Banqueiro Daniel Vorcaro entre iates, Bíblia e mel (Imagem ilustrativa)
A mesma Bíblia pode estar nas mãos de homens que vivem de maneiras completamente opostas. O banqueiro Daniel Vorcaro, logo após sua prisão, foi visto portando um volumoso exemplar da Bíblia enquanto era conduzido pela Polícia Federal. A ordem de prisão foi assinada por alguém também conhecido por sua relação com o livro sagrado.
Assim, preso e emissor da ordem de prisão, curiosamente, portam o mesmo livro. E é aí que as semelhanças se encerram.
De um lado, temos um ministro conhecido por ser praticante da Palavra. Vale recordar que o então presidente Jair Bolsonaro prometera indicar para o Supremo Tribunal Federal alguém “terrivelmente evangélico”. Essa informação gerou uma espécie de “avivamento espiritual”, fazendo surgir Bíblias em alguns gabinetes e citações de seus versos em discursos de pessoas até então alheias à fé, verdadeiros “neoevangélicos”.
Felizmente, a escolha recaiu sobre um jurista que não só é evangélico de fato, como também portador de currículo, experiência e conhecimento jurídico adequados para o cargo.
De outro lado, há notícias de que Daniel Vorcaro frequentava igreja e até mesmo fez vultosas contribuições para a construção de um templo. Sua história com a Bíblia, porém, parece ter sido interrompida em algum momento e, agora, retomada.
Nos últimos anos, ao menos aparentemente, as notícias dão conta de que o banqueiro desconhecia — ou, se conhecia, não praticava — alguns dos trechos mais impactantes das Escrituras Sagradas.
Vorcaro deixa prisão em novembro de 2025
Ostentação de bens e outras práticas
A trajetória recente de Daniel Vorcaro passou a ser analisada também pelo contraste entre investigações em curso e um padrão de gastos marcadamente luxuoso.
Um dos episódios mais comentados foi seu noivado, realizado em setembro de 2023 em Taormina, na Sicília. O evento teria durado vários dias e contou com apresentações de artistas internacionais, com custo estimado em cerca de 42,4 milhões de dólares (aproximadamente R$ 222 milhões).
Entre os nomes contratados estariam Coldplay, com cachê estimado em 11,4 milhões de dólares; Michael Bublé, 2 milhões de dólares; Andrea Bocelli, 981 mil dólares e David Guetta e Seal, com cerca de 937 mil dólares cada. Parte da celebração ocorreu em hotéis de altíssimo padrão, como o Four Seasons San Domenico Palace, um dos mais exclusivos da região.
Além disso, investigações mencionam uma viagem de luxo no Mediterrâneo com custo aproximado de 1,88 milhão de euros (cerca de R$ 10 milhões), incluindo festas privadas a bordo de um superiate de grandes dimensões e eventos na Riviera Francesa.
Documentos também apontam que, entre 2021 e 2023, mais de 68,9 milhões de dólares (cerca de R$ 390 milhões) teriam sido transferidos a empresas de eventos para financiar festas, viagens e celebrações privadas.
No Brasil, o padrão de ostentação também aparece em outros episódios. Há referência a uma propriedade em Trancoso (BA) avaliada em cerca de R$ 280 milhões.
Já a festa de 15 anos de sua filha, realizada em Nova Lima (MG), teve estrutura comparável à de grandes eventos internacionais, com atrações estrangeiras e até a hospedagem de moradores vizinhos em hotéis para evitar incômodos com o barulho da celebração.
Naturalmente, todas essas informações derivam de investigações e reportagens públicas. Qualquer conclusão definitiva sobre o que efetivamente ocorreu, e sobre os aspectos jurídicos, depende do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório.
Também surgiram notícias sobre pagamento de garotas de programa e realização de orgias — algo que, evidentemente, está muito distante do padrão moral recomendado pelas Escrituras.
Uma das festas de noivado de Daniel Vorcaro, em Roma Foto: Reprodução
O que a Bíblia recomenda
Jesus alertava para haver cuidado com todo tipo de ganância e que “a vida de uma pessoa não é definida pela quantidade de bens que possui” (Lucas 12:15).
Já o apóstolo Paulo advertia que “o amor ao dinheiro é raiz de todo tipo de mal” (1 Timóteo 6:9,10) e dizia que tinha “o cuidado de agir de forma correta não apenas diante do Senhor, mas também diante das pessoas” (2 Coríntios 8:21).
O produto de dinheiro mal ganho ou mal gasto são “riquezas que apodrecem, roupas comidas por traças e ouro e prata que enferrujam” (Tiago 5:1-3). O rei Salomão, o homem mais sábio que já existiu, diz que “quem ama o dinheiro jamais se farta; quem ama a riqueza nunca se satisfaz com seus rendimentos” (Eclesiastes 5:10).
Por fim, em algo que pode assustar os capitalistas mais ávidos por EBITDA ou dividendos exagerados, a Bíblia diz:
Ninguém prejudique nem explore seu irmão. O Senhor castigará todos que cometem essas injustiças, como já os advertimos solenemente (1 Tessalonicenses 4:6).
Outros empresários com Bíblias na mão e o mel do sertão
O caso do empresário Vorcaro me traz à memória o que aconteceu em Picos, no Piauí — algo que nem sempre recebe a devida divulgação, mas que acalenta a alma de cristãos e não cristãos.
Tudo começou com um desafio feito por um pastor a empresários cristãos: desenvolver um projeto social que gerasse renda real para famílias no sertão do Piauí.
A Itus, associação voltada à transformação social e que reúne empresários e missionários, encontrou em Thiago Gama, da Mel Wenzel, um parceiro: ele tinha capacidade de compra de grandes quantidades de mel. E, no sertão, as famílias tinham a melhor matéria-prima possível, a mata nativa. Faltava apenas a ponte entre os dois. Nasceu, então, o Sertão do Bem.
O projeto piloto começou com dez famílias: entregou kit completo de apicultura, capacitação técnica e acompanhamento. Hoje já são mais de 280 famílias participando e mais de 2.200 pessoas alcançadas em comunidades rurais de Massapê do Piauí, Monsenhor Hipólito e Jaicós.
Na última safra, foram mais de R$ 390 mil pagos diretamente aos apicultores do projeto.
Liberato, um dos apicultores, resume: tinha vontade de trabalhar com abelhas, mas não tinha condição. O projeto trouxe tudo — equipamento, conhecimento e oportunidade. Hoje ele não só produz, como já ensina outros.
O Sertão do Bem vai além da renda. São 49 comunidades rurais e quatro vizinhanças urbanas impactadas. Famílias que encontraram esperança, propósito e comunidade. Pessoas que superaram depressão, reconstruíram suas vidas e voltaram a acreditar que é possível.
Como disse Wilton Coutinho, presidente de Massapê do Piauí, a Itus elevou os potenciais da comunidade, melhorou a economia e, acima de tudo, fez o povo voltar a acreditar.
Um exemplo de como empresários cristãos, movidos pelo que diz a Bíblia, investiram tempo e dinheiro “ensinando a pescar”. Isso gerou transformações reais: mais renda, riqueza, tributos, conhecimento e dignidade.
A Bíblia mudaria a história?
Pergunto-me como seria se a pressa em enriquecer não tivesse incentivado tantas operações ousadas e temerárias. Ou se menos ostentação não tivesse reduzido a necessidade de mobilizar quantias tão grandes de dinheiro.
Ou, ainda, se, seguindo as lições do profeta Isaías, ao menos uma parte dessa enorme soma gasta em festas fosse direcionada para projetos sociais.
Não tenho como deixar de imaginar quantas famílias poderiam mudar de vida com o que se gastou com festas, shows, iates, aviões e palácios.
Particularmente, acho ótimo que os ricos aproveitem seu dinheiro — isto também é bíblico (Ec 6:3-5). Mas é preciso buscar um equilíbrio e, claro, sempre presumindo tratar-se de dinheiro honesto.
Quando a casa cai
Provérbios 13:11 ensina que “A riqueza obtida com desonestidade diminuirá, mas quem a ajunta aos poucos terá cada vez mais” (NVT).
Antes de finalizar as investigações, não se pode afirmar que houve ilícito. Por outro lado, contudo, não parece haver dúvida de que houve ostentação e menos moderação e filantropia do que se poderia esperar de um praticante da Bíblia.
Jesus, no Sermão do Monte (Mt 5-7), alerta que aqueles que escutam suas palavras e as praticam constroem sobre a rocha, e a casa suporta as tempestades, ventos e inundações.
Já aqueles que escutam e não praticam — ou, poderíamos dizer, portam Bíblias, mas não a seguem — agem como o insensato que constrói a sua casa sobre a areia. Quando vierem as chuvas, as enchentes e os ventos baterem contra a casa, ela cairá com grande estrondo (Mt 7:26,27).
Quando vêm as chuvas — ou a Polícia Federal — a casa cai. E grande é a queda.
O que Jesus diria a Daniel Vorcaro?
O Evangelho de Cristo é, sempre, o espaço da fé, da transformação e dos novos começos. Em Lucas 5:31,32, Jesus diz que veio “não para os sãos, mas para os doentes; não para chamar os justos, mas sim os pecadores, para que se arrependam”.
A Bíblia, em Provérbios 28:13, ensina que “quem esconde seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia”. O ladrão da cruz, mesmo em seu derradeiro suspiro, teve a chance de mudar. Isso vale para todos.
Logo, apesar das oportunidades desperdiçadas em tempos de aparente bonança, quem sabe Daniel Vorcaro não lerá com outra atitude a sua volumosa Bíblia? Quem sabe não se arrepende e confessa seus erros? Quem sabe começa um novo tempo?
No plano jurídico, Vorcaro pode obter os benefícios da delação premiada. No plano espiritual — que é o que mais conta — pode receber perdão e misericórdia de Jesus, que já fez isso várias vezes: com Zaqueu, fiscal corrupto, e com o apóstolo Paulo, perseguidor de cristãos.
A Bíblia nas mãos de Vorcaro é a mesma que levou empresários a ajudar pobres no sertão paraibano. Para alguns, ela é bússola e luz para o caminho; para outros, não passa de peça de decoração.
Ela anuncia perdão e renovo para quem decide, de fato, mudar de vida. Mas também ensina que não basta ouvir, citar ou carregar a Bíblia: é preciso praticá-la. Porque, no fim, não é a tempestade que derruba a casa — é a forma como ela foi construída.

