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Com Rádio Love Nacional, Detonautas projeta renovação do público e celebra conquista do tempo

Fazer um álbum de rock pode ser trabalhoso. Fazer nove álbuns, mais ainda – principalmente quando a carreira atravessa diferentes gerações. Mas a experiência parece ser uma aliada do Detonautas, banda histórica do rock brasileiro, que lançou o nono disco de estúdio, Rádio Love Nacional, em março, enquanto segue mais atual do que nunca.
Em entrevista exclusiva à Jovem Pan, o vocalista Tico Santa Cruz explica parte do processo. “Nós conseguimos desenvolver uma maneira de entender a música dos outros e traduzir para a nossa forma de entender música de uma forma orgânica”, diz.
Com 11 faixas, incluindo o single Potinho de Veneno, Rádio Love Nacional traz uma mistura de ritmos que vai além do pop-rock tradicional. No disco, é fácil de notar referências de gêneros como o trap, a eletrônica e até mesmo o brega, frutos da produção assinada por Pablo Bispo e Ruxell.
As parcerias, segundo Tico, ampliaram a sonoridade do grupo. Ao longo de 40 minutos, Rádio Love Nacional traz letras profundas e, tal qual um aparelho de rádio que sintoniza em diferentes estações, transita entre faixas densas e leves. O disco também está caracterizado por letras maduras de Tico Santa Cruz, repletas de referências culturais e geográficas.
Há espaço até mesmo para uma participação do carnavalesco Milton Cunha, na narração de abertura da faixa Vampira, a terceira do álbum, numa grande brincadeira com o imaginário nacional. Provocativa, a canção traz signos religiosos e sensuais com notas que remetem à essência do quinteto.
Originados em 1997, o Detonautas, que há muito tempo abandonou o Roque Clube do nome, possui uma formação diferente da tradicional. Ao lado de Tico, estão os músicos Renato Rocha (guitarra e teclados), Fábio Brasil (bateria), Phil Machado (guitarra) e André Macca (baixo) – os dois últimos são adições à banda que teve as baixas de Rodrigo Netto, morto em 2006; Tchello, que saiu em 2013, e o DJ Cleston, em 2020.
Com tantas mudanças ao longo dos anos, o Detonautas pôde se oxigenar. Seja com a chegada de novos membros ou produtores, seja aceitando referências externas, o grupo sempre buscou manter a relevância dentro do cenário musical. Um trabalho que, por vezes, pode ser um verdadeiro desafio no rock.
“De todos os gêneros, o rock é o que mais tem dificuldade em misturar ritmos. Nós abrasileiramos o rock, mas ele tem uma coisa cultural de não se misturar. É algo de tribo, “é só rock”, “é só camisa preta”… Acho que fomos mais ousados em mesclar com gêneros vistos como “bregas”, seja o tecnobrega do Pará ou o brega clássico brasileiro”, comenta Tico.
Mas também diante de mudanças na banda, há uma outra alteração que se faz necessária: a da renovação do público. Para um grupo que foi formado através de um bate-papo na internet, na época em que internet ainda era mato, nada disso se resume a virais no Tiktok ou em outras redes sociais, e sim em um trabalho bem estruturado nos estúdios e nos shows.
Uma das grandes oportunidades para confirmar o novo momento já está agendada: o Detonautas é uma das atrações do Rock in Rio deste ano, na mesma data em que os americanos do Foo Fighters se apresentam no festival. Para esse show, o grupo deve se apoiar majoritariamente nos hits consagrados – como Quando O Sol Se For e Olhos Certos – mas aproveitando o espaço para incluir uma ou duas canções do trabalho mais recente.
É uma tarefa desafiadora em um período onde o showbusiness passa por uma onda de nostalgia – basta observar as várias turnês de reencontros de bandas que estavam inativas ou de comemoração de datas especiais. No caso do Detonautas, um desafio bom. “Quando você cresce, tem duas alternativas: a de retroalimentar esse lugar de nostalgia e a de tentar ir colocando uma coisinha nova aqui, outra ali. Nossa missão é pegar uma ou duas músicas do álbum novo e transformar em uma linguagem popular para todo mundo”, explica o vocalista.
“Temos o objetivo de dialogar com uma geração que não está atrelada só à nostalgia. É natural que os jovens queiram viver o que não viveram nos anos 2000, mas nós queremos nos relacionar com eles além desse lugar, no lugar do que estamos fazendo de novo.”
Todas as reflexões de Santa Cruz levam a um lugar comum: o estado atual do rock. Alvo constante de questionamentos sobre a saúde do gênero – vivo, morto ou respirando por aparelhos – o fato é que, por mais que não esteja no topo das principais paradas, o estilo ainda possui sua relevância sonora e estética. Isso, porém, está longe de ser uma garantia para a eternidade.
Para Tico, a um nível pessoal, o rock não traz mais a mesma visão de antigamente. “Há 30 anos, eu tinha uma visão romântica. Achava que era “sexo, drogas e rock’n’roll”. Eu vivi essa fantasia, mas hoje ela não cabe mais por conta da mudança geracional. Hoje, olho para o rock como uma música que permite me expressar e compreendo que, além de tudo, é meu ganha pão. Mas é um ambiente onde eu, como artista, preciso somar alguma coisa com a minha banda para que a gente possa atingir públicos mais jovens. A essência do rock está na adolescência”, conclui.
Já com olhar mais voltado ao mercado, o cantor avalia as mudanças de tendências – como a de ícones do trap cada vez mais semelhantes às antigas estrelas do rock. “O rock está em um embate de ficar dentro do nicho e conseguir se tornar popular novamente, sem os mesmos espaços que existiam nos anos 80, 90 ou 2000. O trap virou rock como comportamento. Eles se movimentam como rockstars, a estética, a postura… o que mudou foi a forma de abordar o assunto. A música tem o poder extraordinário da conexão e acho que o rock perdeu muito porque, de certa forma, ele perdeu a coisa do ícone. Só a música não é suficiente – ela é muito importante, mas aliada à estética, vira uma coisa muito poderosa em termos de influência”.
Tempo, um bem precioso 
Divulgação
Dos nove discos de estúdio lançados pelo Detonautas, três vieram nesta década. Ainda durante a pandemia, em julho de 2021, o grupo lançou o Álbum Laranja. Poucos meses depois, em fevereiro de 2022, veio Esperança. Já no ano seguinte, em setembro, um registro acústico ao vivo. Finalmente, em julho de 2025, o último trabalho: o EP DVersões, reunindo seis faixas que, como indica o nome, indicam regravações de canções conhecidas da música brasileira feitas originalmente por outros artistas.
Produzir um terceiro disco em cinco anos não estava nos planos da banda. Mas o processo se tornou uma demanda da gravadora Deck para o lançamento do single Potinho de Veneno – a única composição que já estava pronta até então. Daí em diante, o grupo mergulhou no estúdio e a conexão com Pablo Bispo e Ruxell se tornou essencial para abrir os caminhos.
“Sou uma pessoa muito espiritualizada”, conta Tico. “Milagrosamente, houve uma conexão muito forte com eles. Entramos em uma frequência que abriu um lugar, quase como um portal mesmo”, brinca o cantor.
Conhecido pelos beats e parcerias com cantoras como Anitta e Pabllo Vittar, parte da boa sintonia ligada a Ruxell se deve ao fato do produtor ser um fã antigo da banda desde a infância.
“Faz total diferença porque você já está inserido em um universo onde a pessoa que está dialogando com você sabe quem você é. Ela não está ali só pelo status da produção ou pelo dinheiro. Deixamos os dois produtores completamente à vontade para conduzirem [a gravação]. E é difícil para mim abrir mão, porquê sou uma pessoa com personalidade de controle, mas essa foi uma decisão que me trouxe liberdade e deu identidade ao disco”, revela.
Agora, com Rádio Love Nacional, chegou a hora de respirar. Não na agenda de shows, que está absolutamente lotada, como de costume. Mas Tico Santa Cruz não gera expectativas para voltar a gravar um novo álbum – e aponta isso como algo positivo.
“O Detonautas ganhou o tempo, que é o que você tem de mais valioso. Não precisamos mais lançar discos. Hoje, eu posso escolher entre fazer um álbum ou ficar 10 anos sem lançar nada. O que tenho que escolher é se, na hora de lançar, o álbum é relevante ou se é só para criar catálogo. O Rádio Love Nacional só foi lançado porque acreditamos que ele seja relevante. O tempo é dinheiro, mas o tempo vale mais do que dinheiro. E talvez esse seja o paradoxo: as pessoas querem ter tempo, mas elas precisam de dinheiro. E quando elas precisam de dinheiro, elas não têm tempo. Eu quero ter condição, como alguém que trabalha, que vive da sua música, de não precisar mais disso aqui” – diz apontando para o celular – “Essa é a libertação, sair desse lugar. Para mim, isso é o auge da riqueza”, finaliza.


Fonte: Jovem Pan

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