O Interior de São Paulo é tratado como decisivo na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes tanto pela campanha do governador e pré-candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos) quanto pela do ex-ministro Fernando Haddad (PT). O perfil conservador da região é visto como um dos principais ativos eleitorais de Tarcísio e ajuda a explicar a liderança folgada do atual chefe do Executivo estadual nas pesquisas de intenção de voto.
Nesta quarta-feira, 29, a pesquisa Genial/Quaest apontou o governador com 41% das intenções de voto no Estado, ante 26% de Haddad. Em um eventual segundo turno, Tarcísio venceria o petista por 48% a 32%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo SP-04846/2026.
Em 2022, Tarcísio venceu fora da Grande São Paulo com 63% dos votos, enquanto Haddad ganhou por 53% na Região Metropolitana. O desafio levou a campanha de Haddad a lançar sua candidatura no sábado, 25, em Campinas (SP), após avaliar também a realização do evento em Ribeirão Preto (SP). As duas cidades foram consideradas por concentrarem alguns dos principais núcleos da militância petista no Interior e já terem sido governadas pelo partido.
Além disso, o entorno do ex-ministro tem apostado no debate econômico para conquistar um eleitorado considerado mais pragmático, com críticas às tarifas impostas pelos Estados Unidos e às privatizações promovidas pela gestão Tarcísio.
O entorno governista, por outro lado, considera difícil uma reversão desse cenário, tanto pelo perfil ideológico predominante em parte do Interior, evidenciado pela força do bolsonarismo nas eleições anteriores, quanto pela capilaridade partidária construída por Tarcísio.
O governador deve contar com o apoio de outros 12 partidos: Avante, Cidadania, MDB, Novo, PL, Podemos, PP, PRD, PSD, PSDB, Solidariedade e União Brasil. Apenas MDB, PL, PSD e Republicanos comandam, juntos, 461 das 645 prefeituras paulistas.
De acordo com os cientistas políticos ouvidos pelo Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), Tathiana Chicarino, coordenadora do curso de graduação em Sociologia e Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), e Eduardo Grin, especialista em Administração Pública e Governo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), três fatores ajudam a explicar a preferência já consolidada do eleitorado do interior por Tarcísio em relação a Haddad.
Força do agronegócio e cultura empreendedora
O Interior paulista não é homogêneo. Municípios menores e mais ligados ao agronegócio, como Adamantina, e polos regionais com forte presença do setor, como Piracicaba, tendem a concentrar maior apoio à direita e ao bolsonarismo, o que favorece Tarcísio, segundo Chicarino.
Já cidades médias, mais industrializadas e com presença de universidades, como Campinas, costumam apresentar disputas eleitorais mais equilibradas e podem ser menos desfavoráveis a Haddad.
O peso do agronegócio, porém, não se restringe à economia. Segundo Grin, a atividade também estrutura um “modo de vida” e influencia as relações de trabalho, as formas de sociabilidade e os hábitos culturais da população, contribuindo para um ambiente político mais identificado com a direita e com valores regionalistas.
“É uma visão de mundo muito específica, baseada em uma compreensão na qual está presente a ideia de empreender com fé”, explica Grin.
Essa visão tende a valorizar o empreendedorismo, o mercado e uma atuação mais limitada do Estado. Nesse ambiente, propostas identificadas com maior intervenção estatal e expansão de políticas sociais, historicamente associadas ao PT, podem ser percebidas por parte do eleitorado como obstáculos à iniciativa individual.
Do tucanato ao bolsonarismo
O antipetismo no Interior paulista também está relacionado à hegemonia exercida pelo PSDB no Estado durante cerca de três décadas. A força tucana dependia, em grande parte, da capacidade de articular prefeitos e lideranças municipais, o que permitiu ao partido manter uma estrutura política capilarizada no Interior.
Na avaliação de Grin, mais do que construir uma máquina eleitoral, o PSDB também ajudou a consolidar uma visão de mundo favorável à livre iniciativa, à responsabilidade individual e a políticas mais rígidas de segurança pública.
Com o avanço da Lava Jato e do discurso de rejeição à política tradicional, esse modelo começou a se desgastar. A ascensão do ex-governador João Doria, apresentado como gestor e não como político, sintetizou essa mudança e aprofundou as disputas internas do partido.
“Digamos que o bolsonarismo veio a dourar a pílula de uma visão de mundo que já estava latente e muito forte dentro dos governos do PSDB”, afirma Grin.
Nesse sentido, a aproximação tucana com pautas mais conservadoras facilitou a migração de parte de seu eleitorado para o bolsonarismo. O movimento ganhou sua expressão mais evidente na campanha do “Bolsodoria”, em 2018, quando Doria se alinhou ao então candidato à Presidência Jair Bolsonaro durante a disputa eleitoral.
Esse processo também foi favorecido pela presença histórica de um eleitorado afetivamente mais identificado com a direita, a exemplo do que ocorre em algumas áreas da capital paulista. Bairros da zona norte que foram redutos eleitorais dos ex-governadores Adhemar de Barros e Paulo Maluf, por exemplo, atualmente concentram maior apoio a Tarcísio e registraram votação expressiva em Ricardo Nunes (MDB) e Pablo Marçal (União) nas eleições municipais de 2024.
Fator Kassab
Chicarino aponta que Gilberto Kassab (PSD), ex-secretário de Governo e Relações Institucionais de Tarcísio, teve papel fundamental na vitória do governador em 2022 e deve voltar a ocupar posição estratégica na eleição deste ano. A força do dirigente está ligada principalmente à capilaridade do PSD, que reúne 206 prefeitos no Estado, e à incorporação de quadros que deixaram o PSDB para ingressar na sigla.
“Kassab é uma figura muito importante para observarmos essa transformação, essa mudança de polo”, afirma Chicarino.
À frente do PSD, Kassab acompanhou o deslocamento de antigos integrantes do PSDB e se aproximou do eleitor bolsonarista. Em 2022, o partido indicou Felício Ramuth para a vice na chapa de Tarcísio. Após a vitória, Kassab passou a articular uma estratégia para ocupar a vice do governador na eleição seguinte, movimento que poderia colocá-lo em posição favorável para disputar o governo em 2030.
A articulação, porém, não prosperou. Ramuth deixou o PSD e se filiou ao MDB, enquanto Kassab saiu do governo estadual após uma série de atritos com Tarcísio. Ainda assim, o dirigente manteve o apoio à reeleição do governador e resistiu às investidas de aliados de Haddad, mesmo depois de ficar fora da chapa majoritária e de Tarcísio não apoiar a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado (PSD).
Uma fonte ouvida sob reserva avalia que Kassab teria pouco espaço político para romper com Tarcísio, ainda que desejasse fazê-lo, diante da identificação do eleitorado do Interior e dos prefeitos de seu partido com o governador.
“Erram os que insistem em ignorar que nosso apoio ao governador Tarcísio é incondicional”, publicou o dirigente nas redes sociais recentemente.
Fonte: Jovem Pan