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Artigo: A política passa, mas a intolerância fica

5 minutos de leitura

Quando a escolha de um candidato se transforma em motivo para destruir amizades, dividir famílias e boicotar o trabalho de quem pensa diferente.

Artigo: A política passa, mas a intolerância fica
Imagem: Inteligência artificial

As eleições chegam, os candidatos apresentam suas propostas, os partidos organizam suas campanhas e os eleitores escolhem seus representantes. Durante meses, o país se transforma em um grande palco de discussões políticas. De um lado, a esquerda; do outro, a direita. Cada grupo defende suas ideias, apresenta seus argumentos e acredita que sua escolha é a melhor para o futuro da nação.

Então chega o dia da votação. As urnas são apuradas, os resultados aparecem e a democracia anuncia seus vencedores e derrotados.

Até aí, tudo faz parte do processo democrático.

O problema começa depois da eleição.

É impressionante como algumas pessoas não conseguem aceitar que alguém pense diferente. O cidadão que ontem era amigo, companheiro de trabalho ou vizinho de confiança passa a ser tratado como adversário simplesmente porque votou em outro candidato.

E a intolerância não para nas conversas. Ela chega ao comércio, às relações profissionais e até às mesas das famílias.

Conheço histórias de pessoas que deixam de comprar em determinado estabelecimento porque descobriram que o proprietário é de direita. Outras fazem exatamente o contrário: abandonam um comércio porque seu dono declarou apoio a um candidato de esquerda.

Há quem deixe de contratar um profissional, prestigiar um artista ou frequentar um estabelecimento por causa de sua preferência política.

Imagine um pequeno comerciante que trabalha de sol a sol, paga seus impostos, sustenta sua família e luta diariamente para manter as portas abertas. De repente, começa a perder clientes não porque vende produtos ruins, não porque atende mal, nem porque cobra caro, mas simplesmente porque alguém descobriu em quem ele votou.

Do outro lado da cidade, outro comerciante enfrenta a mesma situação, apenas porque sua escolha política foi diferente.

E assim, enquanto os políticos seguem suas vidas, os cidadãos comuns começam a prejudicar uns aos outros.

O mais curioso é que muitos desses eleitores jamais terão a oportunidade de tomar um café com seus candidatos preferidos, muito menos participar das decisões importantes do governo. Entretanto, são capazes de perder amizades de décadas e prejudicar o sustento de famílias por causa de uma disputa eleitoral.

Vale perguntar: será que o candidato sabe que você deixou de comprar na loja do seu antigo amigo por causa dele? Será que o político está preocupado porque você rompeu uma amizade de infância por causa de uma divergência ideológica?

Provavelmente, não.

Enquanto alguns discutem nas redes sociais, bloqueiam conhecidos e fazem campanhas de boicote, os políticos continuam suas agendas, participam de reuniões, viajam e seguem suas atividades.

E nós? Ficamos com as amizades desfeitas, os relacionamentos abalados e, muitas vezes, com a conta de uma intolerância que não trouxe benefício algum.

 

A democracia não exige inimizade

É preciso compreender que votar na esquerda não transforma ninguém automaticamente em inimigo da direita. Da mesma maneira, escolher um candidato de direita não torna uma pessoa inimiga de quem pensa de maneira diferente.

Cada cidadão tem o direito de escolher seus representantes, defender suas convicções e discordar de propostas políticas. Esse direito deve ser respeitado, inclusive quando a escolha do outro contraria nossas expectativas.

Não precisamos concordar com tudo. Podemos discutir, questionar, criticar governos, apontar erros e defender mudanças. O que não precisamos é transformar divergências políticas em perseguição pessoal.

Afinal, quem votou na esquerda continua precisando do comerciante de direita, e quem votou na direita também precisa do profissional de esquerda. A vida em sociedade não funciona com uma placa na porta dizendo: aqui só entram pessoas que votaram no meu candidato.

Se cada estabelecimento comercial atendesse apenas pessoas com a mesma preferência política do proprietário, quantas portas permaneceriam abertas?

Se cada família expulsasse de suas reuniões os parentes que votaram diferente, quantas mesas ainda estariam completas?

Se cada amizade terminasse por causa de uma eleição, quantos amigos restariam depois de algumas disputas eleitorais?

A política deveria ser motivo de participação, debate e conscientização, não de divisão permanente.

 

O voto é individual, o respeito é coletivo

Uma eleição dura algumas horas no dia da votação, mas suas consequências políticas podem durar anos. Nesse período, esquerda e direita continuarão disputando espaços, defendendo projetos e tentando conquistar a confiança da população.

Mas a convivência entre as pessoas não deveria depender do resultado das urnas.

O comerciante precisa vender, o trabalhador precisa trabalhar, o professor precisa ensinar, o médico precisa atender e a família precisa continuar reunida. Nenhuma dessas atividades deveria ser condicionada à preferência partidária de quem está do outro lado.

É possível ser de direita e ter amigos de esquerda. É possível ser de esquerda e respeitar comerciantes de direita. É possível discordar profundamente de alguém e, ainda assim, reconhecer sua dignidade e seu direito de pensar diferente.

No final das contas, não é o voto que determina o caráter de uma pessoa, mas suas atitudes.

Que a esquerda tenha seus argumentos, que a direita tenha os seus e que o cidadão tenha liberdade para escolher. Mas que ninguém use a democracia como desculpa para praticar intolerância.

Porque o Brasil não pertence exclusivamente à esquerda nem à direita. Pertence a todos os brasileiros.

Uma eleição pode decidir quem governará o país, mas não deveria decidir quem merece nossa amizade, nosso respeito ou nosso reconhecimento.

Afinal, os candidatos passam, os mandatos terminam, os partidos mudam de posição, mas os amigos, os vizinhos e os comerciantes continuam fazendo parte da nossa vida.

Não transforme seu voto em uma arma contra seu semelhante. Vote em quem acredita, defenda suas ideias, mas respeite quem escolheu diferente.

Porque a maior derrota de uma sociedade não acontece quando um candidato perde uma eleição. Acontece quando seus cidadãos perdem a capacidade de conviver em paz por causa de suas diferenças.

A política deve dividir opiniões, não separar pessoas.

Moiseis Oliveira da Paixão

Fonte: Tribuna Popular