PF aponta ligação de Vorcaro com o jogo do bicho
Documentos da investigação da Polícia Federal apontam que o banqueiro Daniel Vorcaro mantinha ligação com operadores do jogo do bicho e utilizava a influência de contraventores para intimidar desafetos e proteger interesses da família.
A PF deflagrou, na manhã desta quinta-feira (14), mais uma fase da Operação Compliance Zero, que prendeu o pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, classificado como um dos operadores
Segundo uma decisão do representação policial, Vorcaro ocupava posição central na organização investigada e tinha suas ordens executadas por diferentes núcleos operacionais. Um deles, chamado de “A Turma”, reunia integrantes responsáveis por ameaças, coerções e levantamentos clandestinos, com participação direta de operadores ligados ao jogo do bicho.
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A PF cita especificamente a relação de Vorcaro com Manoel Mendes Rodrigues, descrito nos documentos como “empresário do jogo” no Rio de Janeiro. De acordo com os investigadores, Manoel liderava um braço local da organização e atuava como aliado próximo do banqueiro.
A investigação afirma que Manoel Mendes era usado como “instrumento de pressão física e moral” em favor dos interesses da família Vorcaro. Para a polícia, a reputação de Manoel no meio da contravenção era explorada para dar credibilidade às ameaças e causar medo nas vítimas.
Relatos reunidos pela PF indicam que Manoel Mendes realizava abordagens intimidatórias e ameaças presenciais sob ordens diretas de Daniel Vorcaro. Um dos episódios citados ocorreu em Angra dos Reis, onde, segundo os investigadores, Manoel se apresentou como amigo de Vorcaro e mencionou sua atuação no jogo do bicho durante as intimidações.
Ainda segundo os documentos, a estrutura ligada à contravenção era usada para operacionalizar ações de coerção, cobrança e proteção clandestina dos interesses do grupo investigado.
A Polícia Federal sustenta que a conexão entre Vorcaro e operadores do jogo do bicho não era apenas circunstancial, mas fazia parte da engrenagem utilizada para execução das ações atribuídas à organização criminosa.
A investigação da Polícia Federal (PF) aponta que integrantes da própria corporação, entre eles, uma delegada e policias em atividade e aposentados, atuavam para intimidar desafetos, obter informações sigilosas e monitorar adversários do banqueiro Daniel Vorcaro.
Os suspeitos participavam do núcleo chamado de “A Turma”, voltado para a prática de ameaças, intimidações presenciais, coerções, levantamentos clandestinos, obtenção de dados sigilosos e acessos indevidos a sistemas governamentais.
A informação consta na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a 6ª fase da Operação Compliance Zero, que mirou o pai de Daniel Vorcaro e outros seis alvos de mandados de prisão nesta quinta-feira (14).
De acordo com a PF, o grupo liderado por Marilson Roseno da Silva era usado pelo pai de Vorcaro, Henrique Vorcaro, para demandar de vantagens ilícitas. Investigadores apontam ele também era o operador financeiro dos pagamentos.
A defesa de Henrique Vorcaro informou, em nota enviada à TV Globo, que a decisão se baseia em fatos que, segundo os advogados, ainda não tiveram sua legalidade e justificativa comprovadas no processo (veja a íntegra mais abaixo).
Entre os integrantes da Polícia Federal investigados estão:
Sebastião Monteiro Júnior, policial federal aposentado;
Anderson Wander da Silva Lima, policial federal da ativa lotado na Superintendência Regional da PF no Rio de Janeiro;
Valéria Vieira Pereira da Silva, delegada da PF;
Francisco José Pereira da Silva, policial federal aposentado;
Valéria e Francisco, segundo investigadores, atuavam no repasse de informações sigilosas para o Marilson Roseno a partir de consultas realizadas no sistema e-Pol, plataforma interna utilizada pela corporação.
A decisão também cita Manoel Mendes Rodrigues, apresentado como “empresário do jogo” no Rio de Janeiro e apontado como líder de um braço local do grupo.
Para a Polícia Federal, o conjunto de condutas aponta para uma infiltração do grupo em “circuitos informacionais sensíveis”, com uso de pessoas próximas ou funcionalmente habilitadas para facilitar a circulação de recursos financeiros e de dados sigilosos em benefício da organização criminosa.
Investigadores apontam que o segundo grupo, chamado “Os Meninos”, teria perfil eminentemente tecnológico e seria voltado para a prática de ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento telefônico ilegal.
Segundo a autoridade policial, ambos eram, à época dos fatos, gerenciados por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, que era chamado pelo apelido de “Sicário”, e que tinha como objetivo atender a comandos do “núcleo central da organização criminosa”.
6ª fase da Compliance Zero
A Polícia Federal (PF) prendeu nesta quinta-feira (14) Henrique Vorcaro durante nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras ligadas à instituição.
Os alvos seriam integrantes de grupos criminosos conhecidos como “A Turma” e “Os Meninos”, que, segundo a PF, integravam a estrutura paralela de vigilância e intimidação supostamente comandada pelo banqueiro.
Henrique Vorcaro era responsável por demandar serviços e efetuar os pagamentos dos integrantes desses núcleos, nos quais eram combinados os crimes de coação e vazamento de informações.
Eles são suspeitos de integrar uma organização criminosa acusada de praticar intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasão de dispositivos informáticos.
O pai de Daniel Vorcaro foi preso em Nova Lima, na região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), no início da manhã. Ele é um dos sete alvos de mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão cumpridos nesta quinta.
Veja quem são os alvos dos mandados de prisão:
Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro;
David Henrique Alves;
Victor Lima Sedlmaier;
Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos;
Manoel Mendes Rodrigues;
Anderson Wander da Silva Lima, policial federal da ativa lotado na Superintendência Regional da PF no Rio de Janeiro;
Sebastião Monteiro Júnior, policial federal aposentado.
Dados sigilosos
A representação da Polícia Federal afirma ainda que, em 2024, Marilson Roseno da Silva buscou auxílio de pelo menos três policiais federais para realizar consultas indevidas em sistemas internos da corporação.
O objetivo, segundo os investigadores, era descobrir o conteúdo de um inquérito policial, no qual Henrique Moura Vorcaro teria sido intimado.
Em um trecho destacado pela autoridade policial, Marilson aciona Anderson Wander da Silva Lima e informa que “um parceiro vai encontrar comigo aqui e vai trazer uma sucinta aqui”, ao lado da imagem da intimação dirigida a Henrique Moura Vorcaro.
Para os investigadores, o episódio reforça a suspeita de que a estrutura clandestina mobilizada por Marilson e pelo grupo conhecido como “A Turma” não atuava apenas em intimidações e cobranças, mas também na obtenção de informações sigilosas relacionadas a investigações de interesse direto de Henrique Vorcaro.
O que dizem os alvos
A defesa de Henrique Vorcaro enviou a seguinte nota:
“Constata-se que decisão se baseia em fatos cuja comprovação da respectiva licitude e o lastro de racionalidade econômica ainda não estão no processo. E não estão porque não foram solicitados à defesa e nem a ele.
O ideal seria ouvir as explicações antes de medida tão grave e desnecessária. Cuidaremos imediatamente de demonstrar a estamos a dizer ainda hoje”.
O g1 ainda não conseguiu contato com os demais investigados.
Fonte:
g1 > Política