A medicina nunca dispôs de tantos recursos tecnológicos. Inteligência artificial, cirurgias robóticas, terapias-alvo e exames cada vez mais precisos transformaram profundamente o cuidado em saúde. Ainda assim, um problema elementar continua passando despercebido dentro dos hospitais: a desnutrição intra-hospitalar.
Trata-se de uma condição que pode surgir em consequência da ingestão insuficiente de nutrientes, da má absorção causada por doenças, de traumas ou do aumento das demandas metabólicas durante o processo de adoecimento. Entretanto, sua ocorrência não decorre apenas das condições clínicas dos pacientes. Também resulta de falhas assistenciais, da pouca valorização da terapia nutricional por parte de profissionais de saúde e da ausência de protocolos efetivos para monitorar a evolução do estado nutricional durante a internação.
Embora praticamente todos os hospitais disponham de serviços de nutrição, nem sempre existe um acompanhamento sistemático e proativo capaz de identificar precocemente os pacientes em risco. No Brasil, estudos mostram que entre 20% e 60% dos pacientes internados evoluem para algum grau de desnutrição.
Pode parecer contraditório que pessoas hospitalizadas justamente para recuperar a saúde recebam alta em condições nutricionais piores do que aquelas apresentadas na admissão. No entanto, essa é uma realidade frequente. A desnutrição relacionada à internação permanece como uma das complicações mais comuns da hospitalização e, paradoxalmente, uma das menos valorizadas.
O impacto real no tratamento e na recuperação
O paciente internado não perde apenas peso. Perde massa muscular, força, autonomia e capacidade de responder adequadamente ao tratamento. Cada dia sem ingestão nutricional suficiente compromete a cicatrização, reduz a resposta imunológica, aumenta o risco de infecções, prolonga o tempo de internação e eleva a probabilidade de complicações e de óbito. Não se trata apenas de alimentação; trata-se de um componente essencial do tratamento.
O mais preocupante é que esse cenário é amplamente conhecido pela comunidade científica. Há décadas, estudos nacionais e internacionais demonstram que uma parcela significativa dos pacientes hospitalizados apresenta risco nutricional ou já se encontra desnutrida, muitas vezes sem que essa condição seja identificada precocemente.
O estudo multicêntrico IBRANUTRI, publicado pelo BRASPEN/SBNPE em 2018, revelou que 48,1% dos pacientes já são internados com algum grau de desnutrição. Após 15 dias de internação, esse percentual pode alcançar 61%. O conhecimento científico, portanto, existe. O grande desafio é transformá-lo em prática assistencial.
A contradição é evidente. Hospitais investem milhões de reais em equipamentos sofisticados e terapias de alta complexidade, mas frequentemente deixam em segundo plano uma intervenção de custo relativamente baixo e eficácia amplamente comprovada: a avaliação nutricional precoce e proativa, seguida da terapia nutricional sempre que indicada.
O que pode mudar: triagem, protocolos e prioridade assistencial
Da mesma forma que existem Comissões de Controle de Infecção Hospitalar, seria plenamente justificável a criação de Comissões de Prevenção e Controle da Desnutrição Hospitalar. Nenhum gestor aceitaria que um paciente permanecesse dias sem monitoramento da pressão arterial, da glicemia ou sem avaliação diante de uma suspeita de infecção. No entanto, ainda é comum que o estado nutricional receba atenção insuficiente durante a internação.
Essa diferença revela uma clara distorção de prioridades. Em muitos serviços, a nutrição clínica continua sendo tratada como um cuidado complementar, quando deveria integrar o núcleo da assistência hospitalar. Mesmo instituições que possuem protocolos estabelecidos nem sempre conseguem aplicá-los de forma consistente. Além disso, a importância da terapia nutricional ainda recebe pouca atenção na formação médica, refletindo-se posteriormente na prática clínica.
O desafio tende a crescer. O envelhecimento da população brasileira aumenta o número de pacientes com doenças crônicas, câncer, fragilidade e sarcopenia, condições que elevam significativamente o risco de desnutrição. Ignorar essa realidade significa ampliar custos, complicações e sofrimento que poderiam ser evitados.
A boa notícia é que existem soluções. Ferramentas simples de triagem nutricional permitem identificar rapidamente pacientes em risco. Equipes multiprofissionais capacitadas conseguem instituir intervenções precoces capazes de reduzir complicações, diminuir o tempo de internação e melhorar a recuperação. Diversos estudos demonstram que investir no cuidado nutricional produz benefícios clínicos e econômicos.
A discussão, portanto, não está na criação de novas tecnologias, mas na utilização adequada de um conhecimento já consolidado. Em um sistema de saúde pressionado por restrições orçamentárias, poucas estratégias apresentam uma relação custo-benefício tão favorável quanto a prevenção e o tratamento da desnutrição hospitalar.
Toda política de qualidade assistencial deveria incluir a triagem nutricional obrigatória na admissão, protocolos de acompanhamento durante a internação e indicadores capazes de avaliar seus resultados. Nutrição não é um detalhe administrativo; é um componente essencial da segurança do paciente e da qualidade do tratamento.
A excelência hospitalar não se mede apenas pelo número de equipamentos de última geração ou pela sofisticação dos procedimentos realizados. Mede-se também pela capacidade de oferecer aquilo que toda boa medicina exige: um cuidado integral, baseado em evidências e centrado nas necessidades do paciente.
Enquanto a desnutrição continuar invisível dentro dos hospitais, continuaremos investindo cada vez mais em tecnologia para corrigir problemas que, muitas vezes, poderiam ser evitados por meio de uma atenção adequada ao cuidado nutricional. Em saúde, o futuro depende da inovação. Mas a verdadeira excelência jamais poderá negligenciar o básico.
Prof. Dr. Evandro Roberto Baldacci – CRM: 12782-SP – RQE Nº: 64595Infectologia pediátrica
Fonte: Jovem Pan