O jornal britânico The Guardian afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou a defesa da soberania do Brasil em um delito comercial desleal ao justificar a imposição de tarifas e críticas a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao sistema de pagamentos Pix. A avaliação foi publicada em um editorial divulgado na terça-feira (14).
Segundo o jornal, as ameaças tarifárias da Casa Branca vão além de questões comerciais e atingem iniciativas adotadas pelo Brasil para exercer controle sobre áreas consideradas estratégicas, como a regulação das plataformas digitais e a infraestrutura nacional de pagamentos.
O governo dos Estados Unidos analisa a aplicação de novas tarifas contra o Brasil, com base em investigações sobre práticas consideradas injustas por Washington. O texto destaca que o ponto central do conflito não é o protecionismo econômico tradicional, mas o exercício da soberania brasileira sobre o seu espaço digital e financeiro.
O editorial relembra que, em junho do ano passado, o STF decidiu que redes sociais podem ser responsabilizadas por publicações de usuários, obrigando empresas como X e Meta a remover conteúdos classificados como discurso de ódio ou antidemocráticos.
De acordo com o Guardian, um mês depois Trump anunciou a intenção de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, alegando que as empresas americanas de tecnologia foram obrigadas a retirar do ar conteúdos de natureza política.
“A ameaça de tarifas de Donald Trump enquadra os esforços do Brasil para proteger sua democracia como uma prática comercial desleal”.The Guardian
Papel do presidente Lula
Na avaliação do jornal, o presidente Lula (PT) defende que o Brasil tenha autoridade para fiscalizar e combater a desinformação antidemocrática em seu próprio território, enquanto Trump apresenta uma posição que amplia a influência dos Estados Unidos sobre o ambiente digital brasileiro.
“Lula quer que o Brasil tenha capacidade de fiscalizar a desinformação antidemocrática [no país]. Trump acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional do país”.The Guardian
O editorial também se refere ao Pix, apontando que o sistema representa outro ponto de atrito entre os dois países. Segundo o Guardian, a plataforma foi criada para reduzir a dependência de redes internacionais de pagamento e fortalecer a autonomia financeira brasileira.
O jornal destaca que o Pix movimentou cerca de US$ 6,7 trilhões em 2025 e afirma que, assim como ocorreu na Índia, o Brasil desenvolveu uma infraestrutura pública digital capaz de diminuir a dependência de sistemas controlados por empresas estrangeiras. Para o periódico, esse modelo reduz a influência de redes financeiras internacionais e fortalece o controle nacional sobre os dados das transações.
Flávio Bolsonaro em audiência nos EUA
Ao tratar da disputa política brasileira, o Guardian menciona a participação do senador Flávio Bolsonaro em uma audiência na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos. Segundo o jornal, o parlamentar pediu que Washington adiasse uma eventual decisão sobre tarifas até as eleições presidenciais de outubro, afirmando que poderá assumir o governo caso vença a disputa.
Para o jornal britânico, o pedido representou uma tentativa de apresentar Flávio Bolsonaro como um interlocutor preferencial do governo Trump. O editorial afirma ainda que o senador mantém posições políticas semelhantes às defendidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Sua mensagem a Washington foi a de que o problema dos EUA com as práticas comerciais desleais de seu país devia-se ao presidente Lula, que entrou em conflito com Trump”, escreve o editorial.
Fonte: Jovem Pan