Quando foi anunciada uma Copa do Mundo disputada em três países e com a participação de 48 seleções, dúvidas e incertezas sobre o nível técnico da competição tomaram conta do cenário esportivo. Afinal, o novo formato colocaria frente a frente equipes que ocupam, ou já ocuparam, o topo do ranking da Fifa e seleções que figuram em posições bem mais modestas.
Antes mesmo de a bola rolar, os prognósticos e os tradicionais bolões apontavam amplo favoritismo para potências como Brasil, Espanha e Uruguai diante de seus adversários.
Passada a primeira rodada da fase de grupos, porém, o cenário visto em campo foi bem diferente. O torneio começou equilibrado e mostrou que até mesmo seleções que venceram na estreia, como França e Alemanha, passaram por momentos de dificuldade durante suas partidas.
O panorama reforça a percepção de que não existem mais “bobos” no futebol. O nível competitivo está cada vez mais nivelado, obrigando as equipes que ocupam as primeiras posições do ranking a abandonarem qualquer sentimento de superioridade e encararem seus adversários de igual para igual, independentemente da tradição ou da quantidade de títulos conquistados.
Susto na primeira rodada
Apontado como um dos favoritos ao título e único pentacampeão mundial, o Brasil foi neutralizado por Marrocos durante boa parte da partida e acabou empatando na estreia. O resultado, no entanto, esteve longe de ser uma grande surpresa. A seleção africana terminou a última Copa do Mundo na quarta colocação e chegou ao torneio embalada por uma sequência de 30 jogos de invencibilidade.
A atuação da equipe brasileira virou motivo de comentários e críticas na imprensa internacional. Alguns jornalistas demonstraram surpresa com o desempenho apresentado e chegaram a afirmar que, atualmente, o Brasil “já não mete medo em ninguém”.
Vini Jr. foi o autor do gol do Brasil no empate contra Marrocos no jogo de estrei na Copa do Mundo 2026 │Photo by Jewel SAMAD / AFP
O maior choque da rodada ficou por conta da Espanha. Diante de Cabo Verde, seleção apontada como a mais fraca do Grupo H, a expectativa era de uma vitória tranquila dos espanhóis. No entanto, a partida terminou empatada em 0 a 0.
O Uruguai passou por situação semelhante e esteve perto de ser derrotado pela Arábia Saudita, que já havia surpreendido na Copa do Mundo de 2022 ao vencer a Argentina de virada. Já o Equador, vice-líder das Eliminatórias Sul-Americanas, acabou derrotado pela Costa do Marfim.
Vale destacar também a campanha iniciada pelos Estados Unidos. Embora a seleção masculina não tenha a mesma tradição do futebol feminino do país — vice-líder do ranking da Fifa e durante anos ocupante da primeira posição —, os norte-americanos, que são um dos anfitriões do torneio, estrearam com uma convincente vitória por 4 a 0 sobre o Paraguai.
No Grupo do Brasil, o Haiti também chamou atenção. A equipe caribenha deu trabalho à Escócia e, apesar da derrota por 1 a 0, apresentou um futebol competitivo e organizado. O desempenho serve de alerta para a seleção brasileira, que não convenceu na estreia e precisará elevar seu nível de atuação para evitar ser protagonista de mais uma zebra nesta Copa do Mundo. Até aqui, a principal surpresa do torneio foi o tropeço da Espanha diante de Cabo Verde.
Vozinha parou os atacantes espanhóis no confronto contra Cabo Verde, e manteve a partida empatada │Divulgação/Fifa
Até mesmo Alemanha e França, que estrearam com vitória, encontraram dificuldades. Os alemães saíram na frente, mas viram Curaçao, que disputa sua primeira Copa do Mundo, empatar a partida e colocar pressão sobre uma seleção que vem de campanhas decepcionantes nas últimas edições do torneio. Foi preciso recorrer ao peso de sua tradição e aos quatro títulos mundiais para construir uma goleada e repetir um emblemático placar de 7 a 1.
A França também teve trabalho. Senegal conseguiu equilibrar as ações e levou o empate para o intervalo. No segundo tempo, porém, os franceses impuseram seu ritmo de jogo e passaram a tratar o adversário como uma ameaça real, não como um rival inferior. A mudança de postura fez a diferença, e a atual campeã venceu por 3 a 1.
Os resultados da primeira rodada reforçam uma realidade cada vez mais evidente no futebol mundial: vive das glórias do passado quem acredita que tradição, por si só, é suficiente para vencer. Hoje, apenas a camisa já não intimida os adversários nem decide partidas. Para permanecer entre os melhores, é preciso apresentar bom futebol dentro de campo e confirmar o favoritismo na prática, não apenas na história.
Fonte: Jovem Pan