A gestação após os 35 anos deixou de ser exceção e hoje muitas mulheres engravidam mais tarde por uma combinação de fatores: maior tempo de formação profissional, busca por estabilidade financeira, novos relacionamentos, reprodução assistida, amadurecimento pessoal e mudanças profundas no papel social da mulher. Por isso, ao falar sobre esse tema, prefiro o termo gestante em idade avançada ou maternidade depois dos 35. A antiga expressão, que foi usada por médicos, era “gestante idosa” e deve ser evitada, porque carregava um peso inadequado e não representa a realidade de mulheres ativas, saudáveis e plenamente capazes de viver uma gestação bem acompanhada.
A maternidade tem sido progressivamente adiada. Nos Estados Unidos, a idade média das mulheres no primeiro parto subiu de 26,6 anos em 2016 para 27,5 anos em 2023, segundo o National Center for Health Statistics/CDC. No Brasil, o Censo 2022 mostrou que a idade média passou de 26,3 anos em 2000 para 28,1 anos em 2022. Em mulheres com ensino superior completo, essa média chega a 30,7 anos, mostrando o forte impacto da escolaridade, carreira, autonomia econômica e reorganização dos projetos familiares. Em São Paulo, a Fundação Seade também mostra envelhecimento do perfil materno: no Estado, a idade média das mães chegou a cerca de 28,9 anos em 2023, e, na capital, já era 29,1 anos em 2019.
Do ponto de vista médico, a idade materna acima de 35 anos é considerada um marcador de atenção, não uma sentença de risco. A literatura mostra que os riscos aumentam de forma progressiva, mas é importante lembrar que esse aumento é contínuo com o passar dos anos e se acelera após os 35. Entre eles estão maior chance de hipertensão na gestação, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, alterações cromossômicas, abortamento, prematuridade, restrição de crescimento fetal, cesariana e, em alguns grupos, maior risco de óbito fetal. Mas é importante dizer com clareza: a maioria das mulheres acima dos 35 anos terá uma gestação bem-sucedida quando recebe orientação pré-concepcional, pré-natal adequado e acompanhamento individualizado.
Como avaliar cada caso e planejar melhor
A gestação não mudou, nem o corpo humano. O que mudou nos últimos anos é a forma de olhar para essa gestante. Não basta colocar todas as mulheres acima de 35 anos no mesmo grupo. Uma mulher de 36 anos, saudável, com peso adequado e sem doenças prévias tem um perfil diferente de uma mulher de 43 anos, sedentária, e diferente de uma mulher de 30 anos, com sobrepeso, hipertensa ou diabética, com controle ruim. A avaliação moderna leva em conta idade, saúde metabólica, pressão arterial, histórico obstétrico, índice de massa corporal, uso de técnicas de reprodução assistida, presença de gestação gemelar e condições sociais de acesso ao cuidado.
Também é fundamental reconhecer o impacto social, econômico e cultural dessa mudança. A maternidade mais tardia muitas vezes reflete conquistas femininas: mais estudo, autonomia, carreira, planejamento e liberdade de escolha. Ao mesmo tempo, revela desafios. Nem todas as mulheres adiam a gravidez por opção plena; muitas o fazem por instabilidade financeira, falta de rede de apoio, dificuldade de conciliar maternidade e trabalho ou ausência de políticas públicas que protejam a mulher em idade reprodutiva.
Por isso, a mensagem central deve ser de equilíbrio. A mulher não deve ser culpabilizada por engravidar mais tarde, mas também não deve ser privada de informação. O papel do obstetra e de todo médico que tem a oportunidade de atender uma mulher em idade fértil é orientar com honestidade, sem alarmismo. Idealmente, a mulher que planeja postergar a gestação deve fazer uma consulta antes da concepção, quando receberá orientações sobre congelar ou não óvulos, revisar vacinas, controlar peso, pressão, glicemia, tireoide e doenças prévias, iniciar ácido fólico, discutir medicamentos em uso e avaliar riscos individuais.
Nesse contexto, ampliar o acesso à informação de qualidade também é parte do cuidado. Com esse objetivo, o Einstein, com apoio da iniciativa global MSD para Mães, desenvolveu o aplicativo Guia Obstétrico, ferramenta digital gratuita voltada a profissionais de saúde, gestantes, puérperas e suas redes de apoio. O aplicativo reúne conteúdos baseados em evidências científicas e diretrizes atualizadas sobre avaliação de risco gestacional, sinais de alerta, pré-eclâmpsia, hemorragia obstétrica e outros temas que contribuem para decisões mais seguras durante a gravidez e o parto.
Sabemos que a mulher com 40 anos tem mais risco de hipertensão, por exemplo, do que a de 20 anos. Mas essa mulher provavelmente tem maior estabilidade financeira e emocional, o que pode impactar nos cuidados da criança.
A maternidade postergada não deve ser vista como um problema, mas como uma realidade contemporânea que exige ciência, acolhimento e responsabilidade. Mais importante do que a idade isolada é oferecer à mulher informação de qualidade, acesso ao cuidado e respeito às suas escolhas.
Eduardo Zlotnik – CRM: 73681 | RQE: 19282Ginecologia e obstetrícia no Einstein Hospital Israelita
Fonte: Jovem Pan