A família de uma das vítimas do ataque armado na Universidade Estadual da Flórida, a Florida State University, entrou com uma ação judicial contra a OpenAI, dona do ChatGPT, acusando a plataforma de ter ajudado o atirador a planejar o massacre que matou duas pessoas e deixou vários feridos em 2025.
O processo foi apresentado pela viúva de Tiru Chabba, uma das vítimas fatais do ataque ocorrido no campus da universidade, em Tallahassee. A ação também tem como alvo Phoenix Ikner, acusado de realizar o atentado e atualmente respondendo por homicídio e tentativa de homicídio nos Estados Unidos.
Segundo os advogados da família, Ikner manteve “conversas extensas” com o ChatGPT nos meses anteriores ao ataque. O processo afirma que o suspeito teria usado a ferramenta para buscar informações sobre armas, munições, horários de maior movimento no centro estudantil da universidade e detalhes sobre massacres anteriores.
A acusação vai além: os autores da ação afirmam que o ChatGPT não apenas respondeu às perguntas, mas falhou em identificar sinais claros de risco iminente de violência. Em alguns trechos citados pela imprensa americana, o processo afirma que o sistema teria discutido impacto midiático de ataques e potencial letalidade de armas.
A OpenAI negou responsabilidade.
Em nota enviada à Reuters, a empresa afirmou que o ChatGPT forneceu apenas informações públicas amplamente disponíveis na internet e “não encorajou nem promoveu atividade ilegal ou violenta”. A companhia também declarou que, após o atentado, identificou uma conta associada ao suspeito e compartilhou os dados com autoridades policiais americanas.
O caso se tornou um dos maiores testes jurídicos já enfrentados pela indústria da inteligência artificial.
A principal discussão é se empresas de IA podem ser responsabilizadas quando usuários utilizam sistemas conversacionais para planejar crimes violentos. Até pouco tempo atrás, plataformas de tecnologia alegavam funcionar apenas como intermediárias de informação. Mas o avanço da inteligência artificial generativa mudou esse debate.
Diferentemente de mecanismos tradicionais de busca, sistemas como o ChatGPT produzem respostas personalizadas, simulam conversas humanas e conseguem adaptar conteúdos às perguntas feitas pelo usuário. Para críticos, isso cria um novo nível de influência e responsabilidade.
O procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, já abriu uma investigação criminal paralela para analisar se houve falha da OpenAI ao lidar com os diálogos do suspeito. Em abril, ele declarou que, “se uma pessoa tivesse fornecido esse tipo de orientação diretamente, poderia enfrentar acusações criminais”.
O processo também aumenta a pressão sobre empresas de IA em relação aos mecanismos de segurança.
A OpenAI afirma que seus modelos são treinados para recusar pedidos que possam facilitar violência e que existem protocolos para alertar autoridades em situações de “risco iminente e confiável”. Ainda assim, especialistas questionam até que ponto sistemas automatizados conseguem identificar corretamente ameaças reais sem gerar monitoramento excessivo ou violações de privacidade.
Essa não é a única ação judicial recente envolvendo inteligência artificial e violência.
Nas últimas semanas, famílias de vítimas de um massacre no Canadá também processaram a OpenAI alegando que o autor dos ataques havia feito consultas violentas ao ChatGPT meses antes dos crimes.
O caso da Flórida pode acabar criando um precedente histórico.
Se a Justiça americana entender que ferramentas de IA têm responsabilidade parcial em crimes cometidos por usuários, empresas de tecnologia poderão enfrentar novas regras de supervisão, obrigações de monitoramento mais rígidas e até mudanças profundas na forma como esses sistemas funcionam.
Mais do que um julgamento sobre um ataque específico, o processo coloca no centro uma pergunta que começa a preocupar governos, tribunais e empresas em todo o mundo: até onde vai a responsabilidade de uma inteligência artificial pelas decisões humanas tomadas a partir dela?
Fonte: Jovem Pan