Novas imagens obtidas de câmeras corporais de policiais militares registram o momento em que os agentes matam Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, quando o jovem já estava rendido e com as mãos à mostra em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Os vídeos também mostram os agentes sussurrando entre si logo após efetuarem os disparos e revelam contradições na versão apresentada ao comando da corporação sobre a ocorrência.
Segundo a Polícia Militar (PM), os agentes não sabiam que os equipamentos estavam gravando no momento da abordagem. O material foi divulgado pelo site g1 e pela TV Globo.
As gravações mostram Igor com as duas mãos visíveis, sem apresentar resistência ou esboçar movimentos bruscos antes de ser atingido. Logo após os tiros, mesmo isolados com os colegas de farda, os policiais passam a cochichar em ao menos três ocasiões. Em um dos trechos, um dos PMs responsáveis pelos disparos comenta sobre a câmera corporal.
O caso ocorreu no ano passado. Os soldados Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, autores dos disparos, foram absolvidos pelo Tribunal do Júri no final de julho. A defesa da família do jovem recorreu da decisão, argumentando que a sentença contraria as provas dos autos.
Outros dois policiais, Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus, respondem como colaboradores; o processo deles foi desmembrado e ainda não há data para o julgamento.
Detalhes das imagens
A gravação tem início na área externa do imóvel onde ocorreu a abordagem. Um policial é questionado por uma vizinha idosa se algo havia acontecido. O agente responde que estava tudo bem e pergunta onde ela morava, sem orientá-la a deixar o local ou buscar abrigo.
— PM: Tudo bem, senhora? A senhora mora em qual apartamento?— Vizinha: Aconteceu alguma coisa?— PM: Não… Fica tranquila. A senhora mora onde?— Vizinha: Eu? Moro aqui…Conversa obtida pelo g1 e pela TV Globo
Menos de um minuto após entrar na residência, ouvem-se os primeiros tiros. No andar de cima, policiais gritam e perguntam aos suspeitos se há armas no local. Os suspeitos negam. Na sequência, um PM dispara duas vezes contra a parede.
Segundos depois, Igor Oliveira é atingido por dois disparos efetuados por policiais diferentes. Pelas imagens, o jovem estava com as mãos para cima, obedecendo às ordens. Um segundo ângulo mostra que ele já estava neutralizado quando recebeu o segundo tiro.
As imagens das câmeras corporais não registraram armas com os quatro suspeitos abordados no quarto.
Conversa em voz baixa
Após Igor ser baleado e os outros três homens serem contidos, os policiais passam a conversar em voz baixa.
O coronel Emerson Massera, chefe de comunicação da PM, confirmou que os agentes desconheciam que as câmeras estavam registrando a cena e declarou que a ação foi ilegal. “A ação começou completamente legítima. (…) Num determinado momento, esse homem já estava rendido quando os policiais efetivaram os disparos, sem nada que os justificasse”, afirmou Massera.
Os policiais utilizavam um modelo de câmera corporal cujo acionamento é manual. Segundo a corporação, um dos agentes ativou seu equipamento, o que acionou automaticamente as demais câmeras dos policiais em um raio de até 20 metros via conexão bluetooth.
Divergência de relatos
Ao serem questionados por um superior logo após o ocorrido, os policiais afirmaram que os suspeitos faziam movimentos suspeitos atrás da cama e que visualizaram um “cabo de madeira”, o que justificaria os disparos.
Entretanto, as gravações mostram os suspeitos com as mãos à mostra e rendidos. Após os tiros, as imagens registram os policiais conversando de forma a sugerir que o jovem estava armado (“Tava armado, c******. Tava armado”) e efetuando mais um disparo contra a parede enquanto ordenavam que os suspeitos “soltassem a arma”.
O Tribunal do Júri absolveu Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima. A decisão, tomada por um conselho de sentença formado por sete jurados, resultou na expedição de alvará de soltura para os policiais, que estavam no Presídio Militar Romão Gomes.
Segundo o g1 e a TV Globo, os advogados Gabriela Amoras Silva, Jonatha Carvalho Matos e Wilson Zaska, que representam a família de Igor, informaram que recorreram da sentença. Em nota, afirmaram que a absolvição é “manifestamente contrária às provas produzidas nos autos” e disseram confiar que o Tribunal de Justiça determinará a realização de um novo julgamento.
A apelação baseia-se em decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2024, que permite recorrer de decisões absolutórias do Tribunal do Júri quando estas contrariam as provas dos autos por motivos de clemência ou compaixão.
A investigação do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) também apontou que a ação se tratou de uma execução.
Fonte: Jovem Pan