O centro de detenção apelidado de “Alligator Alcatraz” virou um dos símbolos mais polêmicos da política migratória dos Estados Unidos – e agora pode ser fechado menos de um ano depois de abrir as portas. O projeto foi impulsionado pelo governador da Ron DeSantis em parceria com o governo do presidente Donald Trump, mas acabou cercado por denúncias de abusos, problemas ambientais, gastos bilionários e disputas judiciais.
A instalação fica em uma área remota dos Everglades, no sul da Florida, cercada por pântanos e habitats de jacarés e crocodilos – daí o apelido “Alligator Alcatraz”, numa referência à famosa prisão de Alcatraz Island. Oficialmente, o centro recebeu nomes técnicos como “South Florida Detention Facility” e “Florida Soft Sided Facility South”.
O local começou a operar em 2025 como o primeiro grande centro estadual voltado a abrigar imigrantes detidos para deportação em cooperação direta com o ICE. O projeto foi vendido por DeSantis como uma resposta agressiva à imigração ilegal e uma demonstração de apoio à agenda migratória de Trump. O então secretário de Segurança Interna, Kristi Noem, também transformou o local em peça de propaganda política.
Agora, segundo informações divulgadas por veículos americanos, o centro deve encerrar as atividades até junho. Autoridades federais e estaduais já discutem a transferência de aproximadamente 1.400 detidos para outras unidades.
O governo da Flórida insiste que a estrutura sempre foi “temporária”. DeSantis afirmou que, se o Departamento de Segurança Interna entender que há espaço suficiente em outras instalações federais, o centro poderá ser desativado.
Mas nos bastidores, a discussão envolve outro fator: o custo gigantesco da operação. Documentos obtidos por jornalistas mostram que o complexo chegou a consumir mais de 1,2 milhão de dólares por dia em dinheiro público – algo próximo de 6,8 milhões de reais diários na cotação atual. Algumas estimativas apontam que o gasto anual poderia ultrapassar 450 milhões de dólares.
A Flórida pediu centenas de milhões de dólares em reembolso ao governo federal, mas parte desse dinheiro nunca chegou. Isso abriu uma crise entre Tallahassee e Washington e aumentou a pressão política sobre o projeto.
Além da questão financeira, o centro passou a ser alvo de denúncias extremamente graves. Imigrantes detidos relataram superlotação, comida estragada, falta de atendimento médico, restrições de acesso a advogados, infestação de insetos, esgoto vazando dentro das áreas de confinamento e até punições físicas.
Congressistas democratas que visitaram o local afirmaram ter encontrado pessoas “amontoadas em gaiolas”, com até 32 detentos por espaço. A deputada federal Debbie Wasserman Schultz classificou a estrutura como “desumana e desnecessária”.
Grupos de direitos humanos, como a Amnesty International, passaram a comparar as condições do centro a práticas de tortura psicológica. Organizações alegam que o ambiente era deliberadamente hostil para pressionar imigrantes a aceitarem deportações voluntárias.
O caso também gerou uma enorme batalha ambiental. O complexo foi construído em uma área ecologicamente sensível dos Everglades, próxima de terras tradicionais da tribo Miccosukee. Ambientalistas afirmam que o projeto avançou sem estudos adequados de impacto ambiental e ameaça um dos ecossistemas mais importantes dos Estados Unidos.
A Justiça chegou a determinar a paralisação do projeto em 2025, mas uma corte de apelações autorizou a continuidade das operações enquanto o caso segue em disputa.
O centro também virou símbolo político da nova ofensiva migratória republicana. Durante uma visita ao local em 2025, Trump e DeSantis apareceram juntos publicamente após anos de rivalidade política. O evento foi tratado como uma demonstração de unidade do Partido Republicano em torno da política de deportações em massa.
Mesmo com o possível fechamento, o impacto político continua. O episódio reforçou críticas sobre o endurecimento das políticas migratórias americanas e abriu uma nova frente de desgaste para DeSantis, especialmente pelo uso de dinheiro público em uma operação cercada por controvérsias.
Ao mesmo tempo, aliados republicanos defendem que o centro ajudou na deportação de milhares de imigrantes e serviu como ferramenta de intimidação contra a imigração ilegal. Segundo o governo da Flórida, cerca de 22 mil pessoas passaram pela estrutura desde a abertura.
Fonte: Jovem Pan