‘É mentira’, disse Flávio Bolsonaro mais cedo sobre dinheiro de Vorcaro em filme
O senador Flávio Bolsonaro (PL) admitiu, nesta quarta-feira (13), ter solicitado recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horses, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, após negar publicamente qualquer relação com o caso. A mudança de versão ocorreu depois de o site Intercept Brasil divulgar mensagens e um áudio em que o parlamentar cobra dinheiro do empresário.
As revelações vieram à tona horas após Flávio voltar a negar acusações de que teria pedido dinheiro ao banqueiro, classificando as informações como “mentira” durante declarações na tarde de quarta-feira.
Segundo a reportagem do Intercept Brasil, Vorcaro repassou R$ 61 milhões para bancar a produção, que ainda não foi lançada. A TV Globo confirmou com investigadores e pessoas com acesso às apurações a existência do áudio e do conteúdo revelado.
Após a divulgação do material, o senador reconheceu o pedido de recursos, afirmando que se tratava de um “patrocínio privado para um filme privado”. Ele negou ter recebido vantagens indevidas e acusou aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manterem “relações espúrias” com o Banco Master.
De acordo com o Intercept, os repasses do banqueiro para o filme ocorreram entre fevereiro e maio de 2025, por meio de um fundo nos Estados Unidos ligado a um aliado de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador.
Já as conversas entre Flávio e Vorcaro aconteceram entre setembro e novembro de 2025. Um dia antes da operação da Polícia Federal que resultou na prisão do banqueiro, quando ele se preparava para deixar o país em um jatinho, o senador enviou uma mensagem afirmando: “estou e estarei contigo sempre”.
Entre março e maio de 2026, Flávio intensificou ataques públicos à instituição financeira, defendeu a criação de uma CPI para investigar o caso e reiterou que a direita não tinha ligação com o escândalo apurado pela Polícia Federal.
Veja a cronologia:
2025: Troca de mensagens e o financiamento do filme
Neste período, as mensagens mostram Flávio Bolsonaro tratando Daniel Vorcaro como um aliado próximo, essencial para a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro, intitulada “Dark Horse”.
24 de setembro: Flávio e Vorcaro trocam ligações e tentam agendar reuniões em São Paulo.
Flavio Bolsonaro: Ligação de Voz (00:45) (13:38)
Flavio Bolsonaro: Ligação de Voz (00:25) (17:46)
Daniel Vorcaro: Irmao, Infelizmente vou precisar ficar em sp amanha. Poderiamos marcar terça final dia ou quarta qq hora? (21:25)
Flavio Bolsonaro: Fala mermao, veja o que for melhor pra vc. Vou estar aqui a semana toda. (21:53)
Daniel Vorcaro: Quarta 14:30? (21:59)
Flavio Bolsonaro: Ligação de Voz (01:50) (22:00)
1 de outubro: Flávio envia um áudio longo expressando preocupação com as contas do filme. Ele afirma que estão em um “momento decisivo” e teme dar um “calote” em astros como Jim Caviezel e no diretor Cyrus Nowrasteh. Pede uma “posição” de Vorcaro sobre repasses financeiros, citando que “já tem muita conta para pagar esse mês”.
22 de outubro: Flávio convida Vorcaro para um jantar reservado em São Paulo com Jim Caviezel. Vorcaro oferece sua própria casa para o evento. Na mesma conversa, Flávio se oferece para que seu irmão (Eduardo Bolsonaro) encontre Vorcaro em Dubai caso ele precise de algo.
07 de novembro: Flávio envia um vídeo a Vorcaro com a mensagem: “Tudo isso só está sendo possível por causa de vc!”.
16 de novembro: Em meio a pressões financeiras, Flávio escreve: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.
Março a primeira semana de maio: ataque ao Master e tentativa de vinculação ao governo Lula
Com a proximidade das eleições e o avanço das investigações sobre o Banco Master, Flávio Bolsonaro adota um discurso de ataque à instituição, vinculando-a ao governo Lula.
O senador também vinha defendendo a instauração de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no Congresso para investigar o escândalo.
Em suas contas no X e no Instagram, foram publicados ao menos 17 conteúdos com citações diretas ao Banco Master na legenda, sendo 4 republicações entre as redes, em três meses.
09 de março: Flávio anuncia publicamente que assinou o pedido de CPI do Banco Master.
18 de março: Posta no Instagram questionando se o esquema seria “Master Lula ou Lula Master?”.
23 de março: Declara nas redes sociais que o “lulopetismo baiano está no DNA do caso Master” e que o esquema é a “cara da esquerda”.
O vídeo finaliza com a fala: “Esperamos que Daniel Vorcaro faça a sua delação e entregue tudo que ele sabe”.
Postagem de Flávio Bolsonaro no X em 23 de março de 2026
Reprodução/X
24 de março: Em entrevista à CNN, nega qualquer vínculo da direita com o banco: “Essa conta do Banco Master tá longe de chegar perto da direita”. Pede a convocação de Gabriel Galípolo e Fernando Haddad para depor sobre agendas não públicas com o banco.
06 de abril: No podcast Inteligência Ltda, inclui o Banco Master em uma lista de “escândalos de corrupção” do governo Lula.
12 de abril: Ataca o chefe da Polícia Federal, chamando-o de “pau mandado de Lula” e alegando que ele “viaja bancado pelo banco Master”.
Postagem de Flávio Bolsonaro no X em 12 de abril de 2026
Reprodução/X
16 de abril: Em entrevista à Jovem Pan, Flávio Bolsonaro classifica o caso como um “escândalo de corrupção” do governo Lula e afirma que as investigações revelariam conexões do banco com o poder político em Brasília. Diz que o nome de Bolsonaro não aparece nas apurações.
“Com relação ao caso do Banco Master, mais um escândalo de corrupção ocorrido dentro do governo Lula, que provocou essa boca rota toda, essa preocupação toda no sistema financeiro que atingiu tantas pessoas e mostrou as entranhas como funciona o poder em Brasília e tem que tem tentáculos em tudo quanto é lugar, mas mais uma vez você não encontra o nome de Bolsonaro em nenhuma lista dessa, em nada que possa ter algum envolvimento com o Banco Master”.
19 de abril: Compartilha no X reportagem que relaciona Banco Master e Lula e lança o slogan: “O Pix é do Bolsonaro, o Banco Master é do Lula!”.
Postagem de Flávio Bolsonaro no X em 19 de abril de 2026
Reprodução/X
No fim de abril, o PT exibiu um vídeo em seu congresso nacional em que associava o caso Master ao governo Bolsonaro, nomeando o escândalo como Bolsomaster. O argumento é que as irregularidades reveladas pela Polícia Federal ocorreram na gestão de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central indicado pelo ex-presidente. O material também cita doações de Fabiano Zettel, cunhado e sócio de Vorcaro, à campanha de Bolsonaro.
Em nota, Flávio mais uma vez acusou o PT de ligações com o escândalo e citou a reunião intermediada por Mantega e o contrato de Lewandowski.
“As acusações do PT são mentirosas e absurdas. A tentativa de vincular o senador Flávio Bolsonaro revela o desespero de quem vê a crise atingir o próprio governo. Flávio não tem qualquer relação com o banco Master e esse esquema de corrupção ocorrido em 2024, já no governo Lula”, diz o texto.
08 de maio: Afirma, em postagens no Instagram e no X, que o PT tem “medo” da investigação e que a oposição sempre apoiou a CPI. “Tudo acontece nos governos do PT. Mas, curiosamente, nunca é culpa deles.”
“O PT foi contra a CPI. Os deputados do PT não assinaram. Só que agora não dá mais para segurar. Aí vem o teatro e eu te pergunto, será que o PT tá contra a CPI porque envolve político da Bahia, que eles controlam há mais de 20 anos? Ou será porque a família do Jaques Wagner, líder do PT, recebeu 11 milhões em uma empresa ligada ao caso? Ou porque o Guido Mantega que já foi ministro da Fazenda do Lula recebia 1 milhão por mês no banco só para fazer lobby dentro do governo? Ou por que o Lewandowski, ex-ministro da Justiça, recebeu 5 milhões? Agora segura essa: ou será que é porque o próprio Lula teve uma ótima reunião fora da agenda oficial com o dono do Banco Master cercado de ministros de primeiro escalão como Rui Costa, da casa civil Coincidências demais né? ”
Postagem de Flávio Bolsonaro no Instagram no dia 8 de maio de 2026
Reprodução/Instagram
Em fevereiro, Lula confirmou que houve a reunião e contou que apenas disse a Vorcaro que as investigações sobre o Master seriam técnicas, sem interferência política. Segundo o presidente, interesses privados não foram tema da conversa.
09 de maio: Em evento em Florianópolis, Flávio usa uma camiseta verde com a frase “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”.
Flávio Bolsonaro usou uma camiseta com a inscrição “O PIX é do Bolsonaro; o Master é do Lula”.
Reprodução
Durante uma entrevista coletiva no último fim de semana, Flávio afirmou que “a esquerda tenta criar narrativas querendo vincular de alguma forma o Bolsonaro à questão do Banco Master, mas não dá liga”.
“Não foi o Bolsonaro que se reuniu escondidinho com o Vorcaro, foi o Lula”, afirmou. Flávio se referia ao encontro ocorrido em 2024 no Palácio do Planalto, quando Lula recebeu Vorcaro fora da agenda oficial, a pedido do ex-ministro Guido Mantega.
13 de maio: o áudio vazado
13 de maio: Questionado por repórteres na saída do STF sobre os pedidos de dinheiro a Vorcaro, Flávio nega tudo, afirmando ser “mentira”. Após a publicação do áudio, o parlamentar volta atrás e admite ter solicitado recursos para financiamento do filme Dark Horses.
14 de maio: Relatórios indicam que o financiamento de Vorcaro para o filme teria chegado a R$ 61 milhões. Aliados do senador declaram estar “perplexos” com a contradição entre o discurso público e as mensagens privadas.
Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.
Reprodução
Fonte:
g1 > Política