A informação de que o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pressionou o banqueiro Daniel Vorcaro por pagamentos para um filme sobre Jair Bolsonaro, torna sua campanha extremamente difícil. A avaliação é dos colunistas Gerson Camarotti e Fernando Gabeira.
Partidos políticos e candidatos já começaram a se manifestar. Mas, internamente, a base da oposição está perplexa. Conforme revelado por Camarotti, Flávio nunca havia citado os pagamentos do empresário, nem para seus interlocutores próximos.
O entendimento é que, se Flávio tivesse sido franco com os aliados sobre a fragilidade, poderia ter havido um movimento para trazer Tarcísio de Freitas à candidatura. O governador de São Paulo tinha até abril para se desincompatibilizar do cargo com o intuito de se lançar para a disputa presidencial.
As conversas entre Flávio e Vorcaro foram reveladas nesta quarta-feira (13) pelo portal Intercept Brasil, bem como um áudio enviado pelo senador para o banqueiro em setembro do ano passado.
Ouça áudio de Flávio Bolsonaro a Vorcaro em que ele chama o banqueiro de ‘irmão’
Campanha fragilizada
Gabeira descreve o momento como um “fato importantíssimo na campanha eleitoral” de 2026, com grande impacto. Há possibilidade da direita ficar “sangrando”, e da informação se tornar letal para a candidatura do senador.
Em resposta ao vazamento dos áudios e trocas de mensagens, Flávio confirmou o recebimento e negou irregularidades por se tratar de dinheiro “privado” para um projeto “privado”. Porém, Vorcaro tinha vários negócios com o Estado, em diferentes esferas. As mensagens mostram um senador pedindo um favor para um ex-presidente.
Flávio sofreu pressão política em 2016, quando se candidatou para a prefeitura do Rio de Janeiro. A disputa é lembrada por um episódio de quase desmaio por parte do político durante um debate televisionado. Dez anos depois, Camarotti entende que a reação do senador a perguntas sobre as mensagens vazadas levanta dúvidas sobre a sua capacidade de lidar com pressões políticas em escala nacional. Flávio se recusou a responder a pergunta de um jornalista enquanto saía do Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira, chamando-o de “militante” e dando risada.
CPI do Master
Na nota divulgada para a imprensa, Flávio também afirmou não ter “relações espúrias” com Vorcaro, e defendeu a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Master.
Há duas semanas, na mesma sessão conjunta em que o Congresso derrubou os vetos presidenciais o PL da Dosimetria, foi registrado um abraço entre Flávio e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Não houve leitura ou menção da CPI. Flávio tampouco se manifestou sobre o assunto durante a sessão.
Mensagens vazadas
Segundo o Intercept, Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões para a produção do filme “Dark Horse” entre fevereiro e maio de 2025. O dinheiro, de acordo com o site, foi transferido para um fundo nos Estados Unidos de um aliado de outro filho do ex-presidente, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Na mensagem de áudio enviada por Flávio a Vorcaro em 8 de setembro, o senador diz entender que o banqueiro passava por um “momento dificílimo” – pouco dias antes, em 3 de setembro, a compra do Master pelo BRB havia sido rejeitada pelo Banco Central – e que ficava “sem graça” de cobrar, mas pedia uma posição de Vorcaro sobre pagamentos pendentes.
“Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme”, diz o senador.
🔎 Vorcaro está preso em São Paulo, acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras, envolvendo operações irregulares e negócios com o BRB (Banco de Brasília), que podem chegar a R$ 12 bilhões, segundo a PF.
Muitos dos contatos envolviam ligações telefônicas e mensagens com imagens de visualização única. Em 16 de novembro, após o envio de duas dessas mensagens, Flávio diz: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”
Vorcaro responde com uma mensagem de visualização única, ao que Flávio reage: “Amém”.
No dia seguinte, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal (PF), enquanto embarcava em Guarulhos. A prisão foi parte do começo das investigações sobre uma rede que envolve fraudes, corrupção de servidores públicos e até o uso de uma “milícia privada” para intimidar opositores.
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