Uma das crônicas mais interessantes de Nelson Rodrigues foi publicada em seis de julho de 1959, no jornal Última Hora. O cronista vai além do futebol e define Maria Ester Bueno como personagem daquela semana de inverno. No ano anterior, com a conquista inédita da seleção de futebol, na Suécia, o dramaturgo pernambucano já tinha proclamado o fim do complexo de vira-latas, que era o símbolo dos fracassos do povo brasileiro.
As vitórias esportivas foram decisivas, segundo ele, para que o brasileiro confiasse mais em si próprio: “(…) Vejamos, porém, a vertiginosa sequência de títulos – primeiro Adhemar Ferreira da Silva; depois, a Suécia; em seguida, o basquete; no boxe, Éder Jofre está a um passo do título; e, anteontem, Maria Esther Bueno deu um baile em Wimbledon. Aqui, pergunto: – o que significa isso, tudo isso? Como explicar o triunfo espantoso da Maria Esther? (…) Darlene Hard parece mãe dela e a duquesa de Kent, avó. Apesar de todas as impossibilidades, Maria Esther venceu, e por que? (…).”
O próprio Nelson perguntava e respondia: “Eu explico: – isso é Brasil e até as zebras, no Jardim Zoológico sabem que isso é Brasil. E se o brasileiro foi o último a conhecer a própria força, vamos admitir que ele é, a um só tempo, muito genial e muito burro. (…).” Maria Esther Bueno foi campeã em Wimbledon, em 1959, 1960 e 1964, no torneio de simples, e “ganhou o direito” de estar na crônica do jornalista.
Por último, Nelson Rodrigues faz uma reflexão sobre a relação do brasileiro com os resultados negativos no esporte: “(…) A derrota! Através de quase quinhentos anos, o brasileiro acordou derrotado e dormiu derrotado. Mesmo na vida pessoal, era um borra-botas que se torcia de frustrações como de cólicas. Vergava os ombros para a namorada, a esposa, a amante, numa lívida pusilanimidade. E, súbito, algo mudou. Justiça se lhe faça: — foi o esporte o profeta do novo Brasil e do novo brasileiro.(…).”
As crônicas de Nelson Rodrigues parecem atuais, apesar do país do futebol ter regredido!
Fonte: Jovem Pan