No dia seguinte ao anúncio da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, confirmado pelos Estados Unidos, assessores presidenciais classificaram nesta quinta-feira (16) o tarifaço norte-americano como “ideológico” e “político” e uma tentativa equivocada de ajudar Flávio Bolsonaro (PL).
Integrantes do governo também rebatem as declarações de que o Brasil não negociou as tarifas.
Entendem ainda que a decisão já estava tomada desde o ano passado, quando o presidente Donald Trump publicou uma carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O anúncio aconteceu nesta quarta (15), último dia de prazo dado pelo governo americano para que os dois países chegassem a um consenso nas negociações. Em resposta, o Brasil chamou a decisão de lastimável e afirmou que iniciará “imediatamente” os trâmites para acionar os instrumentos previstos da Lei de Reciprocidade.
Na avaliação da equipe presidencial, o governo Trump agiu de má-fé e está criando “fake news”, de que o Brasil não negociou tarifas, para fazer um discurso alinhado com o do pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro. O filho do ex-presidente da República já deu declarações, após o anúncio das tarifas, que Lula não quis negociar e trabalhou contra os interesses do Brasil.
O entendimento da diplomacia brasileira é que, diante de um cenário em que a Suprema Corte americana impôs limite à imposição de tarifas por meio de anúncios, a Casa Branca se movimentou para encontrar um instrumento juridicamente legal que permitisse a imposição de tarifas (Seção 301), ainda que com argumentos considerados injustos e sem base técnica pelo Brasil.
A percepção é que o cenário se mostrava favorável às negociações após o encontro entre os presidentes Lula e Donald Trump na Malásia e ainda melhor após o encontro entre os dois em Washington. Porém, nas últimas semanas, esse cenário mudou depois do encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump.
Desde então, embora tenham acontecido novas reuniões (alto nível e nível técnico), como a desta semana e a da semana passada, os americanos não se dispuseram a responder ao encaminhamento proposto pelo Brasil e ainda apresentaram questões “inegociáveis” – como mudanças no PIX e moratória para plataformas digitais. E ainda desconsideraram todos os argumentos sobre o combate ao desmatamento.
No Itamaraty, se rechaça a tese de que o Brasil não quis negociar com o governo americano, conforme alegado pelo USTR, órgão de comércio que iniciou a investigação comercial e recomendou o tarifaço. Ao todo, foram mais de 30 contatos (presenciais, virtuais ou por telefone) desde o anúncio, seja em nível presidencial, ministerial ou técnico.
Somente com Jamieson Greer ou Marco Rubio, a diplomacia contabiliza 11 contatos ao longo das negociações, com a “iniciativa” partindo sempre do Itamaraty.
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