A notícia caiu como uma bomba entre os bolsonaristas. Em poucos minutos recebi uma avalanche de mensagens perguntando se o que a imprensa estava revelando sobre os contatos de Flávio Bolsonaro com Vorcaro era verdade. Sim. Eles mantiveram contato, inclusive para discutir ajuda financeira ao filme sobre Bolsonaro. Não. Ninguém pode afirmar que houve irregularidade nessa conversa.
Flávio gravou um vídeo explicando que foi apenas negócio com um investidor para o filme, e que Bolsonaro já não estava mais no poder. Enfatizou que foi zero de dinheiro público. Segundo ele, foi tudo com recursos privados, diferente do que fazem governistas com o uso da Lei Rouanet. Insistiu na CPI do Banco Master.
A questão do momento é esta: diante dos fatos vindos à luz recentemente, Flávio poderia vestir véu e grinalda para se casar com César? Em política, aparência e narrativa costumam pesar tanto quanto os fatos. Uma leve nódoa incrustada na pétala do buquê da noiva pode ser suficiente para a criação das mais estapafúrdias narrativas.
Homem sem sossego
Quando diziam que quase ninguém escapou dos tentáculos de Vorcaro em Brasília, não parece ser apenas força de expressão. O homem perambulou pelas portas mais poderosas da capital brasileira. As últimas informações demonstram que não sobrou pedra sobre pedra. O ex-banqueiro parecia imparável.
Ele não se limitava a tirar fotos, gravava conversas em seu celular. E, dependendo do que foi registrado, isso pode gerar repercussão muito maior do que uma simples fotografia. Há relatos de que a Polícia Federal avaliou apenas 10% das ligações e mensagens trocadas por Vorcaro com integrantes dos três poderes da República.
O bumerangue do Master
E no momento em que os eleitores de Flávio esfregavam as mãos para comemorar o tsunami que arrasava os opositores no caso Master, eis que o bumerangue se volta contra eles. Num primeiro momento, o candidato do PL para a presidência negou que havia mantido qualquer contato com Vorcaro quando seu nome surgiu na agenda do banqueiro. Em seguida, precisou ajustar o discurso para não se comprometer.
Divulgou um vídeo dizendo que havia pedido dinheiro a Vorcaro, mas negando que houvesse qualquer irregularidade. Só que o tom da conversa sugeria proximidade pessoal: “Fala, irmãozão, estarei contigo sempre.”
R$ 61 milhões
Segundo a jornalista Malu Gaspar, o publicitário Thiago Miranda foi quem intermediou os contatos para que Vorcaro disponibilizasse R$ 61 milhões para o filme sobre Bolsonaro. No fim, foram aportados R$ 2,3 milhões devidamente declarados. Miranda ressaltou que os pagamentos foram suspensos com o estouro da crise do Master. Afirmou ainda que esse negócio era privado, não tinha nada a ver com questões públicas.
Público ou não, em termos de campanha política o caldo começou a entornar para Flávio. Seu pedido foi explícito: “Tá num momento muito decisivo aqui do filme. E como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme.” Até aqui não parece ter havido irregularidade, mas convencer os adversários e o eleitorado disso é que são elas.
Jantar indigesto
E não parou por aí. Em outubro, novas mensagens são trocadas. Flávio se mostrava preocupado com a situação. Disse que estavam no limite. E dava a impressão de que a corda estava mesmo no pescoço, tanto que convidou o banqueiro para um jantar com o ator Jim Caviezel, que interpreta o papel de Bolsonaro no filme. Vorcaro aceita e sugere que seja na sua casa. Sugestão aceita.
Esses contatos já seriam suficientes para criar dificuldades para Flávio em sua campanha, que até aqui vinha em voo de cruzeiro. Só as próximas semanas, talvez até os próximos dias, revelarão o tamanho do engasgo provocado por esses acontecimentos na corrida presidencial. Por enquanto é só bombardeio e guerra de narrativas.
Agora é a hora de Flávio demonstrar que possui couro duro para enfrentar e vencer desafios. Questões como essa surgem aos borbotões para quem pretende chegar ao Palácio do Planalto. Bolsonaro que o diga. É a oportunidade de mostrar aos eleitores se ele é apenas filho do pai ou se tem personalidade própria para essas batalhas.
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Fonte: Jovem Pan