Situação das UTIs do Hospital Regional provoca fortes cobranças na Câmara. Parlamentares questionam fechamento de leitos, possível avanço da rede privada e pedem investigação do Ministério Público e do Tribunal de Contas.
A situação das UTIs do Hospital Regional de Cacoal provocou uma sequência de duras manifestações durante sessão da Câmara Municipal. Vereadores cobraram explicações do Governo de Rondônia sobre o funcionamento dos leitos, os impactos para pacientes que dependem de terapia intensiva e levantaram questionamentos sobre a ampliação da participação da iniciativa privada na saúde estadual.
O debate ganhou força com o vereador Edimar Kapiche, que levou à tribuna um relato que, segundo ele, havia sido encaminhado por uma pessoa que trabalha no Hospital Regional de Cacoal.
Durante a leitura da mensagem, foram apresentados questionamentos sobre o fechamento de leitos da rede pública e sobre a possibilidade de recursos do próprio SUS acabarem sendo utilizados para custear atendimentos por meio da iniciativa privada.
Entre os questionamentos lidos por Kapiche estava:
“Por que fechar os leitos do SUS, que é de todos, para depois terceirizar o atendimento com recurso do mesmo SUS?”
Após apresentar o relato, Edimar também se posicionou e cobrou providências para que a população não seja prejudicada. O vereador criticou ainda situações em que pacientes e familiares acabam recorrendo a agentes políticos em busca de uma vaga.
“A vaga é seu direito. Não é favor do deputado.”
Na sequência, o vereador Zivan Almeida reforçou as cobranças e chamou atenção para um problema que vai além da quantidade de leitos disponíveis. Segundo ele, a UTI também é fundamental como retaguarda para pacientes submetidos a procedimentos de maior complexidade.
Zivan ressaltou que ainda era necessário confirmar exatamente a situação das unidades, mas questionou o impacto que um eventual fechamento pode provocar sobre as cirurgias realizadas no Hospital Regional.
“Como vão ficar as cirurgias sendo que a UTI está fechada?”
O parlamentar cobrou explicações do Governo de Rondônia e defendeu que a situação seja esclarecida com transparência.
A vereadora Dra. Amália Milani também fez duras cobranças. Durante o debate, afirmou ter recebido novas informações sobre as UTIs e levantou questionamentos sobre a movimentação da rede privada em Cacoal.
Segundo o que relatou na sessão, uma unidade estaria praticamente fechada e outra já teria sido fechada. Amália também questionou o que classificou como uma coincidência entre o fechamento de leitos públicos e informações envolvendo a compra do Hospital São Paulo por um novo grupo.
A vereadora cobrou atuação dos órgãos de controle e questionou por que o Tribunal de Contas não investigaria quem está por trás do grupo que teria adquirido a unidade particular.
“Por que o Tribunal de Contas não investiga quem está por trás do grupo que comprou o Hospital São Paulo? É muita coincidência fechar UTI no público e, ao mesmo tempo, acontecer tudo isso na rede privada.”
A fala de Amália foi apresentada em tom de questionamento e cobrança de investigação. Até o momento, não há comprovação apresentada na sessão de que o fechamento de leitos do Hospital Regional tenha ocorrido para beneficiar o Hospital São Paulo ou qualquer outro grupo privado.
O vereador Alaézio do Teixeirão elevou ainda mais o tom e defendeu que o caso seja acompanhado de perto pelos órgãos de fiscalização.
Para ele, a situação não pode ficar restrita ao debate político dentro da Câmara.
“O Ministério Público e o Tribunal de Contas precisam ver o que está acontecendo nessas UTIs, ver o que está acontecendo dentro do hospital.”
Alaézio afirmou ainda que vereadores são procurados constantemente por famílias em busca de ajuda para conseguir UTI, cirurgia, transferência e outros atendimentos hospitalares.
Em uma das declarações mais fortes da sessão, resumiu sua avaliação sobre a situação da saúde estadual:
“A saúde do Estado de Rondônia está na UTI, e nós precisamos falar pelo povo aqui.”
Na avaliação do parlamentar, a gravidade do cenário exige fiscalização e respostas imediatas do Governo.
O vereador Amarilson Carvalho também entrou no debate e acrescentou um novo elemento às discussões.
Durante sua manifestação, Amarilson afirmou ter acabado de receber a informação de que, diante do fechamento da UTI, os atendimentos poderiam passar a ser direcionados ao Hospital São Paulo, em Cacoal.
O próprio vereador, porém, fez uma ressalva imediata e deixou claro que a informação ainda precisava ser verificada.
“Não sei se a informação chegou agora, que está sendo fechada a UTI e os encaminhamentos vão ser redirecionados para o São Paulo. Vamos verificar.”
Na sequência, Amarilson levantou questionamentos sobre quem estaria por trás da unidade particular. Segundo o que afirmou na tribuna, o Hospital São Paulo teria sido comprado recentemente por um novo grupo.
O parlamentar também questionou a rapidez de eventuais credenciamentos e defendeu que Ministério Público e Tribunal de Contas investiguem a situação para esclarecer se existe ou não alguma relação entre o fechamento de leitos públicos e a ampliação da estrutura privada.
A informação apresentada por Amarilson, entretanto, foi recebida durante a própria sessão e não veio acompanhada, naquele momento, de documentos que comprovassem que pacientes do Hospital Regional serão encaminhados ao Hospital São Paulo.
Em meio à sequência de manifestações, uma frase resumiu o tom das críticas feitas durante a sessão:
“Quebraram a saúde do Estado para terceirizar, está desenhado.”
A declaração ganhou força diante dos questionamentos levantados pelos vereadores sobre o funcionamento da estrutura pública e o crescimento das contratações de empresas privadas para prestação de serviços na saúde.
O debate também ocorre em um momento em que existem processos oficiais do Governo de Rondônia destinados à contratação de empresas privadas para atuar em serviços de saúde.
No dia 21 de agosto de 2026, por exemplo, o Estado publicou o Aviso de Dispensa de Licitação nº 406/2026, destinado à contratação de uma empresa especializada para fornecer equipe médica e multiprofissional para atuação na UTI Neonatal do Hospital Regional de Cacoal.
O objeto prevê profissionais das áreas de enfermagem, fisioterapia, psicologia, assistência social, nutrição, administrativo, medicina pediátrica e neonatologia pelo período de um ano.
Também existe processo para contratação de empresa especializada na prestação contínua de serviços médicos de Pediatria e Neonatologia no Hospital Regional.
Esses documentos mostram que a contratação de empresas privadas para executar determinados serviços dentro da estrutura estadual já faz parte das ações administrativas do Governo.
Isso, porém, não comprova que os leitos questionados pelos vereadores tenham sido fechados para beneficiar determinado hospital particular, nem que exista uma decisão oficial de transferir as UTIs públicas para a iniciativa privada.
É justamente essa possível relação que os parlamentares querem ver esclarecida.
Depois das manifestações feitas na Câmara, algumas perguntas permanecem sem resposta pública clara: quantos leitos de UTI deixaram efetivamente de funcionar no Hospital Regional? Qual foi o motivo? Houve falta de profissionais? Existe previsão para retomada dos atendimentos? Como ficam as cirurgias que dependem de retaguarda intensiva? Para onde estão sendo encaminhados os pacientes que precisam de uma vaga?
Também ficam os questionamentos sobre a rede privada: quem adquiriu o Hospital São Paulo? Quais credenciamentos foram concedidos à unidade? Existe algum contrato, negociação ou planejamento do Estado para encaminhar pacientes da rede pública para hospitais particulares?
As declarações feitas pelos vereadores são graves e precisam ser apuradas. Elas não representam, por si só, prova de que UTIs públicas estejam sendo fechadas para favorecer a iniciativa privada. Mas diante da importância do Hospital Regional para Cacoal e para pacientes de vários municípios, os questionamentos exigem respostas claras e documentadas.
O Se Liga Cacoal mantém espaço aberto ao Governo de Rondônia, à Secretaria de Estado da Saúde e às instituições citadas durante a sessão para manifestação e esclarecimento dos fatos.
Quando o assunto é UTI, a população precisa de respostas antes que a falta de um leito vire uma emergência ainda maior.