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Após 47 anos da greve que o lançou, Lula fala ao sindicalista que foi, mas também ao político que é

Quarenta e sete anos separam os dois Lulas.

O primeiro tinha 33 anos e estava em cima de uma mesa emprestada de um bar, diante de milhares de metalúrgicos em greve. Era 1979, em um dos picos altos da luta pela redemocratização brasileira. Não havia palco nem sistema de som. Lula dizia uma frase, os trabalhadores mais próximos repetiam, e as palavras atravessavam a Vila Euclides de boca em boca, tornando-se difícil saber se o que chegou ao último trabalhador era o mesmo que o primeiro havia escutado.

O segundo voltou ao mesmo gramado neste domingo (16), aos 80 anos, com três eleições presidenciais vencidas e uma quarta em disputa. Diante de cerca de 40 mil pessoas, segundo contagem da própria campanha petista, no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, Lula abriu oficialmente sua campanha à reeleição para 2026, olhando para o lugar onde sua história política começou.

“A emoção de hoje é uma emoção ímpar. É uma emoção que estou sentindo muito mais forte do que a que senti em 1979, aqui mesmo neste estádio”, disse. No palco havia telões, antigos companheiros das greves do ABC e aliados políticos. Os símbolos nacionais, como o hino e as bandeiras do país, eram abafados por ondas esparsas de cantos que exaltavam Lula e de espaços em vermelho que, mesmo com um início mais apagado, se preencheram, deixando o verde do gramado do estádio impossível de ser visto.

O 1º de Maio

Desde horas antes do início do ato, uma multidão se espremia nas filas para entrar no estádio, sob o sol de São Bernardo do Campo. Entre bandeiras do Brasil, do PT e de movimentos sociais, faixas e camisetas vermelhas, os apoiadores aguardavam a chegada de Lula enquanto integrantes do governo e aliados se revezavam ao microfone. Os primeiros discursos, da primeira-dama Janja da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, nortearam a multidão em um tom de exaltação a Lula, colocando-o como referência para o futuro do país.

As falas, apesar de extensas e adjetivadas, surtiam pouco efeito mobilizatório no público, que ainda deixava espaços vazios no gramado, que foram progressivamente se enchendo ao aparecer uma contagem regressiva no telão do evento, que marcava treze minutos para a chegada de Lula.

Uma carta de Lula para…Lula

“Companheiro, eu sei que seu coração está apertado, sentindo o peso de milhares de trabalhadores em greve esperando sua direção. Eu lembro como se fosse ontem. Vou te dizer uma coisa: vai dar tudo certo.”

O início do evento contou com uma produção de diálogo entre o atual presidente e sua versão de 1979. Naquele ano, cerca de 60 mil metalúrgicos ocuparam a Vila Euclides em uma das grandes assembleias das greves do ABC. A paralisação mobilizaria aproximadamente 200 mil trabalhadores e ajudaria a transformar aquele sindicalista ainda pouco conhecido fora de São Paulo em uma das principais figuras da oposição à ditadura.

“Vocês sairão vencedores dessa luta. Não vai ser fácil. Vai ter perseguição. Vão atentar contra a nossa soberania. Vai ter gente rica torcendo para você não aguentar, mas você nunca vai abrir mão da sua dignidade.” E completou: “Aguenta, companheiro, que o povo vai vencer.”

O enredo é semelhante a um que foi utilizado pelo principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), em um vídeo produzido com inteligência artificial. O material publicado pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, no entanto, segue diretamente o enredo de um terceiro vídeo, que tem o atacante Neymar como protagonista e viralizou nas redes sociais. Já a produção petista é mais analógica, com imagens em preto e branco e sem uso da IA, escancarando a grande diferença de comunicação das duas campanhas.

As lições da Vila Euclides

Durante o discurso ao eleitorado petista, que aguentou mais de 3 horas debaixo do sol de quase 30ºC, Lula relembrou momentos de sua trajetória política, em uma forma de abertura simbólica que, pelo menos aos presentes, reforçou que sua trajetória é indissociável dos rumos da política brasileira por, pelo menos, 40 anos. “Nós viemos para ganhar; não há figura política que se iguale ao Lula. Podem passar anos, mas nascer outro? Não veremos mais“, disse um dos integrantes da extensa multidão que se agrupou no estádio, carregando uma bandeira com a fotografia de um Lula jovem, preso pelas forças policiais da ditadura.

As recordações de Lula também chegaram a Dona Lindu, mãe do ex-presidente, falecida nos anos 80. Lula lembrou que estava preso durante a greve de 1980 quando sua mãe morreu e recebeu autorização para acompanhar o enterro. Comparou o episódio com 2019, quando estava novamente preso, mas não pode ir ao sepultamento do irmão Vavá por decisão da Justiça. “Os homens não são medidos pelas épocas. Os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que tiveram de berço.”

Pontapé na campanha

“A democracia vai voltar. Você vai ajudar a escrever a Constituição. Vai ganhar uma, duas, três eleições para presidente e vamos ganhar mais uma. Não duvide.” Foi assim que Lula deixou aos poucos o diálogo com o passado e passou a falar sobre um possível quarto mandato. A nostalgia das greves e dos primeiros passos na política cedeu espaço ao programa que pretende levar novamente às urnas: emprego, educação, segurança pública e soberania foram os principais temas abordados.

Na segurança, um dos assuntos que devem ocupar o centro da campanha, Lula prometeu enfrentar não apenas os criminosos que atuam nas periferias, mas principalmente os líderes e financiadores das facções. “É fácil matar o bandido numa favela. Agora, o cara que manda tá no apartamento de cobertura. O cara que manda está morando no condomínio e nós precisamos acabar com eles para poder acabar com o de baixo. Nós vamos trabalhar duro”, afirmou. O presidente voltou a defender a criação do Ministério da Segurança Pública, condicionada à aprovação da PEC da Segurança, que amplia a participação da União no setor. “Nós vamos libertar o povo das vilas mais pobres”, prometeu.

A educação apareceu no discurso como parte da própria política de segurança. Lula defendeu a ampliação do ensino superior, da educação profissional e das escolas de tempo integral e comparou os gastos com estudantes e presos para sustentar que prevenir a entrada de jovens no crime custa menos do que encarcerá-los depois. “Investir em educação é muito mais barato do que investir na cadeia. Temos que dar oportunidade quando as pessoas são crianças e jovens para criar um país mais civilizado”, disse.

Outro eixo foi a defesa da soberania nacional, pauta que tem sido uma das principais da campanha petista desde o primeiro anúncio de tarifas pelo governo dos Estados Unidos, comandado pelo republicano Donald Trump, aliado da família Bolsonaro.

Lula falou sobre minerais críticos e terras raras. O presidente defendeu que o Brasil deixe de ocupar apenas o papel de fornecedor de matéria-prima e passe a dominar as etapas de transformação e industrialização desses recursos. “A gente não quer exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas feitas com ele. Queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui e gerar riqueza”, afirmou. Na sequência, resumiu a posição que pretende defender diante das grandes potências: “Nós não temos opção pela China nem pelos Estados Unidos. Ninguém vai explorar os nossos minerais. Nós é que vamos explorá-los em benefício do povo brasileiro.”

Ao justificar por que pretende permanecer mais quatro anos no Planalto, Lula também transformou a disputa em um confronto direto com a direita. Disse que, “enquanto estiver vivo”, continuará lutando para impedir seu retorno ao governo e voltou a responsabilizar os adversários pela condução da pandemia de Covid-19. No campo econômico, comparou a geração de empregos de seu governo com a da gestão anterior e recuperou programas e obras de seus mandatos, como o Luz para Todos e a transposição do Rio São Francisco, para argumentar que um novo mandato deveria aprofundar políticas iniciadas desde sua primeira passagem pela Presidência

Começos e recomeços

“Aqui em 2026, a gente reconstruiu o Brasil, mas ainda não está satisfeito, porque o Brasil está pronto para muito mais.” Lula terminou a conversa com o rapaz que havia deixado naquele gramado 47 anos antes: “Um abraço do Lula de hoje, de onde tudo começou, na mesma Vila Euclides, 47 anos depois.”

Já não havia a mesa emprestada de um bar, nem era preciso que um metalúrgico repetisse ao outro as palavras ditas no meio do gramado. Aos 80 anos, com a voz mais rouca e novamente candidato à Presidência, Lula se despediu da Vila Euclides, sob fogos com as cores do Brasil e confetes, tentando ligar as duas pontas de sua própria história: a do sindicalista que ainda não sabia onde aquela greve o levaria e a do presidente que voltou ao lugar onde tudo começou para pedir ao país mais quatro anos de “confiança”.

“Que ninguém nunca mais ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores“, completou e caminhou para a saída do palco.


Fonte: Jovem Pan

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