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O que acontece no coração nas primeiras horas após um infarto

Poucas emergências médicas deixam tão clara a relação entre tempo e desfecho quanto o infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST, conhecido como IAM com supra. Nesse quadro, uma artéria coronária é bloqueada por um trombo, interrompendo o fornecimento de sangue e oxigênio a uma parte do músculo cardíaco. Quanto maior o tempo de obstrução, maior a extensão da lesão e o risco de insuficiência cardíaca, arritmias graves e morte.

A expressão “tempo é músculo” resume o princípio central do tratamento. O objetivo é restabelecer o fluxo sanguíneo rapidamente por meio da reperfusão, procedimento que abre a artéria bloqueada. Os medicamentos são fundamentais, mas não substituem a necessidade de recuperar a circulação no vaso comprometido.

O impacto do infarto no mundo e os desafios brasileiros

As doenças cardiovasculares continuam como a principal causa de morte no mundo. Em 2022, foram responsáveis por cerca de 19,8 milhões de óbitos, principalmente relacionados ao infarto e ao acidente vascular cerebral.

No Brasil, o acesso ao tratamento apresenta diferenças regionais. O Registro ACCEPT mostrou que 76,8% dos pacientes receberam alguma estratégia de reperfusão. O índice variou de 47,5% na Região Norte a 80,5% no Sudeste, indicando que o resultado depende não apenas da gravidade do evento, mas também da rapidez com que o paciente chega a uma estrutura preparada.

O atraso pode ocorrer desde o reconhecimento dos sintomas até o deslocamento ao hospital, a realização do eletrocardiograma e a transferência para centros com hemodinâmica. A busca imediata por atendimento é parte essencial da resposta ao infarto.

Como o infarto acontece

A maioria dos casos ocorre após a ruptura ou erosão de uma placa de aterosclerose, formada pelo acúmulo de colesterol e células inflamatórias na parede das artérias coronárias. Muitas dessas placas não provocavam sintomas importantes antes do evento.

Com a ruptura, as plaquetas são ativadas e a coagulação forma um trombo que pode interromper completamente o fluxo sanguíneo. Sem oxigênio, as células cardíacas perdem função e podem sofrer uma lesão permanente.

A reperfusão interrompe esse processo ao recuperar a circulação. Já os antiagregantes e anticoagulantes ajudam a controlar a formação do trombo e reduzem o risco de novos eventos.

Os sintomas nem sempre são típicos

A manifestação mais conhecida do infarto é a dor ou pressão no centro do peito, geralmente descrita como aperto, peso ou queimação. O desconforto pode irradiar para braços, mandíbula, pescoço, costas ou parte superior do abdome e vir acompanhado de suor frio, náuseas, palidez ou falta de ar.

Nem todos apresentam esse quadro clássico. Mulheres, idosos e pessoas com diabetes podem ter sintomas menos específicos, como cansaço intenso, mal-estar, tontura, falta de ar ou náusea. A intensidade da dor também não indica necessariamente a gravidade do problema.

Esperar que o sintoma desapareça pode atrasar o diagnóstico. Diante de uma suspeita, o ideal é acionar o serviço de emergência e evitar dirigir até o hospital, pois arritmias graves podem ocorrer no trajeto.

O eletrocardiograma orienta a conduta inicial

O eletrocardiograma é o exame inicial mais importante e deve ser realizado e interpretado em até dez minutos após o primeiro contato médico. Quando apresenta elevação persistente do segmento ST associada ao quadro clínico, indica provável obstrução aguda de uma coronária e necessidade de reperfusão imediata.

A troponina confirma a lesão do músculo cardíaco, mas não deve atrasar o tratamento quando o diagnóstico já está definido pelo quadro clínico e pelo eletrocardiograma. Nas primeiras horas, o exame pode ainda apresentar resultado normal.

Abrir a artéria é a prioridade

A angioplastia coronária primária é o tratamento preferencial quando pode ser realizada em tempo adequado. O procedimento utiliza um cateter para alcançar a artéria bloqueada, restabelecer o fluxo sanguíneo e, na maioria dos casos, implantar um stent.

A recomendação é realizar a angioplastia em até cerca de 90 minutos para pacientes que chegam diretamente a hospitais com hemodinâmica. Nos casos que exigem transferência, busca-se que a reperfusão ocorra em até 120 minutos após o diagnóstico.

Quando esses prazos não são possíveis e o paciente está nas primeiras horas dos sintomas, a fibrinólise pode ser indicada para dissolver o trombo. Mesmo nesses casos, a transferência para um centro especializado continua necessária.

O tratamento continua após a internação

O cuidado do infarto não termina com a abertura da artéria. O ácido acetilsalicílico e outros antiagregantes reduzem o risco de novos eventos e da formação de trombos no stent. A duração dessas medicações depende da avaliação individual do risco de novo infarto e de sangramento.

As estatinas de alta potência são iniciadas ainda na internação para reduzir o colesterol LDL e estabilizar placas de aterosclerose. Outras medicações, como betabloqueadores, inibidores da enzima conversora de angiotensina e antagonistas da aldosterona, podem ser indicadas conforme a função cardíaca e as condições clínicas do paciente.

Após a alta, o acompanhamento envolve controle da pressão arterial, diabetes e colesterol, interrupção do cigarro, atividade física orientada e reabilitação cardiovascular.

O infarto com supra exige uma sequência rápida de decisões: reconhecer os sintomas, buscar atendimento, realizar o eletrocardiograma, restabelecer o fluxo da artéria e manter a prevenção após a alta. A extensão da lesão cardíaca está diretamente relacionada ao tempo até o tratamento.

Dr. Thiago Pouso de Oliveira – CRM-SP 147781 | RQE 67443Cardiologista


Fonte: Jovem Pan

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