Por Moisés Selva Santiago

Quando menino, li a Bíblia pela primeira vez e fiquei fascinado. Agora, já idoso, meu fascínio depois de lê-la cerca de cem vezes, se transforma num sentimento de urgência, porque olho ao redor e pergunto: o que fizeram com ela?
Aquele santo livro que li, estudei, ensinei e preguei não é o mesmo que é lido, estudado, ensinado e pregado, hoje. Arrancaram-lhe páginas. Queimaram preciosos princípios. Deturparam a Santíssima Voz. Estupraram-na com pensamentos ideológicos político-partidários. Precificaram-na com uma teologia que ora expulsa o mal, ora enriquece o fiel; ora demoniza a pobreza, ora arregimenta batalhões do “nós contra eles”.
Ouvimos autoridades masculinas e femininas afirmando não haver feminicídio em nossa pátria amada e que o homem é homem quando bate e mata mulher, porém leio que Jesus salvou uma mulher que seria apedrejada por homens “de família”. Dizem que não deve haver oportunidade para o pobre melhorar sua vida e milhões deixarem o mapa da fome, mas ouço Jesus dizendo que quando participamos solidariamente da vida de quem necessita, é Ele quem recebe. Falam de amor, mas somente o amor para a própria família, os amigos, os do mesmo partido; porém vejo na Bíblia Jesus ao lado de gente diferente, marginalizada, opositora, estranha e estrangeira, como está nos Evangelhos.
Não encontro na Sagrada Escritura espaço para tamanha falta de humanidade que nos cerca. Potências mundiais que poderiam acabar com a fome no mundo, preferem expandir seus domínios e riquezas “em nome de Deus”. Políticos e economistas que têm nas mãos o poder para promoverem o bem-estar da sociedade, garantindo a justiça e o estado democrático de direito, se dizem “salvadores da pátria”, mas escolhem o caminho da injustiça, da mentira, do descaso com populações marginalizadas, e a perigosa trilha do golpe e da revolta entre os brasileiros que nasceram no mesmo solo desta que é a mais bela nação do mundo.
É de entristecer o coração que a cada culto e missa, pastores e padres pregam todo tipo de assunto, menos Jesus. Há décadas, formam gerações de fiéis com anorexia da fé porque entregam a homens e mulheres um minguado mingauzinho sem valor nutritivo para a formação da consciência cristã de um mundo igualitário e melhor. Ao contrário, usam seus títulos religiosos para afirmarem a inferioridade da mulher, para tratarem homoafetivos de lixo humano e para alimentarem domingo após domingo o ódio e todas as formas de desrespeito e violência contra quem é diferente deles.
Daí a urgência: peço perdão a você de qualquer ou nenhuma religião, quer seja mulher, idoso, criança, homoafetivo, pobre, estrangeiro, perseguido, desprezado pela sociedade apodrecida. Perdão, porque o plano de Jesus foi e sempre será cuidar de vocês, “pequeninos do Pai”. E peço a você que é cristão: leia a Bíblia. Suplique ao Pai das luzes a iluminação que desce dEle e nos transforma no amor, pelo amor e para o amor. Amor a Deus sobre todas as coisas – sim – mas também amor ao próximo como a si mesmo, como disse Jesus. Afinal, estamos diante do terrível perigo da substituição do Jesus da Bíblia por uma “minha” Sagrada Escritura.
Fonte: Tribuna Popular
