Se Liga Cacoal – Header
.

Europa descobre o custo de andar ao lado de Trump

Durante quase uma década, Donald Trump foi tratado por líderes nacionalistas e conservadores da Europa como uma referência política. Sua vitória em 2016 inspirou partidos anti-establishment em diversos países. Seu retorno à Casa Branca, em 2025, foi celebrado por parte da direita europeia como o início de uma nova fase para o conservadorismo global.

Mas algo mudou. Hoje, muitos dos políticos que antes faziam questão de demonstrar proximidade com Trump passaram a enxergar essa associação como um risco eleitoral.

A mudança é tão significativa que virou tema de debate dentro dos próprios movimentos conservadores europeus. A conclusão de muitos líderes é simples: defender pautas semelhantes às de Trump continua sendo popular em vários países. O problema é defender o próprio Trump.

A transformação pode ser observada em algumas das figuras mais importantes da direita europeia. O caso mais emblemático é o da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Durante anos, Meloni foi considerada a principal aliada de Trump no continente. Participou de encontros conservadores nos Estados Unidos, construiu uma relação próxima com lideranças republicanas e foi vista como uma ponte entre Washington e os movimentos nacionalistas europeus.

Quando Trump voltou ao poder, a premiê italiana parecia destinada a ocupar um lugar privilegiado na nova configuração política do Ocidente. Mas a relação começou a se desgastar. Nos últimos dias, os dois protagonizaram um raro embate público. Trump afirmou que Meloni teria praticamente implorado por uma foto durante um encontro do G7. A resposta veio rapidamente. A líder italiana classificou a declaração como falsa e criticou o presidente americano por tratar aliados históricos dos Estados Unidos com mais agressividade do que alguns adversários internacionais.

A reação foi além das palavras. O chanceler italiano, Antonio Tajani, chegou a cancelar uma viagem oficial aos Estados Unidos após a polêmica, numa demonstração clara do desconforto provocado pelas declarações do presidente americano. Mas o fenômeno não está restrito à Itália.

Na França, Jordan Bardella, presidente do Reagrupamento Nacional e um dos favoritos para disputar o poder nos próximos anos, também vem adotando uma postura mais cautelosa. Apesar das semelhanças ideológicas, Bardella evita ser visto como um “Trump francês”. A razão para essa mudança não é ideológica, mas eleitoral.

Pesquisas realizadas em diversos países europeus mostram que existe apoio para políticas mais rígidas de imigração, fortalecimento das fronteiras, defesa da soberania nacional e combate ao crime — temas que ajudaram a impulsionar Trump nos Estados Unidos.

Mas essas mesmas pesquisas indicam que a imagem pessoal do presidente americano se tornou mais controversa entre eleitores moderados, justamente o grupo que costuma decidir eleições. E há razões concretas para isso. As tarifas impostas por Trump sobre produtos europeus geraram preocupação em setores industriais e agrícolas do continente. Empresas e governos passaram a enxergar a política comercial americana não como uma parceria estratégica, mas como uma ameaça econômica.

Ao mesmo tempo, episódios envolvendo a OTAN, disputas diplomáticas com aliados históricos e declarações polêmicas da Casa Branca aumentaram o desconforto em capitais europeias. O resultado é um cenário paradoxal. Trump continua sendo uma das figuras mais influentes da política global. Sua agenda continua inspirando partidos conservadores em vários países. Seus temas seguem presentes nos debates sobre imigração, identidade nacional, globalização e segurança. Mas sua marca política já não produz o mesmo efeito de alguns anos atrás.

Para muitos líderes europeus, a estratégia agora é adotar partes da agenda trumpista sem assumir publicamente uma relação de dependência com Trump. Em outras palavras: a direita europeia não está abandonando as ideias que ajudaram a impulsionar o movimento conservador nos dois lados do Atlântico.

O que ela está abandonando, aos poucos, é a necessidade de aparecer na foto. Porque, na Europa de 2026, uma foto ao lado de Donald Trump já não garante votos. Em alguns lugares, pode até custar uma eleição


Fonte: Jovem Pan

Destaques