Mesmo que a gente planeje, faça anotações ou se esforce pra prestar atenção, nem tudo na vida sai como a gente deseja. Com alguma frequência, as coisas fogem do nosso controle. Não me refiro aos grandes eventos negativos da vida, como ficar doente. Falo de pequenas – e irritantes – situações que, vira e mexe, acometem nosso dia a dia. Te mostro:
Sabe quando a gente sai do mercado e se dá conta de que esqueceu de comprar o leite integral, o único que o nosso filho toma? Tem vezes que lembramos no carro e ainda rola a opção (mala) de voltar e evitar que a criança fique sem café da manhã. Mas, em outras vezes, a gente só lembra quando está colocando o leite desnatado, que só a gente toma, na geladeira. O jeito? Opção A: se chamar de burra, besta e lesada. Opção B: aceitar e voltar ao caixa do Carrefour. Acredite, a segunda opção vai doer, mas menos do que o chicote invisível que você ficará batendo nas suas costas.
Tem a versão digital dessa mesma situação: depois de fazer umas comprinhas e pagar 15,90 de frete no app do Pão de Açúcar (vale pro iFood ou Rappi), você vai lavar um copo e surpresa! O detergente acabou. Não tem jeito. O melhor é aceitar e comprar um Limpol por 20,90. Vai doer no bolso, mas nem tanto na alma.
Isso pode acontecer também no aplicativo da farmácia. Você faz o pedido de um anti-inflamatório e paga o frete mais rápido e, consequentemente, mais caro, já que sua garganta inflamada não vai dar trégua de um dia útil para esperar o remédio chegar. Dez minutos depois você percebe que acabou a Novalgina. Pode saber: a dor de cabeça começa na hora. Se aceitar, ela não vai passar, mas certamente vai doer menos.
Mais uma: a gente checa no Waze o tempo necessário para chegar a um compromisso. Prevenidos, nos programamos para sair 10 minutos antes. Além do mais, são 15h e não tem motivo ou razão explicável para ter trânsito. Adivinha? Tudo pa-ra-do. Motivo ou razão? Inexplicável. Eu não sei vocês, mas não tem nada que me deixa mais nervosa do que estar atrasada para um compromisso, presa entre um HB20 e um Corolla Cross. Você manda uma mensagem entre as aceleradas e freadas (um perigo), pedindo desculpas e justificando que pegou trânsito. Se for em São Paulo, provavelmente a pessoa vai pensar: “Jura, meu amor, que você pegou trânsito na Paulista? Que estranho…”. Bom, se você tomar um Rivotril vai dormir no congestionamento, então, amiga, aceita, coloca uma playlist com sons da natureza e deixa doer quando chegar lá.
É quase certo que, em algum momento, você vai olhar o preço da passagem de avião e, no dia seguinte, ela vai estar custando o dobro. Dizem que quando você abre no mesmo computador, eles se ligam que você voltou decidida a comprar. Pode ser, mas uma vez eu tentei abrir a segunda vez no laptop da minha irmã e eles se ligaram do mesmo jeito. Aparentemente, a TAM tem meios para descobrir que queremos ir pra Cancún. Nesse caso, ou você aceita que vai ficar um pouco mais pobre do que pretendia ou passa as férias coletivas suando em casa. Acredite: é melhor jogar esse dinheiro no fundo perdido e fazer as malas. Só reza pra não pegar uma gripe antes da viagem. Desculpa, essa foi maldade.
Não tem como, uma hora a gente vai esquecer de pagar uma conta e vai arcar com os juros. Se Deus quiser, nos daremos conta antes de cortar a luz ou acabar a água. Mas tem um caso especial: quando a gente esquece de programar uma das parcelas do IPTU. A prefeitura se dá o direito de nos avisar em até 5 anos (e ela utiliza todo o prazo), fazendo a gente se humilhar no guichê, pra parcelar a dívida, quintuplicada pelos juros, em 5 anos.
É, não tem jeito. Mais cedo ou mais tarde a gente vai perder um voo, a hora de acordar, um par de brinco ou uma reunião. Não importa se foi burrada ou azar. O lance é prever que a vida é imprevisível. E que tudo que nos resta é aceitar. A dor é inevitável, mas, se a gente for legal com a gente mesmo, ela pode doer menos. Bem menos.
Fonte: Jovem Pan