por si só, esteja acelerando uma artrose, piorando uma hérnia de disco ou causando danos adicionais aos tecidos.
Isso significa que a dor não é real? Muito pelo contrário.
A experiência dolorosa é real e merece ser valorizada. O que mudou foi a forma como passamos a entender os mecanismos envolvidos.
Por que o corpo pode ficar mais rígido no frio
Quando a temperatura diminui, o organismo passa por diversas adaptações. Os músculos tendem a permanecer mais contraídos, algumas pessoas relatam sensação maior de rigidez ao acordar e muitos tecidos parecem exigir mais tempo para “aquecer” antes de se movimentarem com conforto.
Uma das hipóteses discutidas pelos pesquisadores envolve o comportamento dos tecidos conjuntivos, incluindo a fáscia. A fáscia é uma rede contínua de tecido conjuntivo que envolve músculos, nervos, vasos sanguíneos e órgãos, participando da transmissão de forças e do movimento do corpo. Mudanças de temperatura podem influenciar temporariamente as propriedades mecânicas desses tecidos, tornando-os menos flexíveis e aumentando a sensação de rigidez. Embora essa seja uma hipótese biologicamente plausível, ela provavelmente representa apenas uma parte da explicação.
O sistema nervoso também parece desempenhar um papel importante. Hoje sabemos que a dor não depende apenas do estado dos tecidos, mas da forma como o cérebro interpreta as informações recebidas do corpo. Mudanças de temperatura, umidade e pressão atmosférica podem influenciar essa percepção em algumas pessoas, especialmente naquelas que já convivem com dores persistentes.
O papel do movimento: o “detalhe” que muita gente esquece
Além disso, existe um fator frequentemente esquecido: o comportamento.
Durante os meses mais frios, muitas pessoas reduzem as caminhadas, deixam de praticar exercícios físicos, passam mais tempo sentadas e permanecem mais tempo dentro de casa. Consequentemente, movimentam-se menos.
E o corpo humano foi feito para se movimentar!
Quando reduzimos nossa variabilidade de movimento, é comum surgir mais rigidez, mais desconforto e maior dificuldade para realizar atividades que normalmente seriam simples. Em muitos casos, parte da piora atribuída ao frio pode estar relacionada justamente a essa redução do movimento ao longo do dia.
Talvez a principal mensagem seja que sentir mais dor no frio não significa necessariamente que seu corpo esteja piorando ou que suas articulações estejam se desgastando mais rapidamente. A dor é uma experiência complexa e multifatorial. Ela envolve tecidos, sistema nervoso, hábitos de vida, movimento e até a forma como nos adaptamos ao ambiente.
A ciência ainda busca compreender todos os mecanismos envolvidos nessa relação. Mas uma coisa parece clara: o frio pode influenciar a forma como sentimos dor; porém, isso é muito diferente de dizer que ele está causando danos ao nosso corpo.
Por isso, quando a temperatura cair, talvez a melhor estratégia não seja evitar o movimento por medo da dor. Pelo contrário. Continuar se movimentando dentro das suas possibilidades, manter uma rotina regular de movimento e exercícios físicos e variar posições ao longo do dia costumam ser atitudes muito mais eficazes do que esperar a chegada do verão.
Afinal, um corpo que se movimenta tende a se adaptar melhor às mudanças do ambiente. E essa capacidade de adaptação é uma das características mais extraordinárias do organismo humano.
Monica Schapiro – CREFITO – 423396-F
Fisioterapeuta, especialista em reabilitação oncológica
Membro Brazil Health
Fonte: Jovem Pan