Tudo ia muito bem pelos lados de Flávio Bolsonaro. As pesquisas mostravam seu constante crescimento, chegando em algumas delas a superar Lula, seu concorrente direto como candidato à Presidência. Era um voo tranquilo em céu azul de brigadeiro. De repente, surgiram solavancos e as primeiras turbulências.
Se já não bastassem os problemas criados pelo próprio Flávio Bolsonaro para prejudicar sua campanha, como, por exemplo, as gravações de suas conversas com Daniel Vorcaro, e o fogo amigo dos seus concorrentes conservadores, entraram em cena Michelle Bolsonaro e Paulo Figueiredo.
Conversa vazada
A impressão que dá é que essa turma toda, cada um à sua maneira, resolveu contribuir para o mesmo resultado: bora ferrar o Flávio.
As primeiras trovoadas apareceram no dia 13 de maio. Uma conversa entre Flávio e Daniel Vorcaro foi divulgada. Nessa gravação, obtida pelo The Intercept Brasil, Flávio demonstra que possuía certa intimidade com o ex-banqueiro. O pré-candidato do PL cobrava pagamentos em atraso que serviriam para financiar o filme sobre o seu pai.
Vídeo de Michelle
Em seguida, Michelle Bolsonaro, por motivos até hoje não bem esclarecidos, publicou um vídeo com mais de 25 minutos de duração. Acusou Flávio de ter sido machista. Acrescentou: “fui humilhada, fui desrespeitada, fui maltratada por telefone sem motivo nenhum por aquele que se diz o líder”. Foi uma bomba de consequências imprevisíveis, que deixou Flávio e seus seguidores estarrecidos.
É evidente que esse tipo de pronunciamento traria prejuízos à campanha de Flávio, mas o impacto até que não chegou a ser desesperador. Segundo pesquisa da AtlasIntel, divulgada no dia 2, 65,6% dos eleitores de Bolsonaro discordam da iniciativa de Michelle publicar o vídeo, enquanto 26,5% concordam. Ainda que a maioria tenha sido contrária, os favoráveis são suficientes para provocar grande estrago na campanha.
Comentário infeliz
Se não bastassem as nuvens cumulonimbus ameaçando a viagem de Flávio, o aliado de seu irmão nos Estados Unidos, o jornalista Paulo Figueiredo, complicou ainda mais o cenário. Esta semana, comentou sobre o vídeo gravado por Michelle e aproveitou para analisar o comportamento das eleitoras. Disse que mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras; as casadas costumam acompanhar o marido.
Pensa que acabou? Que nada. Trump ameaça implementar um aumento de 25% sobre as tarifas cobradas dos produtos importados do Brasil. Lula tenta capitalizar politicamente e jogar a culpa dessa iniciativa americana nas costas de Flávio Bolsonaro e de seu irmão Eduardo. Mais um desgaste a ser enfrentado.
Motivo da conversa
Flávio tenta se virar como pode. São muitas frentes para combater. Em todos os casos, precisa dar explicações e afirmar que não tem culpa. Os eleitores não têm muita paciência para avaliar seus argumentos e ponderações. É mais fácil guardar que se trata de um traidor da pátria. Mesmo assim, sabendo que precisa seguir em frente, insiste em sua defesa.
Sobre a conversa com Vorcaro, diz que o ex-banqueiro era um investidor e que não havia nenhuma contrapartida, a não ser o retorno do próprio investimento no filme. Argumentou ainda que a conversa foi para cobrar parcelas vencidas e não pagas. Garantiu que todos os contatos foram para tratar do filme.
Meu irmão é conversa de carioca
As nuvens ficaram espessas e não se dissiparam totalmente, por mais que explicasse que chamar Vorcaro de “irmão” não era sinal de intimidade, porque esse era o tratamento gentil que tinha com as pessoas. Que é muito natural acontecer no Rio de Janeiro. Os governistas e boa parte da imprensa não deram trégua, deixando a ideia de que havia algo errado naqueles diálogos.
Após o vídeo de Michelle, provavelmente temendo a perda de eleitoras e de evangélicos, pediu desculpas e disse que considerava a página virada. É o que podia fazer, mesmo a ex-primeira-dama mantendo sua posição de indignada e não movendo um dedo para ajudar na campanha. Na verdade, muito ao contrário.
Tempestade perfeita
Para conter o estrago provocado por Paulo Figueiredo, achou melhor não alongar o assunto e esclarecer simplesmente que o jornalista não participa de sua campanha.
Com a intenção de afastar ilações de que teria algum tipo de responsabilidade com as tarifas americanas, enviou manifestação formal ao escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos pedindo que não fossem cobradas. Alertou que elas puniriam a economy americana e os próprios brasileiros.
Enfim, uma tempestade perfeita. Para atravessar esses relâmpagos e trovadas e voltar ao céu azul e tranquilo, Flávio vai ter de se dedicar bastante.
E torcer para que outras bordoadas como essas não apareçam. Siga pelo Instagram: @polito
Fonte: Jovem Pan