A temporada de 2010 da Fórmula 1 é frequentemente citada como uma das mais competitivas e imprevisíveis de todos os tempos. Pela primeira e única vez na história da categoria, quatro pilotos chegaram à última corrida com chances matemáticas de conquistar o título mundial. Relembre como Vettel venceu Alonso, Webber e Hamilton na decisão de 2010 em Abu Dhabi, em um desfecho que misturou velocidade pura, erros estratégicos cruciais e uma performance defensiva inesperada de um piloto da Renault. O palco foi o circuito de Yas Marina, onde a tensão nos boxes da Red Bull, Ferrari e McLaren definiu o início de uma nova era no automobilismo.
A jornada até a decisão final
A temporada de 2010 foi marcada por uma alternância constante de liderança e confiabilidade oscilante entre as principais equipes. A Red Bull Racing possuía o carro mais rápido, o RB6, mas sofria com problemas mecânicos e incidentes entre seus pilotos. A Ferrari, liderada por Fernando Alonso, cresceu na segunda metade do ano, enquanto a McLaren mantinha Lewis Hamilton na briga com consistência, e Mark Webber vivia a melhor fase de sua carreira.
Início equilibrado: As primeiras sete corridas tiveram quatro vencedores diferentes. Jenson Button e Lewis Hamilton lideraram a tabela no início, aproveitando a confiabilidade da McLaren.
O incidente na Turquia: Um momento chave ocorreu no GP da Turquia, onde Vettel e Webber, companheiros de equipe na Red Bull, colidiram enquanto disputavam a liderança, gerando tensão interna.
A recuperação de Alonso: Após parecer fora da disputa no meio da temporada, Fernando Alonso venceu em Monza, Singapura e na Coreia do Sul, assumindo a liderança do campeonato na reta final.
O cenário pré-Abu Dhabi: Ao chegarem para a última etapa, a classificação era:
Fernando Alonso (Ferrari): 246 pontos
Mark Webber (Red Bull): 238 pontos
Sebastian Vettel (Red Bull): 231 pontos
Lewis Hamilton (McLaren): 222 pontos
A matemática e as regras da decisão
O ano de 2010 introduziu um novo sistema de pontuação que vigora até hoje, concedendo 25 pontos ao vencedor, o que ampliou as possibilidades matemáticas na final. Para entender a complexidade da batalha, é necessário analisar os cenários que cada piloto enfrentava antes das luzes se apagarem em Yas Marina.
Fernando Alonso:
Precisava apenas terminar em segundo lugar, independentemente dos resultados dos rivais.
Se Vettel vencesse, um quarto lugar bastaria para o espanhol.
Mark Webber:
Precisava vencer a corrida e torcer para Alonso chegar, no máximo, em terceiro.
Sebastian Vettel:
Necessitava da vitória e que Alonso terminasse em quinto ou pior.
Lewis Hamilton:
Suas chances eram remotas: precisava vencer e torcer para que Alonso não pontuasse, Webber fosse sexto ou pior e Vettel terminasse em terceiro ou pior.
A estratégia de pneus também desempenhou um papel fundamental nas regras daquela corrida. A fornecedora Bridgestone disponibilizou compostos macios e médios. A obrigatoriedade de usar ambos os tipos de pneus durante a prova foi o fator que, somado à entrada do Safety Car na primeira volta (após um acidente entre Schumacher e Liuzzi), desencadeou o erro estratégico da Ferrari.
Títulos, resultados e estatísticas da prova
O Grande Prêmio de Abu Dhabi de 2010 não foi decidido apenas pela velocidade, mas pelo tráfego na pista. Sebastian Vettel largou na pole position e manteve a liderança, controlando a prova com autoridade. No entanto, o drama desenrolou-se atrás dele. A Ferrari, preocupada com a parada antecipada de Mark Webber, chamou Fernando Alonso aos boxes na volta 15 para cobrir a estratégia do australiano.
Essa decisão provou ser catastrófica. Alonso voltou à pista atrás do russo Vitaly Petrov, da Renault, que já havia parado durante o Safety Car inicial. O circuito de Yas Marina, na época, oferecia poucos pontos de ultrapassagem, e a Renault possuía uma alta velocidade final de reta.
O resultado da corrida:
Sebastian Vettel (Red Bull) – 25 pontos
Lewis Hamilton (McLaren) – 18 pontos
Jenson Button (McLaren) – 15 pontos
Fernando Alonso (Ferrari) – 6 pontos
Mark Webber (Red Bull) – 4 pontos
Classificação final do campeonato:
Sebastian Vettel: 256 pontos (Campeão)
Fernando Alonso: 252 pontos
Mark Webber: 242 pontos
Lewis Hamilton: 240 pontos
Com este resultado, Sebastian Vettel conquistou seu primeiro título mundial sem ter liderado a pontuação do campeonato em nenhum momento da temporada até a bandeirada final da última corrida.
Curiosidades sobre a final de 2010
A decisão de 2010 está repleta de fatos que entraram para a história da Fórmula 1 e ainda geram discussões entre analistas e torcedores.
O mais jovem da história: Ao vencer o título com 23 anos e 134 dias, Sebastian Vettel quebrou o recorde de Lewis Hamilton, tornando-se o campeão mundial mais jovem da história da categoria, uma marca que permanece até hoje.
A defesa de Petrov: Vitaly Petrov, que teve uma carreira discreta na F1, tornou-se o protagonista improvável. Ele segurou Alonso por quase 40 voltas. Após a corrida, Alonso gesticulou furiosamente para o russo, culpando-o por sua derrota, embora Petrov estivesse apenas defendendo sua posição legitimamente.
Rádio emocionante: Ao cruzar a linha de chegada, o chefe de equipe Christian Horner disse a famosa frase no rádio: “Sebastian Vettel, you are the World Champion!”, seguido por gritos e lágrimas do piloto alemão, que não sabia a posição exata de Alonso até aquele momento.
Red Bull sem ordens: Diferente da Ferrari, que usou ordens de equipe na Alemanha naquele ano (o famoso “Fernando is faster than you”), a Red Bull permitiu que Webber e Vettel disputassem livremente, o que poderia ter custado o título se Alonso tivesse chegado em quarto.
A vitória de Sebastian Vettel em 2010 não representou apenas um título isolado, mas o início de uma dinastia. Aquele triunfo validou a filosofia da Red Bull Racing de investir em jovens talentos e marcou o começo de um domínio que resultaria em quatro campeonatos consecutivos para o piloto alemão e para a equipe austríaca. Para Fernando Alonso e a Ferrari, a noite em Abu Dhabi permaneceu como uma ferida aberta, um lembrete doloroso de como a estratégia pode ser tão decisiva quanto a potência do motor na Fórmula 1 moderna.
Fonte: Jovem Pan