MONTEZUMA CRUZ (*)

Foto: M.Cruz / Reproduções do JB
A prática do trabalho em condições análogas à escravidão em Colorado do Oeste, Cerejeiras, Chupinguaia e Vilhena estava longe de ser um fato novo, constatei em 1981 ao conversar com o padre salesiano Ângelo Spadari, na Casa Paroquial. Ele me contava da rotineira ida de trabalhadores para as fazendas da região, alimentada diariamente por ‘gatos’ originários de Mato Grosso ou de estados do sul.

‘Gato’ era o apelido da pessoa que intermediava mão de obra rural, maiores ou menores de idade. Vinte anos depois, numa vultosa operação na região de Vilhena a Polícia Federal libertou de uma só vez cerca de mil trabalhadores escravizados, a maioria deles analfabetos e arregimentados por esses ‘gatos’, num vaivém muito comum na extensão de terras entre essa parte rondoniense e a região do Aripuanã mato-grossense.
Interessante é que apesar da modernidade que trouxe máquinas e potentes motoserras para duas derrubadas, os ‘gatos’ não deixaram de existir.
Talvez ingenuamente, uma juíza recém-chegada ao cargo na Vara do Trabalho lá por 2010 ignorasse a situação. A magistrada argumentava assim: “Quando o patrão conduz o empregado a um supermercado e o condiciona ao trabalho para pagar os utensílios e alimentos isso configura um adiantamento”. “Que deve ser descontado no futuro”, defendia.
Baseava-se na lógica dos seringais amazônicos. Na região onde ocorreram os piores casos de “escravidão branca” nos anos 1970 e 80, a juíza agradou e desagradou. No entendimento dela, essa degradação humana “não mais existia no Brasil”. Saísse do seu gabinete e viajasse pelos cartões rondonienses, notaria os horrores. Mas insistia: “Escravidão, só a dos negros, no Brasil Colônia.”

Cerejeiras, maio de 1986. Durante alguns meses as fazendas São José e Cerejeiras não pagavam salários para duzentas pessoas mantidas sob sevícias e tortura. Esse era o contingente que apanhava de cipó e se sujeitava a mutilações com motosserras enquanto desmatava ilegalmente.
Este repórter viajou para lá, a fim de constatar a situação denunciada semanas antes pela Igreja Católica.

Multados pela Justiça, os donos mandaram libertar os peões, mas eles ainda foram vítimas de capatazes raivosos. Saíram das fazendas a pé e alguns baleados nas pernas e nas costas.
Situação semelhante também ocorreu nas Fazendas Gauchinho, Antonio José, Santa Ana e Bordon, de onde foram libertados dezenas de peões. Encontrei-os esfomeados, comendo em marmitas na pracinha de Cerejeiras. Ali estavam rapazes com solas e calcanhares dos pés cortados, para que não
fugissem (!).
O novo estado não vivia o Brasil Colônia, período em que os negros eram identificados pela dentição, mas se vergava à tortura no meio do mato, longe dos olhos de quem deveria impedi-las. A escravidão camuflada ficou conhecida por “trabalho forçado”. Ouvi o promotor de Justiça Osvaldo Luís Araújo e o delegado de polícia, Rivaldo Silva. Este preferia lavrar o inquérito com o termo “semiescravidão”.
Papel triste e ao mesmo tempo risível desempenhava o destacamento da PM em Cerejeiras: o soldado Riva oferecia-se para convencer os peões a procurar outros patrões, ali mesmo nos quartos de pensões ou na rodoviária de Vilhena, às barbas da lei.
Sem disfarçar suas intenções, o gato Eurides Gonçalves colocava-se ao lado dele para informar que precisava de uns 70 homens para desmatar uma área numa desconhecida fazenda na região do Juruena, em Mato Grosso. Vilhena, o portão de entrada ao novo estado, tornava-se o polo concentrador da mão-de-obra contratada irregularmente para a derrubada da floresta.
Nem aquela porteira colocada pelo governador Teixeirão para a triagem de migrantes impediu que centenas deles fossem poupados daqueles horrores.
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(*) Originalmente publicada no jornal eletrônico Cool do Mundo, de Vilhena.

