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Mãe é mãe, mesmo que você tenha 40 anos e só beba Coca Zero

Quando eu era garota, saía pra caramba. Pegava meu Uno Mille sem o retrovisor da direita, que, na época, era um item opcional (meu pai achou uma boa economia, dado que eu tinha um pescoço de 20 anos), e ia me acabar no forró. Frequentemente, voltava de madrugada. Isso quando não decidia, no meio da festa, que ia dormir na casa de uma amiga, e minha mãe ficava sabendo no dia seguinte. Ela não amava, claro, mas não chegava a perder o sono. Confesso que, algumas vezes, voltei dirigindo alcoolizada. Naquela época, não tinha bafômetro. Graças a Deus, meu anjo da guarda era ponta firme.

Cresci. Casei, tive filho, lancei um livro. Aos 40 anos, me separei. Numa quarta-feira, dia do meu filho ficar com o pai, talvez por nostalgia, resolvi ir ao forró. Para minha surpresa, minha mãe fez de tudo para que eu não fosse. Primeiro me chamou pra dormir na casa dela. Agradeci e recusei. Depois, pra sair pra jantar num restaurante que adoro. Declinei. Quando sacou que não ia me convencer, rogou praga: “Quero ver você ir nesse forró às 22h. Vai cair de sono”. Vendo que eu estava mais acordada que o Jô Soares às 11 e meia, emendou: “Você viu se tem saída de incêndio? Isso é um perigo. Olha a boate Kiss”. Depois apelou dizendo que a cidade está cheia de blitz da Lei Seca. Detalhe: eu não tomo bebida alcoólica há 15 anos. Ainda tentou uma última: “Você que morre de medo de pegar um vírus, tá corajosa, hein? Num lugar desses a Influenza corre solta”. Na fila da Drogasil também, mamãe.

O lance é que eu ia com o carro dela, que é mais seguro do que o meu (calma, não é mais o Uninho). Por essa razão, eu tinha que passar na casa dela antes de dar meu rolê. O que eu fiz? Cheguei na pinta, pra não dar tempo de ela tentar me demover da ideia, no que seria sua última oportunidade. Ligada na minha estratégia, ficou me esperando na sacada. Quando apareci, soltou, amigável: “Bom programa, filhona”. Mas não resistiu e completou: “Só fica esperta que o mundo mudou, a cidade está perigosíssima”. Como se São Paulo fosse uma cidade do interior há 20 anos atrás. No final, acabei indo de táxi, cujo valor da corrida ela topou, alegremente, dividir comigo. Não antes de me dar algumas instruções: “Me manda mensagem quando chegar lá, tá? E quando sair de lá, por favor. Me dá um toque quando chegar aqui pra pegar seu carro. E não esquece de me avisar quando chegar em casa”. O desafio era aproveitar entre as mensagens.

Descobri que dançar forró é igual a andar de bicicleta, está gravado na memória (muscular). Cheguei em casa às 4h da manhã. No dia seguinte, mamis veio perguntar como foi. Contei, com voz de trovão e o coração feliz: “Demais”. Ela respirou, coisa que não devia estar fazendo desde quando eu disse que ia ao forró. O que aprendemos hoje? Nunca mais avisar minha progenitora que vou sair à noite (omissão piedosa), pagar o táxi sozinha e ir com Deus.

Mas minha vida social pós-40 não começou com uma noitada. Logo que me divorciei, fui ao teatro com uma amiga, num shopping com acesso fácil para minha casa. Veja bem: tratava-se de uma comédia, das 20h às 22h, num sábado, com 0% de possibilidade de chuva. Programa mais inocente do que esse não conheço. Dessa vez, minha mãe não pediu mensagem, porque resolveu, ela mesma, me bombardear no WhatsApp. Pontualmente às 22h15, mandou: “Onde você tá? Chegou na Marginal? Tá em que altura? Já passou o posto Shell?” Detalhe: atordoada pela sua preocupação, ela esqueceu do fato de que é um baita perigo segurar o volante e digitar ao mesmo tempo. Além do carro, meu coração começou a acelerar. Até que uma hora eu não aguentei: menti. Disse que já estava na rua de casa (estava perto, mas não exatamente no meu endereço). Foi então que ela me ligou: “Onde você tá?”. Eu disse: “Por que?”. Silêncio. Até que me caiu a ficha: “Mãe, você não tá me acompanhando no GPS do celular, tá?” Ela estava. Agora me pergunto: por que raios essa mulher me fez ir dirigindo em zig-zag na Marginal Pinheiros, pra ir reportando minha localização em tempo surreal, se estava me vendo no mapinha do Google Maps?

O fato é que ser mãe não é moleza. Meu filho tem 13 anos e já estou contando quantas noites de paz eu ainda tenho. Não são muitas. Minha mãe, por fim, percebeu que a noviça rebelde de 40 anos é capaz de se virar, mesmo sem companhia no carro. E eu percebi que, apesar da gente reclamar, privilégio mesmo é ter uma mãe que cuida da gente. Mesmo que a gente já precise de óculos de farmácia pra ler o programa do teatro.


Fonte: Jovem Pan

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