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Coluna ESPAÇO ABERTO – Quando a fuga do ídolo vira virtude

9 minutos de leitura

Confira as notícias do dia, por Cícero Moura.

FUGA E APLAUSO
A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil para os Estados Unidos abre uma discussão que ultrapassa a política e alcança o comportamento. O problema não está apenas na atitude do senador, mas na facilidade com que alguns apoiadores transformam o afastamento da Justiça em motivo de aprovação. Quando a simpatia por alguém determina o que consideramos aceitável, nossos princípios começam a perder consistência.

Foto: Reprodução / Redes Sociais

FATO CONCRETO
Flávio deixou o país apesar de uma decisão de Alexandre de Moraes que proibia sua saída e determinava a entrega dos passaportes. A PF informou que apura as circunstâncias do descumprimento. O senador nega irregularidades nas investigações em que é citado. Esses elementos precisam acompanhar qualquer análise responsável do episódio.

Foto: Reprodução / Inteligência Artificial 

PRECISÃO NECESSÁRIA
Uma distinção é indispensável: a própria PF esclareceu que restrições a documentos de viagem, isoladamente, não caracterizam alguém como foragido nem autorizam sua prisão. Portanto, chamar o episódio de fuga, como fazem as reportagens, não permite presumir uma condenação ou afirmar que havia mandado de prisão. A crítica fica mais forte quando respeita os fatos.

ARGUMENTO PRÓPRIO
Entre os comentários de apoio relatados nas redes, aparece uma justificativa reveladora: ele precisava sair porque seria preso ou perseguido. O raciocínio oferece uma absolvição antecipada da conduta, apoiada na certeza de um acontecimento futuro. Já não seria necessário demonstrar a injustiça: bastaria anunciá-la para tornar legítima qualquer reação.

MEDO NÃO COMPROVA
Temer uma prisão não demonstra, por si só, que ela seria arbitrária. Da mesma forma, ser investigado não demonstra culpa. Uma sociedade equilibrada precisa sustentar essas duas ideias simultaneamente. Quando aceita apenas a metade conveniente, transforma o debate público em uma disputa na qual cada grupo escolhe previamente quem merece garantias e quem merece punição.

PERGUNTA INCÔMODA
O que diria esse mesmo apoiador diante de alguém que furtasse uma mercadoria e corresse para evitar a prisão? Aplaudiria a fuga por entender que ninguém deseja ser preso? Ou exigiria uma resposta imediata da polícia? A pergunta expõe o critério utilizado para julgar comportamentos quando muda a identidade de quem os pratica.

LIMITE DA COMPARAÇÃO
Comparar essas reações não significa afirmar que Flávio cometeu um furto, equiparar investigações distintas ou tratá-lo como condenado. A comparação é moral: por que o desejo de escapar de uma possível responsabilização desperta indignação em um caso e compreensão automática em outro? O objeto da análise é a régua do observador.

MESMO DESEJO
Tanto uma pessoa culpada quanto uma inocente podem sentir medo de ser presas. O sentimento, sozinho, não resolve a discussão sobre a legitimidade de suas atitudes. Se o simples desejo de preservar a liberdade justificasse qualquer forma de evasão, o argumento serviria indistintamente para todos. Inclusive para aqueles que os defensores da fuga gostariam de ver atrás das grades.

LICENÇA SELETIVA
É difícil sustentar um princípio que só funciona para o próprio grupo. Se fugir de uma possível prisão é considerado aceitável porque a pessoa acredita estar sendo injustiçada, essa justificativa precisa ser examinada também quando apresentada pelo adversário. Quem recusa essa possibilidade está defendendo uma licença pessoal, concedida conforme a preferência política.

A PALAVRA PERSEGUIÇÃO
Perseguições políticas existem e precisam ser denunciadas com seriedade. Justamente por isso, a expressão não pode funcionar como uma senha que encerra qualquer discussão. É necessário identificar atos, apresentar elementos e demonstrar abusos. Quando toda investigação contra um aliado recebe automaticamente esse nome, a palavra perde precisão e passa a servir à blindagem.

Foto: Reprodução / Redes Sociais 

CRÍTICA É LEGÍTIMA
Alexandre de Moraes pode ser criticado, assim como suas decisões podem ser questionadas. Autoridades não estão acima do escrutínio público. O problema surge quando a discordância com um ministro vira justificativa suficiente para considerar dispensável qualquer determinação que alcance o político preferido. Nesse ponto, o debate abandona o conteúdo da decisão e se entrega à lealdade pessoal.

DEFESA SEM IDOLATRIA
A defesa de Flávio recorreu ao STF contra a retenção dos passaportes e apresentou argumentos para contestar a medida. Esses argumentos devem ser examinados pelo que demonstram. A existência de uma controvérsia judicial, porém, não transforma automaticamente a versão da defesa em verdade definitiva, assim como a investigação não transforma suspeitas em culpa.

Foto: Reprodução / Redes Sociais 

ACUSAÇÃO E JULGAMENTO
Acusar é uma coisa; provar e julgar são outras. Essa distinção protege qualquer cidadão, inclusive quem ocupa um mandato. Mas ela também impõe responsabilidade ao público: não se pode exigir prudência diante das acusações contra o aliado e, ao mesmo tempo, condenar antecipadamente todos os agentes responsáveis pela investigação. Garantias precisam valer em todas as direções.

A CERTEZA DO CONVENIENTE
Alguns apoiadores parecem conhecer antecipadamente o resultado de tudo: a investigação seria fraudulenta, a prisão seria inevitável e qualquer decisão seria perseguição. Quando a conclusão vem antes do exame dos fatos, nenhuma informação consegue alterar o julgamento. A pessoa deixa de acompanhar um caso e passa apenas a procurar confirmações para uma crença.

TROCA DE PERSONAGEM
Um teste simples ajuda a revelar essa contradição: substitua o nome de Flávio pelo de um político de quem você não gosta. Mantenha a ordem judicial, a saída do país e a justificativa de medo de prisão. Sua avaliação permaneceria igual? Se a resposta mudar completamente, talvez a convicção esteja apoiada na identidade do personagem, e não na conduta.

RIGOR DE VITRINE
Há quem defenda punições duríssimas para desconhecidos, rejeite explicações e trate qualquer garantia como complacência. Diante de um aliado, entretanto, descobre subitamente a complexidade dos processos, os riscos de abuso e a importância da liberdade. Essas preocupações são necessárias. O que compromete sua credibilidade é acioná-las apenas quando atingem alguém próximo.

JUSTIÇA POR AFINIDADE
Uma sociedade adoece quando passa a distribuir compreensão conforme a afinidade. Para o desconhecido, suspeita permanente; para o ídolo, confiança incondicional. O resultado é uma cidadania dividida em categorias emocionais. Algumas pessoas precisam provar tudo. Outras recebem de seus seguidores um certificado de inocência que nenhuma evidência parece capaz de colocar em discussão.

DISTÂNCIA SOCIAL
Também merece reflexão a diferença entre quem dispõe de recursos para atravessar fronteiras e reorganizar a vida no exterior e quem enfrenta uma investigação sem dinheiro sequer para uma defesa adequada. Celebrar a saída de uma figura poderosa sem pensar nessa desigualdade pode revelar uma tolerância com privilégios que jamais seriam oferecidos ao cidadão comum.

LIBERDADE PARA TODOS
Se a preocupação central é proteger pessoas contra prisões injustas, ela precisa alcançar o trabalhador confundido com um suspeito, o jovem acusado sem provas e a família que não consegue contratar advogado. A defesa da liberdade ganha valor quando ultrapassa a fotografia do político preferido. Fora disso, corre o risco de ser apenas um gesto de pertencimento partidário.

TORCIDA DECIDE
A identificação política pode produzir uma relação parecida com a torcida: o comportamento do próprio lado sempre encontra uma explicação favorável. O adversário faz algo semelhante e recebe a interpretação mais severa possível. O problema é que a vida pública exige consequências, provas e responsabilidades que não podem ser resolvidas pelo entusiasmo de uma arquibancada.

Foto: Reprodução / Redes Sociais 

RECOMPENSA DIGITAL
Nas redes, a frase categórica costuma atrair mais atenção do que a ponderação. “Fez certo em fugir” mobiliza imediatamente os aliados e provoca os adversários. O alcance dessa mensagem pode dar aparência de consenso a uma reação que não foi medida. Comentários numerosos não autorizam concluir que toda a sociedade, ou a maioria dela, pensa da mesma forma.

CONSTATAÇÃO
Quem integra uma comunidade política muito fechada pode sentir dificuldade para criticar seus líderes. Uma ressalva passa a ser interpretada como traição; uma pergunta, como adesão ao inimigo. Nesse ambiente, apoiar deixa de ser uma escolha refletida e se torna uma demonstração pública de fidelidade. A consciência individual acaba pressionada pela necessidade de continuar pertencendo.

DESCULPA AUTOMÁTICA
Quando todas as atitudes de um líder precisam ser defendidas, o apoiador perde a liberdade de avaliar. Uma declaração contraditória vira estratégia; um recuo vira inteligência; uma saída do país vira coragem. Não sobra espaço para reconhecer um erro. E quem nunca admite a possibilidade de erro do próprio representante entrega a ele um poder sem fiscalização.

COBRANÇA DO MANDATO
Um representante eleito assumiu compromissos que ultrapassam sua conveniência pessoal. Por isso, sua decisão de deixar o país merece explicações claras aos eleitores. Perguntar por que saiu, como pretende cumprir suas responsabilidades e como responderá às determinações judiciais faz parte da cobrança pública. Apoio político não elimina o dever de prestar contas.

FUGIR NÃO PROVA CULPA
Seria igualmente irresponsável concluir que a saída demonstra a veracidade de todas as suspeitas. Uma atitude pode ser criticada sem que se transforme em prova universal contra quem a praticou. O compromisso com a coerência exige resistir também ao excesso do campo contrário. A análise de comportamento não deve servir de atalho para uma condenação criminal.

APLAUSO NÃO INOCENTA
Na outra direção, popularidade e solidariedade digital não afastam a necessidade de apuração. Nenhum volume de comentários substitui documentos, contraditório e exame dos fatos. A rede pode apoiar, protestar e pressionar, mas não deveria ser tratada como um tribunal capaz de absolver aliados e condenar adversários conforme a quantidade de curtidas.

O EXEMPLO ESPALHA
Ao celebrar a evasão como resposta natural ao temor de uma prisão, o apoiador ajuda a difundir um argumento que poderá ser utilizado por qualquer pessoa. Depois será difícil explicar por que a mesma justificativa merece repúdio quando aparece em outro contexto. As permissões que concedemos aos nossos líderes também ensinam como esperamos que os demais se comportem.

VALORES SOB MEDIDA
A inversão de valores aparece quando o princípio anunciado deixa de orientar a avaliação. Quem dizia defender responsabilidade passa a elogiar a ausência de explicações; quem exigia respeito às instituições relativiza esse respeito conforme o investigado. A mudança pode até receber uma justificativa sofisticada. Sua essência permanece simples: a regra foi ajustada para proteger alguém.

COERÊNCIA TEM CUSTO
Manter princípios exige, às vezes, contrariar pessoas de quem gostamos. É possível votar em alguém, defender suas garantias e reprovar uma atitude sua. Essa independência é sinal de maturidade. O cidadão que consegue cobrar o próprio candidato contribui mais para a democracia do que aquele que se dispõe a justificar tudo em nome de uma disputa permanente.

RÉGUA DA CONSCIÊNCIA
A pergunta permanece: se o medo de ser preso basta para tornar uma fuga admirável, por que esse argumento não valeria para o cidadão comum que tenta escapar da polícia? As situações podem ter diferenças jurídicas profundas; a exigência de coerência moral continua. Quando a identidade de quem foge decide se a fuga merece aplauso ou indignação, o princípio já foi substituído pela preferência.

FRASE
Quando o caráter depende de quem está sendo julgado, já não se defendem princípios: protegem-se conveniências.

Fonte: Tribuna Popular