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Brasil

O PT poderia ter vencido no primeiro turno, mas preferiu o rigor à pacificação

13 minutos de leitura
Coluna de opinião · Política nacional
PAPUDISKINA

O PT poderia ter vencido no primeiro turno, mas preferiu vingança à pacificação

Por Daniel Oliveira da Paixão · Outubro de 2026

Com o capital político de Lula e uma economia que transmite relativa estabilidade à população, apesar dos problemas fiscais que poderão cobrar seu preço adiante, acredito que o PT teria condições de construir uma vitória até no primeiro turno. Afinal, para boa parte do eleitorado, importa mais a sensação econômica do presente do que os riscos futuros.

Mas Lula e seu partido, na minha avaliação, cometeram um erro político monumental: faltou humanidade diante do sofrimento de milhares de famílias atingidas pelos desdobramentos do 8 de Janeiro de 2023. Lula e o PT não souberam aproveitar uma injustiça flagrante e buscar a pacificação. Agiram com instinto de vingança. Espero que a direita, caso volte ao poder, não aja também com esse instinto e respeite o ordenamento jurídico.

Penso até que, em nome da pacificação que o PT desprezou, o Congresso conceda a Alexandre de Moraes, o maior algoz da história do Brasil pós-redemocratização, o direito de renunciar e não ser processado.

Presos políticos

Entre os “presos políticos” havia mães de família, pessoas religiosas, integrantes de círculos de oração e cidadãos que, acredito, foram mal orientados e jamais imaginaram as consequências de sua participação naqueles acontecimentos.

O caso de Débora Rodrigues, condenada a 14 anos de prisão por um conjunto de crimes relacionados ao 8 de Janeiro, tornou-se emblemático. O ministro Luiz Fux divergiu, defendendo pena de apenas um ano e seis meses.

Como pode haver diferença tão gigantesca entre ministros da mesma Corte? Se Fux considerou adequada uma punição tão inferior, não é absurdo questionar o rigor de Alexandre de Moraes e dos demais ministros que acompanharam a condenação.

Para mim, justiça sem proporcionalidade corre o risco de se transformar em instrumento de intimidação. A condenação dessa mulher, assim como a de tantos outros homens e mulheres que participaram dos protestos sem que lhes fosse comprovada a prática de violência, provocou indignação e comoção nacional. A esquerda também já promoveu inúmeras manifestações marcadas pela depredação do patrimônio público, mas não vimos o mesmo rigor nas punições.

Soma-se a isso a insensibilidade de grande parte da imprensa nacional, que não reagiu à altura diante dessas injustiças. E aqui, na minha avaliação, cabem duas hipóteses: ou houve conivência com os excessos cometidos, por afinidade ideológica, ou cumplicidade deliberada, motivada por interesses e possíveis vantagens, inclusive decisões favoráveis aos seus negócios.

Falo sob uma perspectiva pessoal e subjetiva, mas não consigo enxergar justiça onde faltam misericórdia, proporcionalidade e bom senso, especialmente quando se impõem condenações tão severas a pessoas que, em muitos casos, foram a Brasília simplesmente porque receberam orientações equivocadas.

Punir é dever da Justiça; transformar pessoas em exemplos de punição desmedida, sem considerar a responsabilidade individual, é algo que considero uma profunda injustiça.

A direita que chamam de barbárie e a lição de 1979

Existe aqui uma contradição histórica extraordinária.

Em 1979, quando o Brasil ainda estava sob o regime militar, foi aprovada uma anistia que beneficiou perseguidos políticos, mas também alcançou agentes da repressão, inclusive envolvidos em graves violações de direitos humanos.

Não eram pessoas que apenas gritavam palavras de ordem pedindo intervenção militar. Havia agentes de um regime que efetivamente havia tomado o poder, exercido a censura, perseguido adversários e praticado a repressão política.

A anistia foi parte de uma transição negociada, conduzida ainda sob o poder militar, e muito criticada por sua abrangência. Entretanto, contribuiu para abrir caminho à redemocratização.

Não ignoro as diferenças entre os dois períodos históricos. Mas considero que o princípio da pacificação deveria inspirar o Brasil novamente.

Pedir intervenção não é o mesmo que realizar um golpe

O ambiente de radicalização não começou em janeiro de 2023. Desde as eleições de 2014, o Brasil acumulava ressentimentos, confrontos políticos e uma polarização progressivamente mais agressiva.

Após as eleições de 2022, muitos manifestantes acreditavam que bastaria pedir uma intervenção militar para que o Exército agisse. Era uma expectativa equivocada e, do ponto de vista democrático, grave.

Mas não significa que todas aquelas pessoas tivessem organizado um plano concreto para derrubar o governo.

Faço uma comparação: alguém dizer que pretende matar outra pessoa não significa que tenha cometido homicídio. Se realmente tentou executar o crime, deverá responder pela tentativa. Mas a intenção manifestada, sem atos de execução, não pode ser automaticamente equiparada ao crime consumado.

Naturalmente, ameaças e incitações também podem constituir delitos. O que defendo é a distinção entre intenção, participação, tentativa e consumação.

O STF adotou uma interpretação de atuação coletiva nos julgamentos do 8 de Janeiro. Tenho profundas reservas quanto à amplitude com que essa interpretação foi aplicada a diferentes participantes. Pior, a forma como Alexandre de Moraes acumulou poderes e julgou os envolvidos, como se fossem detentores de prerrogativa de foro. Como cidadãos comuns, deveriam ter sido julgados pela Justiça comum, em seus respectivos estados e comarcas.

A anistia deveria ter sido ampla, geral e irrestrita

Aqui faço questão de deixar minha posição absolutamente clara: não defendo uma anistia apenas para manifestantes de menor participação. Defendo uma anistia ampla, geral e irrestrita, que alcance também os líderes políticos e o próprio Jair Bolsonaro, pelos fatos abrangidos por uma medida de reconciliação nacional.

Os responsáveis por danos materiais comprovados ao patrimônio público deveriam ser obrigados a ressarcir os prejuízos.

Admitiria, inclusive, penas privativas de liberdade em casos de responsabilidade mais grave, especialmente de lideranças, mas considero que deveriam ser proporcionais aos danos e às condutas demonstradas, com limite que, na minha proposta política de pacificação, não ultrapassasse dois anos, permitindo ainda comutação quando juridicamente cabível.

Defendo uma solução legislativa excepcional que ajude o país a superar esse conflito nacional. Precisamos romper com uma polarização que, já no primeiro turno, concentra os votos em dois políticos dominantes e praticamente elimina as chances dos demais concorrentes.

O voto útil pode impedir a vitória antecipada de quem rejeitamos, mas também nos priva da oportunidade de escolher candidatos melhores. Assim, perpetuamos a disputa entre os mesmos protagonistas, sem permitir que outras lideranças conquistem espaço. O ideal seria votarmos em quem realmente consideramos melhor no primeiro turno e deixarmos para o segundo a escolha entre os dois mais votados, que poderiam, inclusive, ser candidatos diferentes dos atuais protagonistas dessa polarização.

Afinal, se o Brasil conseguiu construir um caminho de reconciliação em 1979, mesmo diante de um passado de repressão efetiva e ruptura democrática, por que não poderia buscar uma solução abrangente para os acontecimentos de 2023?

A intervenção militar defendida por muitos manifestantes não se concretizou. Isso não apaga os crimes que tenham sido praticados, mas é relevante para a discussão sobre suas consequências penais e sobre o alcance de uma eventual anistia.

Uma anistia poderia ter sido uma bênção nacional

Lula poderia ter assumido a liderança desse processo de pacificação nacional. Poderia ter defendido a reparação dos danos, uma anistia política abrangente e o compromisso de todos com o respeito às instituições.

Teria a oportunidade de demonstrar grandeza, humanidade e misericórdia, em vez de alimentar a percepção de revanchismo e insistir na ideia de “aniquilar o bolsonarismo”, como se coubesse ao governante decidir quais forças políticas devem sobreviver, e não ao eleitor, por meio do voto soberano. Afinal, a democracia pressupõe pluralidade e alternância de poder, não a eliminação política dos adversários.

Essa anistia poderia ter representado uma bênção para o Brasil e, paradoxalmente, uma extraordinária oportunidade política para o próprio Lula e seu partido. Em vez disso, prevaleceu entre os governistas a palavra de ordem: “Não à anistia!”

A contradição é evidente: quando Lula esteve preso, seus apoiadores reivindicavam justiça, garantias constitucionais e tratamento humanitário. Agora, diante de adversários políticos condenados, muitos parecem incapazes de admitir possíveis excessos, discutir a proporcionalidade das penas ou sequer considerar o perdão.

Direitos, garantias e misericórdia não podem depender da identidade política de quem está sendo julgado. O que se exige para os nossos deve ser igualmente defendido para os adversários.

E se a homenagem do Carnaval fosse a Bolsonaro?

Também considero legítimo questionar o tratamento eleitoral dispensado à homenagem a Lula pela Acadêmicos de Niterói, no Carnaval de 2026.

O TSE rejeitou pedidos liminares para impedir o desfile. Pergunto: se, em 2022, Bolsonaro tivesse recebido homenagem semelhante, em pleno ano eleitoral, a Justiça Eleitoral teria adotado a mesma postura?

Não tenho como afirmar que decidiria diferentemente. Mas a dúvida reforça minha cobrança por critérios rigorosamente iguais.

O perigo de governar pelo medo

Ao não buscar a pacificação, considero que o PT assumiu dois riscos: perder apoio eleitoral ou aprofundar perigosamente o ressentimento nacional.

A sucessão de condenações severas produziu, na minha percepção, um efeito intimidatório. Muitas manifestações perderam força. Mas seria um erro confundir silêncio com reconciliação.

A história mundial oferece advertências. Na Romênia, em 1989, manifestações enfrentaram repressão violenta e culminaram na queda da ditadura de Nicolae Ceaușescu, com centenas de mortos.

Não estou comparando o Brasil àquela ditadura, nem desejando acontecimentos semelhantes. Muito pelo contrário. A resistência do brasileiro a soluções revolucionárias violentas é uma qualidade que devemos preservar.

Mas a lição é que governantes e instituições não deveriam apostar no medo como garantia de estabilidade.

Outros erros que o PT parece não compreender

A falta de pacificação não foi, em minha avaliação, o único erro político de Lula.

O partido também acumulou dificuldades de relacionamento com segmentos religiosos, policiais, militares, profissionais da segurança privada, produtores rurais e pequenos empresários.

Não afirmo que todos sejam antipetistas. Mas considero evidente que discursos hostis de determinados militantes podem ampliar a desconfiança desses setores.

Policiais têm famílias, amigos e comunidades. Evangélicos também. Empresários possuem empregados, parceiros e amplas relações sociais. Por isso, a rejeição a um partido político pode ultrapassar os limites de uma categoria profissional ou religiosa, alcançando diferentes segmentos da sociedade.

Outro ponto merece atenção: o uso eleitoral de símbolos religiosos. Nesse contexto, explorar a imagem de Nossa Senhora por meio de narrativas falsas ou distorcidas, na expectativa de sensibilizar eleitores católicos, pode revelar uma compreensão limitada de suas convicções. Católicos e evangélicos frequentemente pertencem às mesmas famílias, compartilham valores e respeitam suas diferenças de fé.

Embora a doutrina católica reconheça Maria como intercessora, há católicos cuja compreensão pessoal se aproxima da visão evangélica sobre a mediação exclusiva de Jesus Cristo. Isso não diminui o respeito por Maria como mãe de Jesus e exemplo de fé, mas demonstra que a identificação religiosa não torna uniformes todas as interpretações individuais.

O erro de avaliação política está em presumir que uma controvérsia religiosa produzirá, por si só, uma comoção capaz de mudar votos já consolidados. Um católico que se identifica com o bolsonarismo não necessariamente abandonará seu candidato por causa de diferenças doutrinárias entre as duas tradições cristãs. A importância da fé em sua vida não significa que todo apelo religioso se sobreponha às suas convicções políticas.

Confundir sensibilidade religiosa com disposição para mudar de voto pode ser um erro de cálculo eleitoral.

E isso me leva a outra contradição.

As redes sociais: de ameaça a esperança eleitoral

Durante o terceiro mandato de Lula, o governo e parlamentares aliados defenderam repetidamente a regulamentação das plataformas digitais, alegando a necessidade de combater a desinformação e responsabilizar as empresas.

Agora, no segundo turno, a campanha petista intensificou a mobilização de influenciadores, parlamentares e personalidades com milhões de seguidores.

André Janones organizou o chamado “Exército do Lula”. Lideranças digitais foram convocadas para ampliar o engajamento eleitoral.

Não considero contraditório, por si só, defender regras para plataformas e utilizá-las politicamente. O problema surge quando a exigência de responsabilidade parece não receber a mesma atenção diante da comunicação dos próprios aliados.

O caso da deputada eleita Ana Elisa ilustra essa dificuldade.

Após ser convocada para reforçar a mobilização digital, vieram à tona numerosas publicações atribuídas ao seu antigo perfil, envolvendo críticas a igrejas e outros temas. Ela reconheceu parte das mensagens, afirmou que algumas foram descontextualizadas ou irônicas e negou a autoria de outras.

A multiplicidade dos registros, inclusive de materiais preservados digitalmente, justifica uma apuração cuidadosa. Nem a negativa comprova falsificação, nem as capturas de tela comprovam automaticamente a autoria de cada publicação.

Mas considero que a explicação da ironia também merece questionamento. A intenção íntima de quem escreve é subjetiva. Já o conteúdo publicado pode ser examinado e criticado.

Ataques agressivos à fé religiosa, quando efetivamente comprovados, não deixam necessariamente de ser ofensivos porque seu autor afirma posteriormente que estava ironizando.

A desativação do perfil, atribuída pela parlamentar às ameaças recebidas, tampouco resolve a controvérsia. A autenticidade das mensagens pode ser investigada mediante registros técnicos.

O que questiono politicamente é a dificuldade de conciliar uma campanha que pretende conquistar novos eleitores com a participação de figuras cujas manifestações anteriores despertam rejeição justamente entre os segmentos que o partido precisaria compreender melhor.

O silêncio das ruas reapareceu nas urnas?

Tenho a impressão de que parte da indignação acumulada desde 2023 encontrou expressão nas urnas em 4 de outubro de 2026.

Não afirmo que todos os votos contrários ao PT decorreram do 8 de Janeiro. Economia, segurança pública, avaliação do governo e outros fatores também influenciaram o eleitorado.

Mas considero esse sofrimento um componente político que não pode ser ignorado.

E agora existe uma realidade matemática.

Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos no primeiro turno. Lula obteve 53.876.617.

A diferença é de 2.227.651 votos.

Se Flávio repetir exatamente sua votação, Lula precisará acrescentar pelo menos 2.227.652 votos ao seu resultado para vencê-lo. Naturalmente, transferências entre candidatos, abstenções, votos brancos e nulos e novos comparecimentos poderão alterar essas contas.

Se os dois conquistarem quantidades idênticas de votos adicionais, a diferença permanecerá.

E, numa situação extremamente improvável de empate exato, a legislação eleitoral estabelece o critério da maior idade, o que beneficiaria Lula.

Mas não se pode construir uma estratégia eleitoral esperando algo tão extraordinário.

As pesquisas recentes mostram uma disputa competitiva, sem que o resultado esteja definido.

É nesse contexto que questiono se simplesmente aumentar o número de influenciadores será suficiente para modificar sentimentos políticos construídos durante anos.

A campanha pode alcançar grande repercussão entre pessoas que já apoiam Lula, sem necessariamente alterar as convicções de quem votou em outros candidatos.

A oportunidade que Lula pode ter desperdiçado

Em minha avaliação, Lula não precisava transformar bolsonaristas em lulistas. Bastava demonstrar que respeitava seus direitos, compreendia sua dor e estava disposto a participar de uma solução política para encerrar aquele conflito.

A anistia ampla poderia ter sido o gesto histórico dessa reconciliação, ainda que seu alcance enfrentasse importantes questões constitucionais.

O PT preferiu manter uma posição contrária à anistia e agora busca ampliar sua comunicação digital para conquistar novos apoios.

Não sei quantos votos uma política diferente de pacificação poderia ter produzido. Mas considero legítimo perguntar se ela não teria reduzido a rejeição que Lula enfrenta.

E talvez essa seja a principal questão política que o PT precisa enfrentar neste segundo turno.

Papudiskina — Daniel Oliveira da Paixão

Jornalista desde março de 1985, com atuação em jornais de São Paulo, Espírito Santo e Rondônia. Ex-integrante do PSB, eleitor de Lula em 2002 e 2006, de Dilma em 2010 e da direita desde 2018.

Artigo de opinião. As interpretações políticas são direito constitucional do autor em opinar em um país que valorize e respeite a liberdade de expressão.

Fonte: Tribuna Popular