Diversas revisões científicas recentes mostram que as mulheres têm cerca de duas vezes mais chances de desenvolver transtornos de ansiedade do que os homens. No Brasil, uma pesquisa realizada em 2023 trouxe um dado ainda mais alarmante: mais de um terço das brasileiras refere sintomas de ansiedade, percentual superior ao observado entre os homens.
Mas, para quem trabalha diariamente com saúde mental, nem seria preciso recorrer às estatísticas para perceber que algo não vai bem. O que mais ouvimos nos atendimentos psicológicos da clínica são relatos de uma vida marcada pela sobrecarga.
Quando a rotina vira um ciclo de cobrança e cansaço
Rotinas exaustivas, jornadas intermináveis, pressão constante, metas inalcançáveis e uma sensação persistente de que nunca se faz o suficiente. O cansaço aparece estampado no rosto e nas palavras de mulheres que já não sabem mais como sair desse ciclo. O dia a dia transformou-se em uma sequência interminável de tarefas, cobranças e culpas. As 24 horas parecem insuficientes para dar conta de tudo – e, além de fazer tudo, ainda é preciso fazer tudo bem feito. Errar parece proibido. Pedir ajuda, muitas vezes, é interpretado como sinal de fraqueza. Perguntar pode soar como falta de competência. O resultado é um cérebro permanentemente ocupado, sem espaço para descansar.
Infelizmente, esse cenário deixou de ser exceção e passou a ser rotina. As mulheres continuam acumulando múltiplas jornadas. Trabalham fora de casa, cuidam dos filhos, administram a casa, assumem responsabilidades familiares e, em muitos casos, também são as principais provedoras da família. Essa capacidade de exercer tantos papéis merece reconhecimento. Mas ela também alimenta uma cobrança silenciosa: a de acreditar que é preciso dar conta de tudo, o tempo todo e com perfeição.
O adoecimento que chega aos poucos
É nesse contexto que o adoecimento vai surgindo, muitas vezes de forma discreta. Pouco a pouco, a ansiedade, o estresse e o esgotamento ocupam um espaço cada vez maior em uma mente que já vinha funcionando no limite. Não existe solução mágica para esse tipo de exaustão. Nenhum tratamento, isoladamente, é capaz de compensar uma rotina que exige o impossível. Por isso, talvez seja hora de resgatar algumas permissões que fomos perdendo ao longo da vida e que podem devolver um pouco mais de equilíbrio ao corpo e à mente.
É permitido descansar. Fazer pausas ao longo do dia e, às vezes, simplesmente não fazer nada é necessário, não um luxo.
É permitido se divertir. Uma vida sem momentos de leveza perde parte do seu sentido.
É permitido não saber. Perguntar, tirar dúvidas e aprender nos aproximam da nossa humanidade.
É permitido errar. É assim que aprendemos, amadurecemos e evoluímos.
Todos os sentimentos são permitidos, desde que saibamos acolhê-los e fazer um bom uso de cada um deles.
É permitido deixar a casa bagunçada quando não houver tempo para arrumá-la.
É permitido dizer não aos outros quando isso for necessário, sem carregar culpa por isso.
Também é permitido dizer sim para você, mesmo quando isso parecer difícil.
É permitido sair de férias sem os filhos, e é permitido sair para dançar com as amigas.
É permitido não fazer hora extra todos os dias.
É permitido sentar-se no sofá para ler um livro ou assistir àquela série que você está adiando há meses.
É permitido sonhar e realizar sonhos.
É permitido não se preocupar o tempo todo.
É permitido mudar. Sempre. Aos 30, aos 40, aos 50 ou em qualquer outra fase da vida. Nunca é tarde para mudar de carreira, de planos ou de direção.
E, acima de tudo, é permitido ser feliz.
Bons hábitos também são parte do cuidado
A lista de permissões poderia ser muito maior. Mas existem também alguns deveres dos quais não deveríamos abrir mão se quisermos preservar a nossa saúde mental.
Dormir bem não é um luxo; é uma necessidade biológica. Praticar atividade física também. A ciência demonstra, de forma consistente, que o exercício físico é uma das estratégias mais eficazes na prevenção e no tratamento dos transtornos mentais. E, por fim, vale lembrar: desembale menos e descasque mais. Priorizar uma alimentação saudável também faz diferença no funcionamento do cérebro e no nosso bem-estar.
Talvez a equação seja mais simples do que imaginamos: bons hábitos somados a boas permissões podem transformar uma vida exausta em uma vida mais equilibrada. E, se você não sabe por onde começar ou sente que, sozinha, não consegue colocar essas mudanças em prática, busque autoconhecimento. A psicoterapia pode ser um excelente ponto de partida.
Eva Rosa Strum – CRP: 06/218472Psicóloga e Neuropsicóloga
Fonte: Jovem Pan