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A alma urbana não cabe em LED

Há esquinas que contêm uma cidade inteira. A da Ipiranga com a São João é uma delas. Vive na música, na memória e na imaginação de quem passou por ali, sonhou ou se reconheceu. O espanto de quem chega nasce do peso de uma história cultural e do encontro com uma cidade que nunca se entrega por completo ao olhar. É dessa resistência que nasce a alma urbana.
Em “Sampa”, Caetano Veloso cantou o estranhamento de quem é atravessado por uma cidade que não se revela facilmente. A esquina da Ipiranga com a São João impõe ao visitante a aspereza da paisagem, o excesso de concreto, a pressa, a desigualdade à vista. A cidade não devolve conforto. Exige outro olhar. Daí vem sua força.
Essa força que não se importa nem se compra é exatamente o que a prefeitura abandona ao trocar a esquina por uma fantasia iluminada por LED e moldada à imagem da Times Square. Como observou o urbanista Anthony Ling, em artigo publicado no site Metro Quadrado, a Times Square de Nova York não foi reerguida por seus letreiros. Os luminosos vieram depois, quando já havia investimento público, requalificação do entorno, recuperação de teatros, calçadas ampliadas, regras claras, contrapartidas privadas e fiscalização. O brilho dos painéis não produziu a transformação do lugar. Ele surgiu quando mudança já estava em curso. Em São Paulo, a prefeitura tenta fazer o contrário. Exibe o letreiro, vende a imagem da renovação e deixa de lado tudo o que precisaria existir antes para que o centro voltasse a funcionar como cidade.
O problema não é só estético. É institucional.
O que separa uma intervenção vistosa de uma política pública é a existência de regra anterior ao projeto, contrapartida privada, fiscalização contínua, controle administrativo e sanção em caso de descumprimento. Cidade não se reorganiza pela reprodução de uma imagem estrangeira. Reorganiza-se quando o poder público impõe deveres a quem lucra com a valorização urbana, fixa limites de uso, exige retorno real ao espaço coletivo e faz valer essas obrigações. Sem isso, o projeto vira licença para explorar a paisagem com chancela oficial.
Em São Paulo não faltam exemplos revestidos de boas intenções. Sob o Minhocão, a Prefeitura instala jardins para captação de água da chuva – mas debaixo do viaduto, a água, quando aparece, mal chega ao solo. O verde sobrevive à base de caminhões-pipa, enquanto a paisagem é “requalificada” para expulsar da vista a população em situação de rua. Não se enfrenta o conflito urbano. Administra-se sua aparência.
Vale também para as “fachadas ativas”: o empreendedor ganha metros quadrados no ar em troca de um vidro no chão. Nenhuma praça, nenhum banco, nenhuma árvore. É o bônus sem contrapartida qualitativa.
Os parklets, espécie de primo pobre do revocable consent nova-iorquino, seguem a mesma lógica. O bar ocupa a vaga do carro, estende a mesa sobre a calçada e chama de humanização. O espaço público vira anexo do consumo da clientela sem contrapartida alguma.
Em todos esses casos fabrica-se aparência de renovação, retiram-se de cena as obrigações institucionais e vende-se como melhoria o que, no fundo, é maquiagem urbana.
Ao desmontar a fantasia paulistana de uma Times Square, Anthony Ling mostra o que a propaganda municipal tenta esconder: brilho, sozinho, não produz cidade. Produz cenário.
Não consigo parar de pensar na última coluna de Fernanda Young para o jornal O Globo intitulada “a cafonice detesta a arte”. Sua escrita é atual. Há pouca coisa mais cafona do que desistir da forma própria de uma cidade para fantasiá-la com o brilho importado de outra. O que se vende como modernização é, no fundo, rendição estética, pobreza de imaginação e desprezo pela experiência urbana já existente, com sua memória, seus conflitos e sua força. Paisagens caricatas envelhecem rápido.
O centro de São Paulo não precisa de fantasia. Precisa de regra, moradia, transporte, manutenção, fiscalização e espaço público que não se reduza a cenário de consumo. Precisa de governo no sentido exato da palavra: o que regula, exige, cobra e devolve ao comum parte do valor que o comum produz.
Na inauguração, nada disso aparecerá. Estarão presentes o painel e a promessa, a ilusão de que a cidade pode ser recomposta sem conflito, sem tempo e sem política urbana.
A esquina mais cantada do país merecia outra coisa. Merecia ser tratada como lugar, e não como suporte visual. Merecia menos deslumbramento e mais cidade.
A alma urbana não cabe em LED.


Fonte: Jovem Pan

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