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Durante meses, Se liga Cacoal vinha denunciando os problemas na vida de pacientes com hemodiálise na região

Crise na hemodiálise

Vidas na
máquina

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Durante meses, 165 pacientes renais de Cacoal e da Zona da Mata sobreviveram à beira do limite — não pela doença, mas pela ausência do tratamento que deveriam ter.

Durante meses, pacientes renais crônicos de Cacoal e das cidades da Zona da Mata viveram uma rotina silenciosa de medo. Não era apenas a doença. Era o tratamento acontecendo no limite — sustentado por improviso, suportado com o corpo.

Ao longo de 2025, o Se Liga Cacoal recebeu dezenas de mensagens de familiares relatando uso prolongado de cateter no pescoço, repetidas tentativas de acesso venoso, dor constante e risco permanente de infecção grave. O motivo se repetia, sessão após sessão: ausência de atendimento vascular adequado para criação e manutenção da fístula arteriovenosa — o acesso considerado mais seguro para quem depende de hemodiálise contínua.

O tratamento não havia parado. Estava sendo sustentado em condição mais perigosa, três vezes por semana, por pessoas sem outra escolha.

A resposta oficial, na época, sempre chegava em tom de normalidade. O serviço estaria funcionando. Não havia crise. Mas os relatos não cessavam. Pacientes aguardavam a troca de fístula por meses, continuando a dialisar por cateter venoso central — alternativa temporária e significativamente mais arriscada. Familiares descreviam agravamento clínico e medo constante de infecção.

Quando o relato social vira papel oficial

A situação ganhou dimensão institucional quando a própria Procuradoria Geral do Município formalizou questionamento ao Estado por meio do Memorando nº 07/PGM-CS/2026. O documento pede esclarecimentos sobre o cumprimento das obrigações financeiras e assistenciais assumidas em acordo judicial relacionado ao custeio da hemodiálise em Cacoal — inclusive quanto à manutenção do atendimento vascular responsável pelas fístulas dos pacientes.

Documento Oficial

Memorando nº 07/PGM-CS/2026 — Procuradoria Geral do Município de Cacoal questiona o Estado de Rondônia sobre cumprimento de obrigações financeiras e assistenciais previstas em acordo judicial referente ao custeio da hemodiálise, incluindo a manutenção do atendimento vascular para criação e manutenção de fístulas arteriovenosas.

Aquilo que por meses aparecia apenas nas mensagens de pacientes passou a existir também no papel oficial. A questão deixou de ser relato social para tornar-se questão administrativa e jurídica.

A visita que retirou o tema do limbo

Foto da reportagem

A confirmação pública veio após visita técnica do vice-prefeito Tony Pablo à unidade de Terapia Renal Substitutiva. Após inspecionar o serviço que atende cerca de 165 pacientes da região, ele cobrou publicamente a regularização dos repasses estaduais e a garantia do atendimento vascular, afirmando que o município vinha cumprindo sua parte e que vidas estavam em risco sem a contrapartida prevista em acordo.

A manifestação colocou o problema no campo político-institucional e retirou definitivamente o tema da condição de boato ou reclamação isolada. O prefeito Adailton Fúria já havia relatado, anteriormente, que ao assumir a administração do centro encontrou um cenário delicado, tendo o município precisado reorganizar o funcionamento para evitar paralisação total do atendimento.

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Uma cadeia de risco que a burocracia não pode ignorar

Hemodiálise não admite espera burocrática. A cadeia de consequências é direta e implacável: sem manutenção da fístula, o paciente passa ao cateter. Com o cateter por tempo prolongado, o risco de infecção aumenta substancialmente. Com a infecção instalada, a consequência pode ser internação grave — ou morte.

As peças da história encaixam-se com precisão desconfortável. Relatos de pacientes indicavam ausência de especialista vascular. O memorando da Procuradoria questiona exatamente o cumprimento assistencial nessa área. A visita do vice-prefeito cobra o mesmo problema. O histórico administrativo confirma a fragilidade estrutural. Não são versões contraditórias — são partes da mesma realidade vistas por ângulos distintos.

A partir do momento em que a Procuradoria formalizou a cobrança e o Executivo municipal se posicionou publicamente, o problema deixou de ser apenas local para exigir resposta administrativa concreta do Estado de Rondônia.

O que a população aguarda

Não se trata mais de avaliar se havia problema. A própria documentação demonstra que havia questionamento concreto sobre repasses e assistência especializada. O que a população aguarda agora não é reconhecimento — esse já ocorreu. O que se espera é prazo, regularidade e garantia de atendimento vascular contínuo.

Pacientes não podem depender de improviso para sobreviver três vezes por semana. O espaço permanece aberto para manifestação oficial do Governo do Estado quanto às providências adotadas, ao cronograma de regularização e à garantia permanente do serviço.

Porque, para quem depende da máquina, cada sessão não é rotina. É continuidade de vida.

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