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Escala 6×1: entenda argumentos contra e a favor do projeto aprovado na Câmara

Foi aprovada nesta semana, na Câmara dos Deputados, na última quarta-feira (27), a Proposta de Emenda Constitucional que irá reduzir a jornada de trabalho em 4 horas (de 44 para 40), estabelecer uma escala mínima de cinco dias trabalhados por dois de descanso, sem redução salarial.
A PEC foi aprovada com ampla margem nos dois turnos: no primeiro, por 472 votos a 22, acima dos 308 necessários; no segundo, por 461 a 19. O texto, uma das bandeiras eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e encampado pelo presidente da Casa, Hugo Motta, segue agora para análise do Senado.
O relatório permite, por outro lado, compensar o sábado ou domingo trabalhados no caso de categorias com jornadas especiais. Deve ser mantido, no entanto, o número de folgas remuneradas em duas por semana, em média, gozadas obrigatoriamente no mesmo mês.
No intervalo entre o segundo e o 14º mês após a promulgação, o empregador deverá distribuir, ao longo da semana, as duas horas acima das oito normais de serviço. Se repartidas igualmente, o empregado terá que trabalhar 8 horas e 24 minutos nos cinco dias da semana.
Finalizada a fase de transição, todos os empregados devem trabalhar, no máximo, oito horas diárias e 40 horas semanais em 5 dias na semana. Para trabalhar mais horas, apenas mediante pagamento de hora extra.
Veja as regras de transição da PEC que acaba com a escala 6×1:
– escala de 5 dias de trabalho com 2 dias de descanso (após 60 dias);
– redução da jornada de 44 horas para 42 horas semanais (após 60 dias);
– jornada de 42 horas para 40 horas semanais, mantida a escala 5×2 (em 14 meses).
A proposta aprovada é uma amálgama de quatro textos apresentados sobre o tema. O PL 1838/2026, recém-apresentado pelo governo, que buscava os pontos aprovados pela Câmara. As outras são Propostas de Emenda à Constituição (PEC):  A 8/2025, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP); a 148/2015, do senador Paulo Paim (PT-RS) e a 221/2019 do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG).
Essas propunham uma jornada de 4 dias de trabalho por 3 de descanso, e 36 horas semanais. Sindicatos e associações de trabalhadores foram os maiores apoiadores da proposta. Setores do empresariado brasileiro e da indústria criticaram a medida, apontando até mesmo riscos de recessão econômica e desemprego.
‘Afronta a livre iniciativa’
CNI / Miguel Ângelo
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) se posicionou na última quarta-feira (27) contra o texto aprovado. Segundo a federação, a proposta é “uma afronta à livre iniciativa”, diminui a flexibilidade de negociação e impõe um período de transição de tempo insuficiente.
“Setores como comércio, serviços, turismo, alimentação, logística e saúde, que dependem de escalas flexíveis e de funcionamento contínuo, poderão enfrentar impactos relevantes sobre os custos, organização operacional e manutenção de empregos, sobretudo nas micro e pequenas empresas (MPEs). É preocupante a imposição de regras rígidas sobre jornada de trabalho e descanso semanal em um país marcado por profundas diferenças setoriais e regionais”, disse o texto.
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) afirmou que o texto foi aprovado sem o aprofundamento técnico adequado. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que a mudança pode impactar diversos setores entre 6% e 9%, com reflexos em alimentos, serviços e vestuário.
De acordo com a CNI, para as empresas conseguirem manter o mesmo nível de produção, os custos trabalhistas (horas extras e novas contratações) subiriam até 7% e o Produto Interno Bruto (PIB) gerado pelo setor produtivo como um todo cairia 0,7%. A inflação ao consumidor, por sua vez, alcançaria 6,2%.
Marcio Guerra, superintendente de inteligência econômica da CNI, afirma que a jornada de 40 horas e a escala 5×2 levariam a um aumento imediato dos custos de produção, que precisariam ser repassados ao consumidor, gerando inflação.
A Confederação Nacional do Transporte (CNT), representante das companhias de transporte de passageiros e cargas e do setor de logística, também é contrária ao projeto do governo. Segundo o gerente-executivo de relações trabalhistas e sindicais, Frederico Toledo, trata-se até de uma medida “desnecessária”.
“Embora a Constituição preveja 44 horas semanais, a média nacional já é de 38,4 horas graças às negociações coletivas. Isso mostra que trabalhadores e empregadores conseguem ajustar a jornada de forma responsável, sem necessidade de imposição legal. Historicamente, foi o diálogo social que reduziu a jornada no Brasil, e é esse processo que deve continuar. Se o teto for rebaixado por lei, corre-se o risco de inviabilizar futuras negociações ou torná-las tão limitadas que deixem de existir.”
Se alguns setores se mostram, em sua maioria, contra, os empregados e associações são muito a favor do fim da 6×1 e da redução na jornada de trabalho.
Medida necessária
LEANDRO CHEMALLE/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO
O diretor de relações sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Victor Pagani, explica que a diminuição da carga de trabalho também pode incentivar a entrada e a manutenção de jovens no mercado de trabalho.
“Temos visto entre os trabalhadores mais jovens uma rejeição crescente ao atual modelo de organização do trabalho, principalmente por causa das jornadas longas e do adoecimento mental. Isso se reflete em muitos pedidos de demissão e altas taxas de rotatividade.”
Segundo ele, a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 são medidas necessárias para redistribuir os ganhos de produtividade que a economia brasileira acumulou desde a última diminuição da carga, estabelecida em 1988 pela Constituição: de 48 horas semanais para as atuais 44.
De acordo com o juiz Ronaldo Callado, um dos diretores da Associação Nacional das Magistradas e dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), observa-se que muitos trabalhadores já ultrapassam o limite constitucional atual, de 44 horas semanais trabalhadas, para fazer horas extras e receber um pouco mais no fim do mês, o que intensifica os impactos na saúde e na segurança.
De acordo com Callado, apesar de a jornada de 44 horas e a escala 6×1 estarem previstas na Constituição, a mudança proposta pelo governo pode ser feita por meio de lei, e não apenas por emenda constitucional, porque a Carta trata da jornada máxima — o que abre espaço para que uma lei fixe qualquer teto inferior ao atual.
“A própria Constituição permite que direitos melhores sejam garantidos por lei. A redução da jornada representaria um direito adicional ao patrimônio do trabalhador. Além disso, é necessária para que o empregado possa usufruir até mesmo de outros direitos constitucionais, como o lazer, a saúde, a convivência familiar e a dignidade humana, assegurando equilíbrio entre trabalho e descanso e melhores condições de vida” acrescenta
Economia no centro do debate
Ben STANSALL/AFP
“É um movimento natural das coisas”, diz André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, sobre a redução da jornada de trabalho. Segundo ele, a medida melhora a saúde e promove o bem-estar do empregado.
De acordo com o economista, a redução abre novas oportunidades para que o trabalhador explore o mercado de trabalho. “Em uma escala 6×1, o tempo é muito reduzido, inclusive para você se atualizar.”
Além do fim de escala, Galhardo aponta que essa não pode ser a única iniciativa para se melhorar a produtividade brasileira. Segundo ele, é preciso discutir pautas que visem preservar a saúde do trabalhador, mas que deem mais produtividade para a economia. A solução seria uma reforma trabalhista, mas que não onere o trabalhador.
“O fim da escala 6×1 não traz mais problemas, pode trazer inclusive algumas soluções”, analisou.
Juliana Inhasz, professora de economia do Insper e head de economia da Associação Nacional de Executivos, entretanto, indica que a redução pode não gerar o efeito esperado, pelo menos não imediatamente. “Esses ganhos, se acontecerem, são de médio a longo prazo. No curto prazo, o efeito dessa escala é primeiro um aumento do custo para o produtor”, avalia.
Inhasz afirma que o aumento deve ser repassado ao consumidor, aumentando preços e prejudicando os próprios trabalhadores. A economista também diz  que a medida pode desestimular a produção, principalmente para pequenos produtores, que teriam mais dificuldade de internalizar os novos custos.
A produtividade dos funcionários também é questionável. “No curto prazo, como nada garante que a gente vá ter ganhos de produtividade, parece que existe um custo que não pode ser desprezado”, diz. “Do jeito que está, sem uma agenda que olhe como essa redução de escala se traduz em ganhos de eficiência e produtividade, a gente corre o risco de mais perder do que ganhar.”
Movimento que vem do povo
Um dos movimentos que ajudou fazer a pauta chegar a Brasília foi o VAT (Vida Além do Trabalho).
A associação, que começou em 2023, defende o fim da escala 6×1. Foi fundada pelo vereador no Rio de Janeiro, Rick Azevedo (Psol), que contava suas próprias experiências na escala 6×1 pelas redes sociais.
“É um movimento orgânico, de fora para dentro, formado por trabalhadores”, diz Nando Martins, Coordenador Estadual do VAT-SP. A eleição de Rick Azevedo à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o crescimento do movimento na internet e a aproximação da deputada Erika Hilton teriam sido os principais motivos para a pauta ter chegado em Brasília e ser abraçada pelo governo, segundo Nando.
“A luta do VAT é melhor a vida do trabalhador”, definiu o coordenador. Sobre possíveis aumentos de gastos para o empresariado e empregados, Nando acredita que a questão pode ser resolvida e precisa apenas de ajustes, que seriam discutidos no governo.
Durante as votações, tanto na Comissão Especial como no Plenário da Câmara, Rick pôde ser visto junto de Hilton, e comemorou a aprovação nas redes sociais.

 

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Apoio massivo da população
Pesquisa do Datafolha mostra que 71% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1 de trabalho. Outros 27% disseram ser contra a mudança e 3% não souberam responder.
O apoio aumentou em relação ao levantamento feito em 2024. Na época, 64% eram favoráveis ao fim da escala e 33% se posicionavam contra.
A pesquisa foi realizada entre os dias 3 e 5 de março. Foram ouvidas 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Outro estudo, da Genial/Quaest, também apontou que 68% dos brasileiros são a favor do fim da escala.
0% das famílias com rendas mensais de até dois salários mínimos se mostraram a favor. O número cai para 62% para quem recebe mais de cinco salários mínimos. Essa pesquisa foi realizada entre 8 e 10 de maio de 2025.
A transição
Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Se aprovada no Senado, a implementação terá uma transição de até 14 meses. A exceção são os trabalhadores terceirizados da administração pública, que terão uma regra de transição diferenciada.
Para todos os demais trabalhadores, em 60 dias após a promulgação da emenda constitucional, as empresas terão que garantir a escala 5×2, assim como a redução da jornada para 42 horas semanais. Doze meses após essa primeira redução, a jornada cai para 40 horas.
No intervalo entre o segundo e o 14º mês após a promulgação, o empregador deverá distribuir, ao longo da semana, as duas horas acima das oito normais de serviço. Se repartidas igualmente, o empregado terá que trabalhar 8 horas e 24 minutos nos cinco dias na semana.
Finalizada a fase de transição, todos os empregados devem trabalhar, no máximo, oito horas diárias e 40 horas semanais em 5 dias na semana. Para trabalhar mais horas, apenas mediante pagamento de hora extra.
Veja as regras de transição da PEC que acaba com a escala 6×1:
– escala de 5 dias de trabalho com 2 dias de descanso (após 60 dias);
– redução da jornada de 44 horas para 42 horas semanais (após 60 dias);
– jornada de 42 horas para 40 horas semanais, mantida a escala 5×2 (em 14 meses).
PEC permite compensação
O relatório do deputado Leo Prates (Republicanos-PB) permite, excepcionalmente, e mediante convenção ou acordo coletivo de trabalho, que seja estabelecido regime compensatório que permita escala diferente da 5×2.
Nesses casos, os trabalhadores precisam ser compensados no mesmo “mês-calendário”, garantindo “o gozo de pelo menos um dos dias dentro do período máximo de uma semana de trabalho”.
Ou seja, um trabalhador pode fazer ainda a escala 6×1, desde que prevista em acordo coletivo. Nesse caso, o dia trabalhado a mais terá que ser compensado com uma folga dentro do mesmo mês. Ao final desse mês, ele terá que ter gozado, na média, o equivalente a duas folgas remuneradas por semana.
Em outro parágrafo, o relatório permite que uma lei posterior preveja regimes diferentes para duração do trabalho e dias de repouso, desde que respeitados os limites de 40 horas semanais e dois dias de repouso remunerado por semana.
Os terceirizados do Estado
A regra de transição dos trabalhadores terceirizados do poder público é diferente, sob o argumento de “evitar riscos de descontinuidade na prestação de serviços públicos essenciais executados mediante terceirização”.
As empresas que prestam serviços para o Estado terão prazo de 12 meses após promulgação da emenda, e não 60 dias como as demais, para acabar com a escala 6×1 dos empregados.
A nova jornada passará a valer no momento da formalização do aditamento do contrato das empresas com o poder público. Porém, os contratos aditados após 60 dias da promulgação da emenda já terão que observar a nova jornada de trabalho instituída pela PEC.
Os trabalhadores que ganham acima de 21 mil
Outro ponto do texto diz que a redução da jornada diária não se aplicará aos empregados com diploma de nível superior, remuneração mensal igual ou superior a duas vezes e meia o limite máximo dos benefícios do INSS. Atualmente, essa conta dá R$ 21.188,87.
Nesses casos, a redução da jornada só ocorrerá por liberalidade do empregador (quando é concedido sem obrigação legal) ou se estiver prevista em acordo ou convenção coletiva de trabalho. O texto, contudo, determina a realização da escala 5×2.
Segundo o relator Leo Prates, a medida se aplica aos trabalhadores classificados como “hipersuficientes”, que têm “significativa capacidade de negociação e autonomia na definição das condições em que desempenham suas atividades”.
*Com informações da Agência Senado, Agência Brasil e Estadão Conteúdo


Fonte: Jovem Pan

Ultrassom, laser e tratamento proibido: como recuperar Neymar para a Copa?

O anúncio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de que a lesão de Neymar é mais grave do que havia sido relatado anteriormente pelo Santos gerou dúvidas sobre se realmente é possível recuperar o atleta a tempo para a competição, que começa no dia 11 de junho — o Brasil estreia no dia 13, contra o Marrocos. Em seu pronunciamento, Rodrigo Lasmar, médico da CBF, informou que o “atleta segue em tratamento e a expectativa é que, no prazo de duas ou três semanas, ele esteja liberado”. Ele acrescentou que, na Granja Comary, tem a possibilidade de avaliar o dia a dia e a evolução do camisa 10.
O médico, entretanto, não deu mais detalhes sobre a situação do jogador. Contudo, à Jovem Pan, o ortopedista e médico do esporte Leandro Shimba explicou que, a depender da extensão da lesão, o jogador pode estar recuperado em alguns dias. “A lesão muscular de grau dois compromete de 5% a 50% da secção transversa da panturrilha. Se ela for mais próxima de 5%, a recuperação é rápida; agora, se for mais próxima de 50%, vai demorar mais, e o prazo pode ser de duas a seis semanas”, explicou.
O especialista também esclarece que a recuperação de uma lesão muscular costuma ser multifatorial e exige pilares que precisam ser seguidos. Alguns dos tratamentos mais comuns que podem ser aplicados para acelerar o processo são:

Laser
Ultrassom
Correntes elétricas
Mobilização
Liberação muscular
Boa alimentação
Sono de qualidade

Shimba também destaca que existe um procedimento que está entre os mais rápidos para a recuperação: o PRP (Plasma Rico em Plaquetas), técnica que utiliza o próprio sangue do paciente para estimular a cicatrização e a regeneração dos tecidos. Entretanto, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) ainda não liberou esse procedimento para uso rotineiro.
Neymar deve embarcar com a Seleção para os Estados Unidos no dia 1º de junho, onde seguirá com o tratamento até que, no dia 12 de junho (véspera da estreia do Brasil), haja uma confirmação se ele realmente disputará a Copa ou se será substituído.
CBF x Santos
Neyma esá afastado dos treinos da Seleção por causa de uma lesão na panturilha │ Rafael Ribeiro / CBF
A lesão de Neymar gerou um mal-estar entre a Confederação Brasileira de Futebol e o Santos, porque cada instituição identificou um problema diferente no jogador. O time da Vila Belmiro havia informado que se tratava apenas de um edema e que o camisa 10 estava pronto para disputar a Copa do Mundo. Entretanto, na quinta-feira (28), um dia após o jogador se apresentar na Granja Comary — onde a Seleção Brasileira fica concentrada antes de viajar para os Estados Unidos —, foi identificada uma lesão de grau 2.
Após a divulgação das novas informações sobre o estado de saúde do craque, o Santos emitiu uma nota alegando que a avaliação da CBF está ‘incorreta’ e que, na verdade, o jogador tem apenas um edema. Na nota, o clube declarou: “Absolutamente todos os exames realizados por Neymar Jr. foram compartilhados com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) até o dia 18, data da convocação” e que “o prazo de duas semanas é contado a partir do dia 17 e termina neste domingo (31) para que o jogador estivesse apto a voltar às atividades. Lembrando sempre que essas estimativas variam de pessoa para pessoa e conforme a necessidade da equipe e importância dos jogos.”
Segundo Shimba, esse conflito de informações pode estar acontecendo porque o exame padrão para detectar lesão muscular é a ressonância magnética — o que foi realizado com o jogador desde que ele chegou à Granja Comary. O ultrassom não é um exame tão preciso e, no momento agudo da lesão, apresenta dificuldades para a visualização clara do problema.


Fonte: Jovem Pan

As novidades do doutor e as antigas tradições

Ao longo de séculos, a região do Douro consolidou-se como um dos mais importantes territórios vitivinícolas do mundo. Situada no nordeste de Portugal e oficialmente demarcada desde 1756, durante o período do Marquês de Pombal, a região tornou-se célebre sobretudo pelos vinhos do Porto. Entretanto, paralelamente aos fortificados, sempre existiu uma tradição de produção de vinhos de mesa, consumidos localmente e, durante muito tempo, vistos como uma expressão secundária do potencial duriense. Nas últimas décadas, porém, os vinhos tranquilos do Douro conquistaram reconhecimento internacional e passaram a representar uma das faces mais dinâmicas da enologia portuguesa.
O sucesso contemporâneo dos vinhos de mesa durienses está diretamente ligado à riqueza de seu patrimônio vitícola. O Douro possui uma das maiores diversidades de castas autóctones da Europa, destacando-se, entre as tintas, a Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinto Cão e Sousão. Entre as variedades brancas, ganham protagonismo a Rabigato, Viosinho, Gouveio e Malvasia Fina. Adaptadas aos solos xistosos e às encostas íngremes que acompanham o curso do rio Douro, essas uvas produzem vinhos de grande concentração aromática, estrutura e identidade territorial.
Tradicionalmente, a vinificação no Douro era marcada pela intervenção manual intensa. A pisa das uvas em lagares de granito tornou-se um dos símbolos da região. O método permitia extração eficiente de cor, taninos e compostos aromáticos sem romper excessivamente as sementes, preservando o equilíbrio do vinho. As fermentações costumavam ocorrer em recipientes abertos, muitas vezes sem controle rigoroso de temperatura, e os estágios prolongados em tonéis ou balseiros de madeira contribuíam para vinhos robustos, concentrados e concebidos para longos períodos de envelhecimento.
A partir dos anos 2000, uma nova geração de produtores iniciou uma transformação silenciosa, mas profunda. O investimento em viticultura de precisão, seleção parcelar das vinhas, fermentações controladas por temperatura e utilização criteriosa de barricas francesas redefiniu o perfil dos vinhos do Douro. Ao mesmo tempo, cresceu o interesse pela preservação das vinhas velhas, pelo cultivo sustentável e pela valorização das castas locais. Muitos produtores passaram a buscar maior pureza de fruta, frescor e expressão do terroir, reduzindo intervenções excessivas e evitando a sobre-extração que marcou parte da produção portuguesa dos anos 1990 e início dos anos 2000.
O contraste entre os vinhos tradicionais e os modernos é evidente. Os estilos clássicos geralmente apresentam maior extração tânica, graduação alcoólica elevada e estágio prolongado em madeira, características que favorecem extraordinária longevidade. Muitos exemplares podem evoluir por décadas em garrafa. Em contrapartida, os vinhos modernos tendem a privilegiar equilíbrio, elegância e precisão aromática. Embora muitos mantenham excelente potencial de guarda, o foco deslocou-se para uma combinação entre acessibilidade na juventude e capacidade de envelhecimento. A acidez, historicamente um elemento secundário em alguns tintos mais maduros do Douro, ganhou relevância como fator de frescor e definição gustativa.
Do ponto de vista gastronômico, essa mudança ampliou significativamente a versatilidade dos vinhos da região. Os tintos tradicionais continuam brilhando ao lado de carnes de caça, cordeiro assado e pratos de cocção longa, enquanto os exemplares modernos dialogam com uma culinária mais contemporânea, incluindo aves, peixes de sabor intenso, cogumelos e preparações mediterrâneas. Os novos brancos do Douro, particularmente aqueles elaborados a partir de Rabigato e Viosinho, também vêm demonstrando capacidade de harmonização que rivaliza com grandes vinhos brancos europeus.
Entre os produtores que substituem essa renovação destacam-se nomes que unem respeito à tradição e visão contemporânea. A Wine & Soul, fundada por Sandra Tavares da Silva e Jorge Serôdio Borges, ajudou a consolidar uma nova imagem para os vinhos durienses ao valorizar vinhas velhas e interpretações mais elegantes do terroir. A Niepoort, sob a liderança de Dirk Niepoort, foi pioneira na busca por maior frescor e autenticidade regional, influenciando toda uma geração de enólogos. A Quinta do Crasto elevou o padrão qualitativo dos vinhos de mesa da região, combinando tecnologia de ponta e profundo conhecimento das vinhas históricas. Já a Quinta do Vallado tornou-se referência na produção de vinhos modernos que preservam a identidade clássica do Douro.
Merece destaque especial a produtora Rita Sequeira, representante dessa nova geração de elaboradores que procuram aliar precisão técnica e expressão regional. Seu tinto “Sequeirinha”, elaborado principalmente a partir das castas Touriga Nacional e Touriga Franca, apresenta um perfil que ilustra bem a nova tendência duriense: fruta madura, boa definição aromática, taninos polidos e equilíbrio entre estrutura e frescor. O vinho demonstra como é possível preservar a personalidade do Douro sem recorrer aos excessos de extração ou madeira que caracterizaram alguns estilos do passado.
O momento atual do Douro talvez seja um dos mais interessantes de sua longa história. A região que durante séculos foi identificada quase exclusivamente pelos vinhos do Porto hoje revela uma diversidade impressionante de estilos e interpretações. Os novos produtores não pretendem romper com a tradição, mas reinterpretá-la à luz das exigências contemporâneas. O resultado são vinhos que preservam a profundidade, a identidade e a capacidade de envelhecimento que consagraram o Douro, ao mesmo tempo em que oferecem maior elegância, frescor e afinidade gastronômica para os consumidores do século XXI. Salut!


Fonte: Jovem Pan

A Internet das Coisas (IoT) e a casa conectada: Sua geladeira pode ser a próxima porta de entrada para um hacker?

Durante muito tempo, quando se falava em cibersegurança, a maioria das pessoas imaginava computadores, servidores corporativos ou grandes bancos de dados sendo atacados por hackers. Em 2026, entretanto, a realidade é muito diferente. Os dispositivos conectados à internet já superam em muito a quantidade de computadores tradicionais existentes no mundo. Hoje, câmeras de segurança, fechaduras inteligentes, lâmpadas, televisores, assistentes virtuais, aspiradores robôs, geladeiras e até eletrodomésticos simples possuem capacidade de conexão à internet. Esse fenômeno, conhecido como Internet das Coisas (IoT – Internet of Things), trouxe praticidade e automação para milhões de residências, mas também criou uma nova superfície de ataque que poucos consumidores compreendem completamente.
A promessa da casa inteligente é extremamente sedutora. Com alguns toques no celular é possível controlar iluminação, temperatura, sistemas de monitoramento, eletrodomésticos e até a abertura de portas e portões. O conceito de automação residencial deixou de ser privilégio de mansões futuristas para se tornar uma realidade acessível a milhões de pessoas. Entretanto, existe uma pergunta que poucos consumidores fazem antes de instalar esses equipamentos: quem mais pode estar acessando esses dispositivos além de mim?
A resposta é mais preocupante do que parece. Diferentemente de computadores e smartphones, que normalmente recebem atualizações frequentes de segurança e contam com anos de amadurecimento tecnológico, muitos dispositivos IoT são projetados com foco principal em custo, praticidade e rapidez de lançamento no mercado. A segurança frequentemente acaba ficando em segundo plano. Como consequência, milhares de equipamentos são vendidos utilizando senhas padrão, softwares desatualizados, criptografia fraca e mechanisms de autenticação insuficientes para resistir às ameaças atuais.
O problema não é apenas teórico. Diversas pesquisas conduzidas por especialistas em segurança da informação demonstram que milhões de dispositivos IoT vulneráveis permanecem expostos diretamente na internet. Câmeras residenciais, por exemplo, figuram entre os equipamentos mais frequentemente encontrados com falhas críticas de segurança. Em alguns casos, invasores conseguiram acessar imagens internas de residências, observar hábitos familiares, monitorar horários de entrada e saída e até interagir com sistemas de áudio integrados. O que deveria trazer sensação de proteção acabou se transformando em uma ferramenta de vigilância nas mãos de criminosos.
Outro risco pouco conhecido é o uso desses dispositivos como integrantes de botnets. Muitos proprietários sequer percebem que seus equipamentos foram comprometidos. Uma câmera de segurança ou um roteador doméstico infectado pode ser utilizado silenciosamente para realizar ataques contra empresas, governos ou outros usuários da internet. O equipamento continua funcionando normalmente para o dono da casa, mas nos bastidores está executando comandos controlados por criminosos localizados em qualquer lugar do planeta.
Um dos exemplos mais famosos foi a botnet Mirai, responsável por sequestrar milhares de dispositivos conectados para lançar ataques em larga escala contra grandes serviços da internet. Embora esse caso tenha ocorrido anos atrás, ele serviu como alerta para uma tendência que só cresceu desde então. Atualmente existem dezenas de variantes desse tipo de ataque, e os criminosos contam com recursos cada vez mais sofisticados para localizar e explorar dispositivos vulneráveis.
O avanço da Inteligência Artificial tornou esse cenário ainda mais complexo. Ferramentas de IA já são utilizadas para automatizar o reconhecimento de dispositivos expostos, identificar vulnerabilidades conhecidas e até adaptar ataques conforme o equipamento encontrado. O que antes exigia conhecimento técnico avançado e semanas de trabalho pode agora ser realizado em questão de minutos por sistemas automatizados. Isso reduz custos para os criminosos e amplia significativamente a escala das ameaças.
Um dos maiores desafios é que a maioria das pessoas não enxerga seus dispositivos inteligentes como computadores. Quando alguém compra um notebook, entende intuitivamente que precisa instalar atualizações, utilizar senhas fortes e adotar medidas de proteção. Entretanto, quando compra uma lâmpada inteligente, uma televisão conectada ou uma fechadura eletrônica, raramente associa aquele equipamento aos mesmos riscos. Na prática, porém, todos esses dispositivos possuem sistema operacional, armazenamento, memória, capacidade de processamento e acesso à internet. Em outras palavras, são computadores especializados, ainda que sua aparência não sugira isso.
O perigo se torna ainda maior quando analisamos a chamada movimentação lateral, uma técnica amplamente utilizada por criminosos digitais. Muitas vezes, o objetivo inicial não é controlar diretamente a lâmpada, a câmera ou a geladeira inteligente. Esses dispositivos servem apenas como ponto de entrada. Uma vez dentro da rede doméstica, o invasor pode tentar acessar notebooks, celulares, documentos pessoais, credenciais corporativas, sistemas bancários e outros ativos muito mais valiosos. Um equipamento aparentemente insignificante pode ser o primeiro elo de uma cadeia que culmina no comprometimento completo da vida digital de uma família.
As câmeras de segurança inteligentes merecem atenção especial nesse contexto. Elas se tornaram um dos símbolos da casa conectada e oferecem benefícios legítimos para monitoramento residencial. Entretanto, também coletam informações extremamente sensíveis. Horários de entrada e saída, rotina familiar, características da residência e até hábitos pessoais podem ser observados por terceiros caso o equipamento seja comprometido. Em determinadas situações, esse tipo de informação pode ser utilizado não apenas para crimes digitais, mas também para facilitar crimes físicos.
Outro aspecto frequentemente ignorado está relacionado à privacidade. Muitos dispositivos IoT coletam grandes quantidades de dados sobre seus usuários. Assistentes virtuais registram comandos de voz. Televisores inteligentes monitoram hábitos de consumo de conteúdo. Aplicativos de automação registram horários de utilização dos equipamentos. Essas informações podem ser processadas, compartilhadas e armazenadas em diferentes países, criando desafios importantes para a proteção de dados pessoais e para a transparência no tratamento dessas informações.
Felizmente, existem medidas relativamente simples capazes de reduzir significativamente os riscos. Alterar imediatamente as senhas padrão, manter os dispositivos atualizados, utilizar autenticação multifator sempre que disponível, segmentar a rede doméstica e optar por fabricantes que demonstrem compromisso com segurança já representa um enorme avanço. Da mesma forma que fechamos portas e janelas antes de sair de casa, precisamos desenvolver hábitos semelhantes para proteger nossos ambientes digitais.
A tendência é que a Internet das Coisas continue crescendo de forma acelerada durante os próximos anos. Casas, veículos, cidades, hospitais e até roupas estarão cada vez mais conectados. Essa evolução promete ganhos significativos de eficiência, conforto e conveniência. Contudo, também exige uma mudança de mentalidade. Segurança digital deixará de ser uma preocupação exclusiva de especialistas e passará a ser uma competência básica para qualquer cidadão conectado.
Diante desse cenário, torna-se evidente que a segurança digital deixou de ser uma preocupação restrita a empresas, governos ou profissionais de tecnologia. A expansão da Internet das Coisas está transformando residências comuns em ecossistemas tecnológicos complexos, onde cada dispositivo conectado representa simultaneamente uma oportunidade de conveniência e um potencial ponto de vulnerabilidade. À medida que mais equipamentos passam a fazer parte do cotidiano, a conscientização sobre segurança cibernética torna-se tão importante quanto os cuidados tradicionais com a segurança física da casa.
O grande desafio dos próximos anos será equilibrar inovação e proteção. Casas inteligentes prometem mais conforto, automação e eficiência, mas também exigem novos hábitos de segurança por parte dos consumidores. Em um mundo onde lâmpadas, câmeras, fechaduras, televisores e eletrodomésticos estão conectados à internet, a pergunta já não é se a tecnologia fará parte da nossa vida, mas se estaremos preparados para protegê-la. Afinal, a porta de entrada de um invasor pode não estar mais no computador da sala, mas em um dispositivo aparentemente inofensivo que ninguém imaginaria ser alvo de um ataque digital.
Quer se aprofundar no assunto, tem alguma dúvida, comentário ou quer compartilhar sua experiência nesse tema? Me escreva no Instagram: @davisalvesphd.


Fonte: Jovem Pan

Colômbia realiza eleição presidencial em meio ao crescimento de grupos armados

Cerca de 40 milhões de colombianos vão às urnas neste domingo (31) para eleger o próximo presidente do país. O sucessor do atual chefe de Estado, Gustavo Petro, herdará o desafio de combater a violência armada enraizada na Colômbia há mais de 60 anos.
Desde segunda-feira (25), os mais de 1,4 milhão de eleitores colombianos no exterior votam no primeiro turno do pleito presidencial. Caso nenhum dos 14 candidatos em disputa obtenha mais de 50% dos votos, haverá segundo turno em 21 de junho.
Segundo pesquisa eleitoral, o resultado do pleito pode culminar na continuidade da agenda de esquerda do governo atual ou em uma reaproximação da Colômbia com os Estados Unidos. Aliado de Petro, o senador Ivan Cepeda (Pacto Histórico) lidera as intenções de voto no primeiro turno e prometeu dar continuidade ao legado social de seu padrinho político. Caso avance à segunda etapa da eleição, o seu provável adversário virá do campo da direita.
O levantamento da AtlasIntel, divulgado em 23 de maio, mostrou o advogado de extrema-direita Abelardo de la Espriella (Defensores de La Patria) com 36,3% das intenções de voto, no primeiro turno, contra 37,7% de Cepeda. Admirador dos presidentes argentino e norte-americano, Javier Milei e Donald Trump, o jurista defendeu, em sua campanha, a livre iniciativa e a família tradicional. Sobre o tema da segurança, prometeu seguir uma abordagem “linha-dura”.
Atrás de Espriella, conforme a AtlasIntel, aparece a senadora conservadora Paloma Valencia (Centro Democrático) com 13,9%. Ligada ao ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, a parlamentar se opõe à estratégia de “Paz Total”, de Petro, na qual buscou-se negociar a desmobilização dos grupos armados no enfrentamento da violência no país. Ela prometeu desenvolver um “Plano Colômbia 2.0” para combater o narcotráfico em parceria com os Estados Unidos.

Crescimento dos grupos armados
Um relatório da Fundação Ideias para a Paz (FIP), divulgado em janeiro, informou que a Colômbia iniciou este ano eleitoral em um contexto maior de insegurança do que em eleições passadas. De acordo com o estudo, o cenário de instabilidade se dá em razão do crescimento dos grupos armados, das disputas entre as organizações e da dificuldade do Estado em retomar o controle de territórios ocupados.
Conforme apresentado no relatório, os grupos armados colombianos encerraram 2025 com mais de 27 mil integrantes, o que representa um aumento de 23,5% ante ao ano anterior. Já as disputas atingiram o nível mais alto dos últimos 10 anos, com 115 confrontos — uma alta de 34% em comparação a 2024.
No estudo, a FIP explicou que o aumento dos confrontos está relacionado ao fim de acordos que viabilizavam a coexistência entre os grupos armados. A fundação citou o caso da área andina de Catatumbo, na fronteira com a Venezuela.
Em fevereiro de 2025, eclodiu um conflito armado pelo controle da região andina propícia ao plantio da folha de coca, usada na produção de cocaína. A disputa travada entre o Exército de Libertação Nacional (ELN) e a 33ª Frente, dissidente das antigas Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), deixou aproximadamente 117 mortos, segundo a Defensoria Pública do país. Mais de 64 mil pessoas deixaram Catatumbo à força até 28 de abril de 2025. Essa foi considerada a crise humanitária mais grave da Colômbia desde a década de 1990.


Fonte: Jovem Pan

Como foi a fratura na vértebra de Neymar na Copa do Mundo de 2014 e qual foi o tempo de recuperação

A fatídica fratura na terceira vértebra lombar de Neymar ocorreu no dia 4 de julho de 2014, durante a vitória do Brasil por 2 a 1 contra a Colômbia, válida pelas quartas de final do Mundial, na Arena Castelão, em Fortaleza. O atacante brasileiro sofreu uma joelhada violenta nas costas desferida pelo lateral colombiano Juan Camilo Zúñiga aos 86 minutos de jogo. O tempo de recuperação de Neymar foi de exatamente 45 dias, período em que ele permaneceu em repouso absoluto e realizou fisioterapia intensiva antes de voltar a atuar oficialmente pelo Barcelona, em agosto daquele mesmo ano.
O choque violento no Castelão que tirou o craque do Mundial
O lance que chocou o país aconteceu na reta final da partida. Após a cobrança de um escanteio na área brasileira, a bola sobrou no meio de campo. Neymar correu para fazer o domínio e proteger a bola, mas foi atropelado por trás por Camilo Zúñiga. O defensor colombiano saltou e acertou as costas do camisa 10 brasileiro diretamente com o joelho. Um estudo biomecânico realizado na época revelou que o impacto sofrido pelo jogador foi equivalente a pular de uma altura de 2,5 metros de joelhos nas costas de uma pessoa.
Com a força do choque, Neymar desabou no gramado chorando intensamente de dor. Os jogadores ao redor perceberam imediatamente que a situação era grave. O lateral-esquerdo Marcelo chegou a relatar que Neymar disse que não conseguia sentir as pernas logo após o impacto. Retirado de campo de maca e sob aplausos apreensivos da torcida, o atacante foi encaminhado às pressas para o Hospital São Carlos, localizado em Fortaleza, onde realizou exames de imagem que confirmaram a gravidade do problema.
O diagnóstico médico sem termos técnicos complicados
Os exames constataram que Neymar sofreu uma fratura no processo transverso da terceira vértebra lombar. Em termos simples, o processo transverso representa duas pequenas “asas” laterais que saem de cada vértebra e servem como ponto de apoio para os músculos e ligamentos da coluna. A pancada forte de Zúñiga quebrou uma dessas estruturas periféricas, o que gerou uma dor extrema e incapacitante no atleta.
Apesar do susto e do choro do jogador, a fratura foi classificada pelos médicos como estável. Isso significa que a lesão não atingiu o canal central da coluna, por onde passa a medula espinhal e os principais nervos do corpo. Por esse motivo, não houve risco de paralisia ou de sequelas motoras permanentes. Mesmo assim, o tratamento exigiu cuidados rigorosos para evitar o agravamento da lesão e permitir que o osso se consolidasse de forma saudável.
A rotina de tratamento e a volta triunfal pelo Barcelona
Por se tratar de uma fratura estável, a equipe médica da seleção brasileira, sob a liderança do médico Rodrigo Lasmar, descartou a necessidade de cirurgia. O tratamento adotado foi totalmente conservador. Neymar precisou fazer uso de uma cinta lombar rígida para imobilizar a região e controlar a dor, além de tomar medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios. O jogador passou as primeiras semanas de sua recuperação deitado, em repouso absoluto, na sua residência no Guarujá, litoral de São Paulo.
Após o período inicial de imobilização total, o atleta viajou para a Espanha no início de agosto para iniciar a transição física e os trabalhos de fisioterapia no centro de treinamentos do Barcelona. O processo de evolução surpreendeu os médicos do clube catalão. Exatos 45 dias após a lesão, no dia 18 de agosto de 2014, Neymar voltou aos gramados de forma triunfal. Ele entrou em campo no amistoso contra o Club León, do México, pelo Troféu Joan Gamper, no Camp Nou. Naquela partida, o brasileiro jogou por 45 minutos, deu uma assistência para Lionel Messi e marcou dois gols na goleada por 6 a 0, provando estar totalmente recuperado do trauma físico.
Perguntas frequentes sobre a lesão de Neymar em 2014
Qual foi a vértebra que o Neymar fraturou na Copa de 2014?
Neymar fraturou a terceira vértebra lombar, conhecida na medicina pela sigla L3. A lesão ocorreu especificamente na parte lateral do osso, chamada de processo transverso, e não no corpo principal da vértebra.
Quem machucou o Neymar na Copa do Mundo de 2014?
O responsável pela jogada que lesionou Neymar foi o lateral-direito colombiano Camilo Zúñiga. O lance aconteceu durante uma disputa de bola aérea no final do segundo tempo das quartas de final.
Neymar precisou passar por cirurgia na coluna?
Não, o atacante não precisou de procedimento cirúrgico. Como a fratura foi considerada estável e não afetou a medula espinhal, os médicos optaram por um tratamento conservador baseado em repouso absoluto e imobilização com cinta lombar.
Quanto tempo Neymar ficou sem jogar depois de quebrar a vértebra?
O jogador ficou exatamente 45 dias longe dos gramados. Ele se lesionou no dia 4 de julho de 2014 e voltou a disputar uma partida no dia 18 de agosto do mesmo ano, defendendo as cores do Barcelona.
A ausência de Neymar na semifinal do Mundial de 2014 desestruturou o planejamento tático do técnico Luiz Felipe Scolari e abalou profundamente o emocional do elenco brasileiro, que acabou sofrendo a histórica derrota por 7 a 1 para a Alemanha. Apesar do desfecho trágico para a seleção brasileira naquele torneio, a rápida e completa recuperação do camisa 10 mostrou a excelente capacidade física do atleta, que retornou em alto nível para fazer uma das temporadas mais vitoriosas de sua carreira na Europa, culminando na conquista da Liga dos Campeões da UEFA no ano seguinte.


Fonte: Jovem Pan

Durigan chama classificação de PCC e CV como terroristas de ataque eleitoral e diz que vai prejudicar economia

Ataque eleitoral vai prejudicar economia brasileira, diz Durigan
Em sua primeira manifestação após os Estados Unidos classificarem o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a decisão pode trazer impactos negativos para a economia brasileira.
“Nós estamos aqui preocupados em proteger a população, seja das organizações criminosas, seja desse ataque eleitoral, travestido de ato de designação, que não cabe e vai prejudicar a economia brasileira, prejudicar as famílias brasileiras”, afirmou Durigan em entrevista à GloboNews nesta sexta-feira (29).
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“Cabe ao governo brasileiro, mais uma vez, como foi feito no tarifaço do ano passado, dar um passo à frente e proteger o nosso sistema financeiro, que pode ser o primeiro afetado, mas também os nossos empresários e as famílias brasileiras”, continuou.
A decisão dos Estados Unidos foi anunciada nesta quinta-feira (28), dois dias após o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Segundo o parlamentar, Rubio se mostrou favorável à classificação das facções brasileiras como organizações terroristas.
‘O PIX é uma infraestrutura soberana do Brasil’, afirmou Durigan
Durigan também comentou os possíveis efeitos da medida sobre o PIX, reforçando a posição já manifestada pelo governo em nota divulgada mais cedo. “Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros”, disse o governo.
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O ministro afirmou que críticas e questionamentos internacionais ao sistema de pagamentos instantâneos brasileiro são frequentemente motivados por empresas estrangeiras que perderam receitas com a redução dos custos de intermediação financeira. Segundo ele, esse tipo de pressão representa um risco sem fundamento que o governo pretende combater.
“Quem coloca o PIX em dúvida, quem fragiliza, quem põe o PIX em perigo, é esse tipo de questionamento que tem sido amplamente fomentada pela família Bolsonaro”, disse Durigan.
Durigan em entrevista à GloboNews nesta sexta-feira (29).
Reprodução/GloboNews
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g1 > Política

Lula amplia crédito com taxas favorecidas em terceiro mandato, preocupa BC e pressiona juros

Miriam Leitão: Guerra freou queda dos juros
O chamado crédito direcionado, que conta com juros menores, voltou a subir no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo números do Banco Central. O aumento dessa modalidade faz o Banco Central (BC) manter a Selic, taxa básica de juros da economia brasileira, em um patamar maior.
🔎 O crédito direcionado é um financiamento em que os recursos têm uma finalidade específica obrigatória, regulamentada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Esses empréstimos têm juros menores e prazos mais longos e destinam-se a atividades setoriais, como imobiliária, rural e de infraestrutura.
🔎 O crédito direcionado possui taxas menores por ter subsídio do governo, fontes mais baratas de recursos e garantias públicas.
O próprio BC, responsável por fixar o juro básico da economia para conter a inflação, explica que esse é um fator que pressiona para cima a taxa Selic, atualmente em 14,5% ao ano. Em termos reais, é o segundo juro mais alto do mundo.
🔎 A Selic representa os juros cobrados entre bancos e serve de referência para diversas taxas aplicadas ao consumidor. O crédito fica mais caro quando ela sobe, o que reduz o o consumo, investimentos e contratações. Isso ajuda a conter a inflação. Já a queda da Selic barateia o crédito e estimula a atividade econômica.
“O aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, informa a ata última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que é responsável por definir a Selic, em 29 de abril.
A explicação é que o BC tem de manter a taxa Selic em um patamar mais elevado do que o normal porque boa parte do crédito em mercado não está atrelado à taxa básica da economia.
💰 Esse tipo de crédito teve um aumento no terceiro mandato do presidente Lula, após queda durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). (veja mais detalhes)
As principais linhas de crédito direcionado são:
empréstimos para compra da casa própria;
crédito rural e as linhas operacionalizadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao setor produtivo;
linhas com garantias oferecidas pelo governo, como o Pronampe e o FGI, e para segmentos específicos.
Na série histórica do Banco Central, que tem início em março de 2011, a taxa média de juros do crédito direcionado somou 9,3% ao ano, até março de 2026.
Ao mesmo tempo, a taxa média dos empréstimos normais, que não juros favorecidos, somou 38,8% ao ano no mesmo período.
Com isso, a taxa média de juros do crédito com recursos livres foi cerca de quase quatro vezes maior do que a do crédito direcionado entre março de 2011 e o mesmo mês deste ano.
Aumento no governo Lula
De acordo com a série histórica do BC, as linhas de empréstimos subsidiadas, ou seja, que estão abaixo das taxas de mercado, representaram 43,1% do volume total em mercado em março deste ano, o maior nível desde o fim de 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro.
💰Analistas observam que, diante dos limites para gastos da regra fiscal, o governo Lula tem aumentado as linhas de crédito com juros favorecidos em um ano eleitoral, dificultando a queda da taxa básica e, consequentemente, das linhas de empréstimos para os demais setores da economia.
💵No terceiro mandato de Lula, o movimento de crescimento do crédito direcionado se intensificou com a proximidade das eleições, foram anunciadas linhas de crédito com juros mais baratos, impulsionando o crédito direcionado, para:
Máquinas agrícolas;
Minha Casa, Minha Vida;
Taxistas e motoristas de aplicativos;
Plano Safra;
Caminhões e ônibus;
Microempreendedores de baixa renda;
Setores afetados pelo tarifaço e guerra no Oriente Médio;
Programa para reforma de imóveis;
Renegociação de dívidas no Desenrola 2.0;
Nova política industrial
Pessoas físicas, um novo modelo de crédito imobiliário;
Fundo Clima, para projetos de combate às mudanças climáticas;
Fundo de florestas tropicais;
Renegociação de dívida agropecuária, em curso.
Para Sergio Vale, economista-chefe MB Associados, em vez de injetar recursos nessa intensidade por meio de linhas de crédito específicas, o governo deveria fazer o caminho contrário: um corte de gastos mais intenso para promover a redução dos juros para todos os segmentos e setores da sociedade.
“O governo escolhe o caminho que parece ser mais fácil, mas na verdade é o mais difícil. Atrapalha o Banco Central e gera resultados que, muitas vezes, são só de curto prazo e são agravantes para a situação econômica do país quando a gente olha no longo prazo”, avaliou.
Lula no lançamento do Plano Safra 2025, que oferece crédito com juros subsidiados a agricultores
Ricardo Stuckert/PR
Teoria da meia-entrada no cinema
Em 2023, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro, recorreu à explicação da meia-entrada no cinema para explicar esse fenômeno.
“No crédito direcionado, a gente pode fazer a análise do cinema que vende a meia-entrada. Se eu vendo muita meia-entrada e quero ter o mesmo lucro, a entrada inteira eu tenho que subir o preço. O crédito funciona um pouco assim”, afirmou Campos Neto, na ocasião.
Ele comparou o volume total do crédito no país a um “tubo” para explicar porque a concessão de empréstimos, com juros menores, afetam o patamar da taxa Selic, fixada pelo Banco Central para conter a inflação.
“Se um pedaço do tubo está imobilizado [crédito direcionado, com juro mais baixo], eu tenho que aumentar a pressão no outro [subindo mais a taxa total]. Quando você tem muito crédito subsidiado, a sua potência de influenciar com o juro diminui. Então tem que ter um juro mais alto do que você teria”, declarou o ex-presidente do BC, Campos Neto.
Gabriel Galípolo, atual presidente do BC, afirmou em audiência pública no Senado Federal neste mês que há algo de “idiossincrático” (peculiar) que permita que o país tenha juro real, após descontada a projeção de inflação para os próximos 12 meses, perto de 10% ao ano, inflação acima da meta e desemprego na mínima histórica.
“Vai demandar uma série de reformas para desobstruir os canais, e ter uma política [monetária, de fixação dos juros] que pese menos com um efeito mais eficaz no controle da inflação”, disse Galípolo.
De acordo com o BC, pelo fato de o direcionado não ser uma forma prevalente de crédito, os países em geral não possuem estatísticas específicas sobre crédito direcionado, o que torna a comparação internacional um exercício complexo e não recorrente.
Mesmo assim, suas estimativas, que consideram apenas os dados internacionais disponíveis para países parecidos, como Colômbia, China, Coreia do Sul, México e Peru.
Em cerca de 43% do crédito total, o Brasil está muito na frente de outros países, como o México, com 26%. A instituição informou, também, que a maioria dos outros países possui percentual abaixo de 5%.
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) concordou que, quanto maior a participação das linhas de empréstimos com recursos direcionados, com taxas de juros abaixo de mercado, menor a potência da política monetária, taxa Selic fixada pelo BC.
Mas ponderou que a trajetória recente de aceleração das linhas de crédito com juros favorecidos é bem menos acentuada em relação à verificada no início da década de 2010, com a participação encontrando-se em nível bem distante dos 50% ocorridos entre 2016/2017.
“A interferência governamental na definição de taxa de juros no crédito é sempre ruim, gerando em muitas situações ineficiências e distorções na alocação de recursos. Assim, em uma análise inicial, as demais taxas deveriam ser mais altas para preservar a rentabilidade das carteiras”, explicou a ABBC.
Juros básicos altos, por sua vez, geram outra consequência negativa para a economia brasileira, o crescimento da dívida (pois são base para a emissão de títulos públicos).
Em 80% do PIB, o endividamento brasileiro está no maior nível em cinco anos e, também, em patamar semelhante à Zona do Euro.
Por ser elevada, a dívida brasileira também é um fator de pressão para cima nos juros. É um ciclo vicioso que se retroalimenta e compromete recursos para gerações futuras.


Fonte:

g1 > Política

Deolane e Vorcaro vão poder votar? Entenda como funcionam as eleições para presos provisórios

Vorcaro e Dolane após serem presos.
Reprodução
As prisões preventivas de personalidades conhecidas voltaram a colocar esse instrumento jurídico sob os holofotes. Embora privados de liberdade, presos provisórios não perdem automaticamente todos os seus direitos. Em um ano eleitoral, a questão ganha relevância: eles poderão votar se continuarem presos?
Pela Constituição, sim. É o caso da influenciadora e advogada Deolane Bezerra e do fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, que seguem aptos a participar das eleições de outubro caso continuem detidos até a data do pleito.
Vorcaro foi preso preventivamente pela segunda vez em março deste ano por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Ele está detido em uma sala de Estado-Maior na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
Já Deolane está presa desde 21 de maio na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista (SP), investigada por participação em organização criminosa e lavagem de capitais. A prisão preventiva foi decretada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Polícia Civil.
Segundo dados do TSE, 12.903 presos provisórios votaram na eleição presidencial de 2022 — cerca de 3% dos aproximadamente 400 mil presos provisórios do país, segundo a DPU. Em 2024, o número de detentos com transferência temporária do título eleitoral caiu para 6.322, uma redução de cerca de 50%.
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Voto de presos provisórios
O direito ao voto desses detentos está previsto na Constituição. O artigo 15 estabelece que a suspensão dos direitos políticos só ocorre após condenação criminal com trânsito em julgado — quando se esgotam todas as possibilidades de recurso. Dessa forma, presos provisórios, que ainda não foram condenados de forma definitiva, mantêm o direito de votar.
O entendimento foi reforçado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 22 de abril, ao analisar um dispositivo da chamada Lei Antifacção. A norma, incluída no Marco Legal do Crime Organizado por emenda do deputado Marcel van Hattem (Novo-RS), prevê a suspensão dos direitos políticos de presos provisórios em qualquer modalidade. O projeto foi aprovado pelo Congresso em fevereiro e sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mês seguinte.
Por unanimidade, os ministros do TSE concluíram que a regra não poderá ser aplicada nas eleições deste ano por violar o princípio da anualidade eleitoral. Previsto no artigo 16 da Constituição, o dispositivo determina que mudanças nas regras eleitorais só podem valer para eleições realizadas pelo menos um ano após a entrada em vigor da legislação.
Na prática, isso significa que presos provisórios seguem aptos a votar em 2026. Eventuais efeitos da Lei Antifacção sobre o direito ao voto só poderão ser aplicados a partir das eleições de 2028.
Como funciona o voto em presídios?
O voto de presos provisórios envolve uma série de etapas de planejamento e articulação entre diferentes instituições do sistema de Justiça brasileiro. Seguindo algumas etapas:
Levantamento de interessados;
verificação da situação eleitoral dos presos;
avaliação das condições de segurança e estrutura;
transferência temporária do local de votação;
planejamento da votação em cada unidade;
Definição do tipo de votação, se urna eletrônica ou de lona.
Bruno Andrade, especialista em direito eleitoral, professor e servidor da Justiça Eleitoral no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), explica que o processo começa nos tribunais regionais eleitorais (TREs). Em cada estado, os tribunais entram em contato com as secretarias de segurança para identificar as unidades prisionais que abrigam presos provisórios.
“Os tribunais estabelecem contato para avaliar as condições de segurança e a população que tem naquela unidade”, afirmou ao g1.Também há um movimento interno da unidade prisional: “As instituições fazem levantamentos com seus presos para verem quem tem interesse”.
As condições são analisadas pelo diretor do estabelecimento prisional, que verifica se há um espaço adequado para a votação, respeitando os direitos dos detentos e dos mesários.
“Não pode haver uma câmera filmando a sala, porque isso pode comprometer o sigilo do voto. Também é preciso garantir a segurança do mesário e do eleitor, sem que ele seja constrangido ao exercer seu direito. Além disso, não podem existir crises entre facções dentro do presídio”, exemplifica Andrade.
Depois que as condições de segurança são consideradas adequadas, os tribunais e as unidades prisionais avaliam a situação documental dos presos. Para aqueles que não estão com a documentação eleitoral regularizada, é analisada a possibilidade de emissão ou regularização do título de eleitor. Esse procedimento precisa obedecer ao calendário eleitoral: qualquer alteração deve ser feita até 150 dias antes da eleição. Neste ano, o prazo terminou em 6 de maio.
Com o título regularizado, os tribunais organizam uma transferência provisória do local de votação. A urna eletrônica é alterada, mas o colégio eleitoral do preso permanece o mesmo. Essa mudança pode ser realizada até 20 de agosto, prazo previsto para a atualização dos locais de voto em trânsito.
Na etapa seguinte, a Justiça Eleitoral passa a planejar a realização do pleito em cada unidade, de acordo com o número de eleitores aptos a votar. Segundo Andrade, é preciso definir quais estabelecimentos receberão urnas eletrônicas. Para isso, existe um requisito mínimo de 20 eleitores aptos. Quando o número é inferior, a unidade recebe uma urna de lona, utilizada para a coleta de votos em cédulas. As seções eleitorais são criadas e montadas especificamente para cada estabelecimento prisional.
A organização também costuma contar com a parceria da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Defensoria Pública da União (DPU). Os órgãos são acionados, por exemplo, para auxiliar na captação de mesários. “É difícil angariar mesários fora desses ambientes”, pondera Andrade. “Há parcerias com faculdades para levar pessoas que entendam a situação que vão enfrentar, com regras específicas de entrada e sem a possibilidade de usar o celular livremente.”
Apesar da obrigação de ter uma definição para as transferências temporárias até 20 de agosto, o diálogo entre os TREs, as secretarias e os diretores de estabelecimentos acontece ao longo do ano eleitoral. Como não existe uma diretriz objetiva para as datas dessas etapas, o andamento é definido por cada tribunal.
No dia da votação
Existem algumas possibilidades para o dia da eleição, considerando do estado de cada preso provisório até outubro deste ano:
Prisão provisória: se a pessoa detida continuar como presa provisória, ela poderá votar normalmente na unidade.
Soltura: se tiver sido considerada inocente e, consequentemente, solta pela Justiça, precisará ir no estabelecimento para depositar seu voto. Isso acontece porque a Justiça Eleitoral fez a transferência temporária do seu título.
Condenação: se o preso tiver sido condenado, perde os direitos políticos e a possibilidade de votar. Neste caso, a justiça eleitoral precisa repassar a informação ao mesário da seção eleitoral, de forma que, se houver tentativa, ele impeça o condenado de votar.
Prisão domiciliar provisória: assim como os presos provisórios em unidades penais, eles têm direito ao voto. Porém, cabe aos advogados do detido solicitar uma autorização para deslocamento até o local de votação ao juiz do processo. Presos que não têm inscrição eleitoral no estado em que estão presos provisoriamente precisariam regularizar seu título dentro do prazo estipulado pelo calendário eleitoral, ou seja, até 6 de maio. Já os presos provisórios em domiciliar no seu próprio estado têm até 20 de agosto para conseguir a sua autorização.
Eleições passadas
Segundo dados do TSE, 12.903 presos provisórios votaram na última eleição presidencial, em 2022. Um relatório da Defensoria Pública da União de 2023 afirma que o valor corresponde a apenas 3% dos aproximadamente 400 mil presos provisórios no Brasil, de acordo com a base de dados do Conselho Nacional de Justiça.
Houve uma queda de 50% no pleito seguinte. Em 2024, o número de presos provisórios com transferências temporárias de títulos eleitorais foi de 6.322.
Andrade esclarece que isso acontece porque o preso provisório só pode votar no município onde é eleitor. “Se um homem de Campinas está preso em São Paulo, a seção eleitoral nas eleições presidenciais é considerada conforme o estado”, exemplifica. “Mas em uma eleição municipal, ele não vai conseguir votar. Os números podem refletir essa facilidade nas eleições gerais”.
Questionamento futuro
Para o especialista, é uma questão de tempo até o Supremo Tribunal Federal (STF) ser acionado para analisar o dispositivo da Lei Antifacção que impede o voto de presos provisórios. “O TSE não tem a competência de fazer uma análise em abstrato. Por isso que não declarou inconstitucional”, enfatiza.
O advogado acredita que o Marco voltará a ser discutido no próximo pleito, que são as eleições municipais de 2028. “Essa norma veio agora em 2026. Uma lei abaixo da Constituição não pode restringir algo que a Constituição não restringiu. Em 2028, pode ser que o STF declare a norma inconstitucional”, disse.


Fonte:

g1 > Política

Entenda o que muda após EUA classificarem CV e PCC como ‘terroristas’

Foto: WHoP
O Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o Comando Vermelho e o PCC como “Terroristas Globais Especialmente Designados” e anunciou a inclusão das duas facções na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho.
O comunicado foi assinado pelo secretário Marco Rubio, que descreveu os grupos como “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”, com redes que “se estendem muito além das fronteiras do Brasil, por toda a nossa região e para dentro do nosso país”.
Duas classificações, efeitos distintos
As duas designações aplicadas simultaneamente têm mecanismos jurídicos diferentes. Com a classificação de “Terroristas Globais Especialmente Designados”, todos os bens e interesses em bens de indivíduos ou entidades designados que estejam nos Estados Unidos, que entrem nos Estados Unidos ou que estejam na posse ou sob controle de pessoas dos EUA ficam bloqueados. A medida também proíbe “qualquer transação ou negociação” com pessoas ou grupos afetados pela designação, mesmo fora da jurisdição americana.
Impactos sobre o sistema financeiro brasileiro
O Brasil pode sofrer sanções de natureza financeira porque a inclusão na lista de Terroristas Globais Especialmente Designados pode provocar o congelamento de bens e ativos de indivíduos não americanos ou instituições financeiras brasileiras que tiverem fornecido, conscientemente, apoio material ou financeiro a uma pessoa ou grupo ligado ao PCC ou ao CV. Terceiros podem ser alvo de investigações criminais e processos judiciais por fornecer apoio às organizações designadas.
De policial a questão de defesa nacional
A classificação também muda a forma como os Estados Unidos tratam o assunto, deixando de ser uma questão apenas policial para entrar no campo da defesa nacional. Quem passa a ter responsabilidade sobre isso é a CIA e os militares, saindo da esfera do FBI e da DEA. A alteração tem implicações diretas para o compartilhamento de informações com autoridades brasileiras.
A posição do governo Lula
Em declaração em abril, Lula afirmou que o combate às facções é um problema do governo brasileiro e não dos EUA, avaliando que a classificação pode abrir brechas para intervenções externas. “Nós aprovamos agora a Lei Antifacção, que vai permitir ter uma atuação muito mais poderosa para tentar destruir essas organizações. Essa é uma guerra que é nossa, essa guerra não é dos Estados Unidos”, declarou Lula.
O governo avalia que o PCC e o Comando Vermelho não se enquadram na definição de “terrorismo” da legislação brasileira, por atuarem com motivação econômica e controle territorial, e não ideológica.
O papel de Flávio Bolsonaro
A agenda de Flávio Bolsonaro no exterior foi monitorada pelo governo brasileiro, que via a possível classificação como uma interferência norte-americana na política brasileira de combate ao crime organizado.
O senador do PL declarou após reunião com Marco Rubio. “Batemos de novo na mesma tecla de que os Estados Unidos deveriam classificar, sim, CV e PCC como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de 2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do atual governo, que parece proteger esses marginais.”
O governo Lula resistiu à designação por meses. Os EUA a formalizaram assim mesmo.


Fonte: Conexão Política