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Forração para Pipi de Pet

A banca da esquina que ficava próxima à minha casa era de metal e tinha o cheiro das revistas e da madeira onde o jornaleiro apoiava tudo: lá no fundo, sob o pó, ainda restava um exemplar amarelado de O Cruzeiro que ninguém comprava mais, vizinho de um almanaque de piadas com a capa solta — daquelas que minha mãe pedia para eu não olhar e de uma fotonovela com a mulher chorando abraçada num paletó estampada numa capa em preto e branco — relíquias de um Brasil que falava por imagem antes de falar por tela. 

Em cima, mais visível, mais viva, era ali, entre o Tio Patinhas e a Turma da Mônica, que eu aprendia geografia sem mapa e fora da escola — que ficava Patópolis. Da banca eu podia ver não apenas o parquinho gramado, repleto de árvores que me pareciam altas à época, mas a Biblioteca do Monteiro Lobato, que ficava ao lado da minha rua, que ficava ao lado de tudo que existia e importava no meu mundo. Lembro-me que nos anos de Copa, a banca engordava de tanta figurinha solta, pronta para trocar e o jornaleiro — homem de unhas sempre pretas de tinta e pó, voz grossa e dentes amarelado de quem fuma demais — sabia de memória quem faltava o quê, quem trocava com quem, quem ainda esperava o álbum completo como se completar fosse uma forma de vencer. Esse era o vício do meu irmão. Eu, curiosa até o ultimo fio de cabelo, colecionava os fascículos semanais da Enciclopédia Universo porque a Tesouro da Juventude, que meu pai havia comprado com o maior orgulho e esforço para a filha estudiosa, já havia sido lida inúmeras vezes e não havia mais nenhuma novidade nela. 

Voltei à biblioteca outro dia. Permanecia lá, firme, forte e quase vazia. Mudaram as crianças, mas o parquinho ainda é muito disputado. Repaginada, uma outra banca bem maior na mesma esquina. Nela encontrei guarda-chuva, fonte de celular, bala de hortelã, geladeira para bebidas, sorvetes, bichos de pelúcia, roupas de primeira necessidade, bonecos Funko Pop de procedência e aparência pouco ou nada confiáveis e, lá no fundo, forrando a metade da parede revistas e jornais. Alguns deles sendo vendidos como forração para pipi de pet.

O metal já não enferruja mais e o homem de voz grossa foi substituído por pessoas cujas unhas estão livres da tinta e unhas estão livres da tinta — restou só o troco, indiferente, que não deixa marca em lugar nenhum. Tive vontade de perguntar se ele era parente do antigo dono            lembra de mim — a menina que comprava um gibi só, sexta-feira, e lia em cinco minutos, e relia em mais cinco, e depois passava a tarde inteira copiando os quadrinhos a lápis, dando nomes novos pros personagens, inventando pra eles vidas que a revista nunca tinha contado. Não pergunto. Mas sei, sem precisar de resposta, que ainda faço a mesma coisa — só que hoje o lápis é outro, e os personagens, finalmente, são meus.


Fonte: Jovem Pan

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