A Seleção Brasileira entra em campo neste domingo (5) para enfrentar a Noruega em partida válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos.
O jogo decisivo ocorre a três meses do primeiro turno das eleições presidenciais de outubro. No Brasil, o futebol tem forte impacto social e já foi explorado politicamente – a exemplo do que ocorreu na ditadura militar, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974).
Mas, nos dias de hoje, no maior período democrático da história do Brasil, o futebol e a busca pelo sonho do hexacampeonato mundial podem influenciar as eleições presidenciais?
O g1 perguntou a especialistas se o resultado nas quatro linhas é, de algum modo, levado em consideração pelo eleitor na hora de decidir o voto e como uma vitória, ou uma derrota, pode ajudar ou atrapalhar um candidato ao Palácio do Planalto (clique na pergunta para seguir à resposta).
Título ajuda o presidente de ocasião?
E uma derrota? Pode impactar a disputa eleitoral?
O que muda em 2026?
Carlos Alberto Torres, capitão da seleção em 1970, com Emílio Garrastazu Médici, presidente da ditadura
Acervo/TV Globo
Título ajuda o presidente de ocasião?
Renata Coelho, especialista de comportamento eleitoral, afirma que um título da seleção pode, de forma sutil, fortalecer a imagem do presidente que está no poder naquele momento.
Segundo a analista, o fenômeno não acontece de maneira racional no imaginário do eleitor, mas por meio de uma “transferência emocional”.
Durante momentos de mobilização e contentamento nacional, os cidadãos tendem, mesmo que por um curto período, a ficar mais satisfeitos com o cenário, inclusive com a situação do governo.
“Ninguém acorda depois de um título e pensa conscientemente ‘o Brasil ganhou, logo vou votar no presidente’. O que acontece é uma transferência emocional que gera um sentimento de satisfação com a situação atual das coisas, inclusive com o governo”, comentou Renata, que tem mestrado na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Presidente Juscelino Kubitschek levanta a taça conquistada na Copa do Mundo de 1958
Acervo Nacional
Gustavo Javier Castro, filósofo e mestre em ciência política e relações internacionais, afirma que as grandes vitórias da Seleção Brasileira costumam produzir um ambiente de euforia coletiva e de reforço simbólico da identidade nacional.
Em determinados contextos, de acordo com o filósofo, isso pode gerar ganhos indiretos para governos em exercício, sobretudo no plano da percepção pública e do humor social.
Contudo, segundo Castro, é importante evitar conclusões precipitadas, já que o contexto econômico, social e institucional do país é a principal influência.
“Um eventual título pode gerar um benefício simbólico momentâneo ao presidente, especialmente em termos de visibilidade e associação emocional positiva, mas dificilmente seria suficiente, por si só, para alterar estruturalmente cenários eleitorais”, afirmou Castro.
Em termos de bem-estar, um título mundial é uma experiência coletiva intensa. Mas esse efeito, segundo Renata Coelho, tem prazo de validade curto. “Ele se dissolve rapidamente quando a realidade do cotidiano volta à cena”, disse.
Dunga levanta a taça em 1994
Jornal Nacional/ Reprodução
A analista cita a Copa de 1994 como o caso mais claro em que as condições se alinharam. O tetracampeonato chegou em um momento em que o Plano Real tinha acabado de ser lançado e havia uma expectativa genuína de virada econômica.
Na época, o eleitor celebrava o fim da hiperinflação e o título mundial. “Fernando Henrique Cardoso surfou nesse duplo alívio”, disse a especialista.
Entretanto, a analista de comportamento eleitoral lembra que, mesmo com o otimismo nacional, é impossível separar os efeitos do futebol e da economia. De acordo com ela, o título potencializa algo que já existe.
“Quando esse contexto favorável não está presente, o eleitor vai à festa, celebra com o presidente e, ainda assim, vota pela mudança”, disse.
Agora no g1
Uma derrota pode impactar a disputa eleitoral?
Existe uma diferença entre o impacto político de uma vitória e o de uma derrota da seleção, segundo a especialista em comportamento eleitoral. Para Renata Coelho, isso tem relação com a forma como as pessoas processam emoções.
“A decepção é mais memorável e mais duradoura do que a euforia”, analisou.
Renata Coelho afirmou que a derrota do Brasil para o Uruguai, no Maracanã lotado, em 1950, tornou-se um trauma nacional por gerações.
Em 2014, a derrota, por 7 a 1, para a Alemanha entrou imediatamente na linguagem política como metáfora de vergonha e fracasso. A goleada em território brasileiro chegou a ser explorada nas manifestações que antecederam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Mas nem toda derrota tem consequência eleitoral direta. A especialista frisa que o que diferencia os dois momentos não é o resultado em campo, mas o contexto fora dele.
Uma derrota pesada não muda o voto por si só, mas pode, segundo Renata, reativar insatisfações que já existiam e que o eleitor ainda não conseguia articular com clareza.
“Ela funciona como um gatilho emocional, aquele momento em que alguém que já estava insatisfeito com o governo encontra uma imagem para nomear o que sente. O futebol empresta seu vocabulário à política”, afirmou.
O jogador Oscar (e), da seleção do Brasil, ao lado do alemão Lahm, desaba e chora ao final da partida entre Brasil x Alemanha onde a equipe brasileira foi goleada por 7 a 1 no Estádio do Mineirão, em 2014
Estadão Conteúdo/Arquivo
Na mesma linha, Gustavo Javier Castro ressalta que derrotas esportivas também podem ser incorporadas ao discurso político em momentos de crise ou polarização.
“O que ocorre, muitas vezes, é um processo de contaminação simbólica. Ou seja, em períodos de insatisfação econômica ou polarização intensa, derrotas esportivas acabam sendo incorporadas ao discurso político mais amplo, funcionando como metáforas de desorganização, fracasso ou perda de prestígio nacional”, disse.
O que muda em 2026?
Com a diversidade de interesses, o aumento das telas e a relação diferente das novas gerações com a Seleção Brasileira, os especialistas dizem que a Copa do Mundo de 2026 deve ter uma influência política diferente das anteriores.
Os analistas ouvidos pelo g1 afirmam que o futebol perdeu, em parte, a capacidade de parar o país inteiro, mas continua influenciando o humor da população e o debate público.
“A Copa continua sendo um grande evento com impacto nacional, mas hoje esse impacto acontece de forma mais dividida. O futebol ainda está ligado à política e à identidade nacional, mas de uma maneira mais fragmentada e muito influenciada pelas redes sociais”, afirmou o filósofo Gustavo Javier Castro.
Para a pesquisadora Renata Coelho, o futebol perdeu parte da força de unir emocionalmente o país como acontecia em outras décadas. Ainda assim, a competição segue criando um clima coletivo que envolve até quem não acompanha os jogos de perto.
Ela explica que, em 1970, a seleção funcionava como um símbolo de união nacional.
“Você falava de Pelé, mas falava também de Gerson, Rivelino, Tostão e Félix. O time era visto como um conjunto, maior do que qualquer jogador individual”, disse.
Pelé em recepção no Palácio do Planalto após a conquista da Copa do Mundo de 1970
Acervo/TV Globo
Segundo a pesquisadora, hoje a lógica é diferente.
“O jogador deixou de ser apenas atleta. Ele também é uma marca, um influenciador e uma figura pública que se posiciona politicamente. Hoje, eles falam diretamente com milhões de seguidores pelas redes sociais”, completou.
“O humor coletivo que a seleção vai gerar vai depender não só do resultado, mas de quem protagoniza esse resultado e como isso é lido por um eleitorado já profundamente polarizado, que chega à Copa carregando suas próprias insatisfações, anteriores e independentes do futebol”, completou.
Vampeta da cambalhota na rampa do Palácio do Planalto, em Brasília, após Brasil ganhar Copa de 2002
REUTERS/Jamil Bittar
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