A Copa do Mundo de 2026, co-organizada por Estados Unidos, Canadá e México, era vista como uma oportunidade histórica de ouro para a economia americana. Projeções da FIFA e de consultorias indicavam um impacto econômico de cerca de US$ 30,5 bilhões apenas nos EUA, com a criação de 185 mil empregos, impulsionado principalmente por milhões de turistas internacionais que gastam muito mais que os domésticos.
No entanto, a poucos meses do início do torneio (11 de junho a 19 de julho de 2026), um cenário diferente se desenha: torcedores estrangeiros estão desistindo em massa, cancelando viagens, devolvendo ingressos e aderindo a boicotes. Hotéis nos 11 estádios-sede americanos registram reservas muito abaixo do esperado, e o “boom” prometido corre sério risco de virar decepção.
As expectativas iniciais: um megaevento econômico
Antes mesmo da definição final das sedes, estudos da FIFA em parceria com a Organização Mundial do Comércio (OMC) e consultorias como Tourism Economics pintavam um quadro otimista. Estimava-se a chegada de 1,2 milhão a mais de 6 milhões de visitantes internacionais só para os EUA, com permanência média de 12 dias, gasto diário superior a US$ 400 e foco em turismo esportivo.
O torneio seria o maior da história, com 48 seleções e jogos espalhados por um continente. Cidades-sede como Nova York/Nova Jérsei, Los Angeles, Miami, Atlanta, Seattle, Kansas City e outras prepararam infraestrutura, fan fests e pacotes hoteleiros. A expectativa era que o evento injetasse bilhões em hotéis, restaurantes, transportes, varejo e turismo em geral — com turistas estrangeiros gastando até quatro vezes mais que americanos.
FIFA e governo federal (na época das projeções) celebravam: seria não só um espetáculo esportivo, mas um catalisador para recuperar o turismo americano pós-pandemia e em meio a desafios geopolíticos.
O que mudou? Os motivos do boicote e da desistência
Vários fatores se combinaram para esfriar o entusiasmo internacional:
1. Preços exorbitantes de ingressos e pacotes
Ingressos dispararam com modelos de precificação dinâmica. Mesmo após pressão de fãs e congressistas americanos, que forçaram a liberação de alguns bilhetes a partir de US$ 60, o custo médio para um torcedor europeu ou sul-americano assistir a poucos jogos (passagem + hotel + ingresso) facilmente ultrapassa US$ 5.000 a US$ 9.000. Muitos reclamam que o futebol, esporte popular, está sendo “vendido” para elites.
2. Custos de viagem e dólar forte
Passagens aéreas caras, inflação global e câmbio desfavorável (dólar forte) tornaram a viagem proibitiva para torcedores de renda média na Europa, América Latina, África e Ásia.
3. Preocupações com imigração, vistos e tratamento nos EUA
Políticas de imigração mais rigorosas, buscas em celulares nas fronteiras, demora em vistos (mesmo com fila prioritária para quem tem ingresso) e medo de abordagens de agentes de imigração (ICE) geram insegurança. Torcedores relatam receio de serem barrados, detidos ou maltratados. Países como Holanda viram petições com mais de 174 mil assinaturas pedindo boicote ou até retirada da seleção.
4. Contexto político e geopolítico
Críticas à administração Trump (mencionada em diversas reportagens), tensões internacionais (como conflitos no Oriente Médio), declarações polêmicas e imagem dos EUA como destino menos acolhedor contribuíram. Ex-presidente da FIFA Sepp Blatter chegou a sugerir publicamente que fãs “ficassem longe” do evento nos EUA. Grupos nas redes sociais (“Boycott FIFA World Cup 2026 in USA”) ganharam tração.
5. Cancelamentos de blocos hoteleiros pela FIFA
A própria FIFA cancelou ou liberou cerca de 70% dos grandes blocos de quartos reservados, inundando o mercado e causando cancelamentos em cascata (até 95% em algumas cidades). Isso sinalizou para hoteleiros que a demanda internacional não estava se materializando.
Impactos atuais: dados preocupantes
Hotéis: Quase 80% dos operadores em nove das 11 cidades-sede americanas relatam reservas muito abaixo das projeções (American Hotel & Lodging Association, maio 2026). Algumas cidades como Atlanta e Miami resistem melhor, mas o quadro geral é de desalento;
Reservas aéreas: Quedas significativas de Europa (-5% a -6,7%) e Ásia (-3,6%), praticamente estável da América do Sul. Comparado a anos sem Copa, o movimento está mais fraco;
Turismo geral: Os EUA foram o único grande país com queda no turismo internacional em 2025. A Copa era vista como recuperação; agora, projeções foram revisadas para baixo;
Ingressos: Mais de 5 milhões vendidos, mas foco crescente em público doméstico americano. Torcedores internacionais, que gastam mais, estão ausentes;
Cidades estão escalando para trás fan fests ou cancelando alguns, antecipando menos multidões internacionais.
Consequências para as cidades-sede e a economia
O impacto vai além de hotéis. Restaurantes, transportes, comércio e pequenas empresas contavam com o influxo. Turistas estrangeiros ficam mais tempo, gastam em experiências e atraem cobertura midiática positiva. Sem eles, o retorno econômico pode ser bem inferior aos US$ 30 bi projetados — possivelmente concentrado em consumo doméstico de menor valor.
Algumas cidades já oferecem descontos agressivos em hospedagem. Otimismo persiste em relação a uma “surge” de última hora de torcedores americanos e latinos próximos, mas especialistas duvidam que compense a ausência europeia, asiática e africana.
A Copa de 2026 ainda será um grande evento, com estádios lotados por torcedores locais e de seleções participantes. O futebol americano deve ganhar visibilidade, e o legado em infraestrutura pode ser positivo. No entanto, o episódio expõe vulnerabilidades:
Imagem do país como destino turístico pode sofrer;
Dependência excessiva de projeções otimistas;
Como geopolítica, preços e facilidades de viagem afetam megaeventos;
A necessidade de equilibrar receita (preços altos) com acessibilidade e acolhimento;
FIFA e organizadores continuam otimistas publicamente, destacando recorde de ingressos vendidos. Mas relatórios da indústria e relatos de torcedores pintam um quadro mais sóbrio: a festa global pode ser mais “americana” do que o planejado.
Enquanto o mundo do futebol conta os dias para o pontapé inicial, a pergunta que fica é: o “maior e melhor Copa da história” entregará o espetáculo econômico prometido ou servirá de alerta sobre como fatores externos podem derrubar até os maiores planos? O torneio dirá.
Fonte: Jovem Pan